Análise do Discurso: Religião, Psiquiatria e Ciência

Todo discurso é ideológico, inclusive a própria análise do discurso ou a própria concepção de ideologia. A análise do discurso é em si uma ideologia, tanto quanto a concepção de ideologia é em si um discurso ideológico. Não há discurso que não seja ideológico e nem ideologia que não seja discursiva. Por trás de todo discurso ideológico ou ideologia discursiva existe sempre o interesse pessoal do autor do discurso ou da ideologia a que ele está engendrado. O fundamental na análise do discurso não é exatamente o fundamento ideológico de cada discurso, mas sim a sua finalidade, seu propósito. A análise do discurso é uma metalinguagem, sendo, portanto, impossível, posto que ela mesma seja uma ideologia; ou seja, analisar a ideologia engendrada em um discurso é algo impossível porque a própria análise do discurso é uma ideologia. O que importa em um discurso não é exatamente o discurso em si ou sua ideologia, mas sim o fundamento moral de tal discurso ideológico. Não nos importa sabermos se tal discurso ideológico é de ordem científica, teológica, religiosa, racista, fascista, comunista ou capitalista, mas sim sabermos se tal discurso é moralmente bom ou mau, pois todos esses discursos em si mesmos são uma ideologia. Portanto, o objeto da análise do discurso não é o próprio discurso, mas sim a intensão moral da ideologia que está por trás do discurso. Não importa saber em qual ideologia o discurso se fundamenta; o que importa é saber se tal ideologia é moralmente boa ou má, se ela é justa ou injusta, se é certa ou se é errada. É necessário também saber quais ideologias e quantas ideologias esconde um discurso ideológico; por exemplo; um discurso x pode conter em si um discurso x, y, z. Existe um conjunto ideológico do discurso bem como existe um subconjunto ideológico dentro da própria ideologia do discurso. A análise do discurso não deve procurar saber qual é a ideologia por trás do discurso, mas sim procurar saber qual é a intensão moral por trás da ideologia, pois, como dissemos no início, todo discurso é ideológico e toda ideologia é discursiva, e ambos só são possíveis devido à linguagem.

Mas o que é a linguagem? A linguagem é o conjunto de todos os significantes. Mas se a linguagem é o conjunto de todos os significantes, isso implica que, para ela ter surgido, é necessário que haja a ausência de um significante dentro do conjunto de todos os significantes, e esse significante ausente é, para nós, o fogo, como vos dissemos em outro lugar. O que está em questão quando nos referimos à origem, à essência e à natureza da linguagem é o Paradoxo de Russell (1872-1970). Considere o conjunto de significantes L como sendo “o conjunto de todos os conjuntos que não se contêm a si próprios como membros”. Formalmente: o significante representado pela letra S é elemento da linguagem representada pela letra L se e só se S não é elemento de S. Em outras palavras, o significante é elemento da linguagem se e só se o significante não é elemento do conjunto de significantes.

L = {S / S Ɇ S}

No sistema linguístico, L é um conjunto bem definido de significantes. A questão a ser resolvida aqui é a seguinte: será que L se contém a si mesmo? Se sim, não é membro de L de acordo com a definição. Por outro lado, supondo que L não se contém a si mesmo, tem de ser membro de L, de acordo com a definição de L. Desse modo, as afirmações “L é membro de L” e “L não é membro de L” conduzem ambas a contradições. Isso corrobora a tese de Lacan de que não há uma metalinguagem ou um metadiscurso que de alguma forma consiga escapar às limitações do paradoxo exposto acima, uma vez que o sujeito está sempre operando dentro de uma linguagem específica, mesmo quando fala de uma outra linguagem, quer dizer, nem mesmo no exemplo clássico de Hamlet, onde existe uma peça de teatro dentro da própria peça, há uma metalinguagem, porque a linguagem usada para descrever a peça teatral dentro da própria peça teatral não é outra senão a própria linguagem teatral; ou seja, nem mesmo se um sujeito sonhasse que estivesse tendo um sonho isso constituiria uma metalinguagem, pois a linguagem usada para descrever o sonho dentro do próprio sonho seria a própria linguagem onírica. Todos os exemplos de metalinguagem são completamente falsos e ilusórios, pois, em verdade, não há uma metalinguagem, e isto quer dizer: não há uma verdade da verdade. Não existe em nenhum exemplo de metalinguagem um ponto fora da linguagem, mas simplesmente uma elucidação da linguagem analisada. Toda linguagem requer uma perda de gozo (a exemplo da própria linguagem, que nasceu da perda do fogo) e tem sua própria verdade, que é, por vez, cuidadosamente camuflada. Cada linguagem define essa perda do gozo de uma forma específica. Kant (1724-1804) elucidou determinadas características do discurso metafísico, Hegel elucidou determinadas características do discurso do mestre, Lacan elucidou determinadas características do discurso da universidade, da histérica e do analista, Marx (1818-183) por outro lado elucidou determinadas características do discurso capitalista, Olavo de Carvalho (1947), por sua vez, elucidou determinadas características do discurso comunista, Frege (1848-1925), Russell e Wittgenstein (1889-1951) elucidaram determinadas características do discurso lógico-matemático, o Alvissarismo elucidou determinadas características do discurso científico, psicanalítico, filosófico, teológico e religioso, mas nenhuma dessas elucidações tão importantes para a história da filosofia constituem um metadiscurso, pois é somente após identificarmos as características fundamentais de um discurso que podemos saber como ele funciona de fato.

No entanto, para sabermos como um discurso funciona de fato, é necessário que definamos o que é a ideologia que sustenta esse discurso. A questão fundamental da análise do discurso é: o que é a ideologia e qual ideologia está por trás desta definição de ideologia? Como dissemos anteriormente, a própria definição de ideologia é em si uma ideologia. Mas o que é a ideologia? É possível definir a ideologia não ideologicamente? Não. Não é possível, pois o mero ato de definir o conceito de ideologia já pressupõe um discurso ideológico. Portanto, qualquer que seja a definição de ideologia, ela será sempre carregada de uma ideologia própria. Isso é o que pode ser chamado de ideologia da ideologia. Não existe, portanto, uma definição de ideologia que seja neutra e outra que seja crítica, pois toda definição de ideologia é crítica e está necessariamente carregada de um discurso ideológico embutido em sua própria definição. No entanto, é necessário que definamos a ideologia de alguma forma. E esta forma é a seguinte: ideologia é um conjunto de ideias. Esta é a forma mais simples e menos ideológica de se definir a ideologia. Mas a ideologia não é um simples conjunto de ideias; ela, na verdade, é um conjunto de ideias estruturadas em um determinado discurso orientado pela convicção e o interesse próprio de quem o profere. Em outras palavras, a definição de ideologia concebida anteriormente é um conjunto de ideias estruturadas pelo discurso orientado pela convicção e interesse próprio do presente autor, que é o interesse de revelar a ideologia por trás de toda definição de ideologia. Mesmo que essa definição seja a mais simples e menos ideológica possível, ela não deixa de ser uma ideologia. Nenhuma concepção de ideologia é neutra, isto é, toda definição de ideologia é necessariamente orientada pela convicção pessoal e o interesse próprio de quem define o conceito de ideologia, do mesmo modo é com todas as palavras das diversas línguas humanas, pois a nomeação de um objeto ou coisa por um sujeito ou grupo provém da convicção pessoal e do interesse próprio do mesmo.

Analisemos, portanto, a definição mais clássica de ideologia na história da filosofia e vejamos qual é a ideologia por trás de tal definição. Bem, a definição de ideologia mais famosa no mundo acadêmico fora a definição criada por Marx e seus seguidores. Esta definição consiste basicamente na seguinte proposição: ideologia é um conjunto de ideias que servem de instrumento de dominação que age por meio do discurso mascarando a realidade de seu objeto. Esta definição, no entanto, contém em si mesma um discurso ideológico orientado pela convicção e pelo interesse pessoal de Marx e dos marxistas, interesse esse que é o de libertar o proletário da dominação burguesa. Por outro lado, duvido muito que um capitalista produzisse uma definição de ideologia idêntica a esta; na verdade ele provavelmente criaria uma definição contrária orientada pelo seu interesse em manter a burguesia no domínio do proletário.

  • O discurso teológico e religioso

Analisemos agora o discurso teológico e religioso. De acordo com uma interpretação cristã ortodoxa, católica ou protestante, o discurso cristão (o cristianismo) é o único discurso religioso verdadeiro, sendo todas as outras religiões não cristãs tidas como não religiões, como religiões falsas ou religiões demoníacas. Esse discurso como se pode ver, esconde dentro de si um individualismo epistêmico. O que, no entanto, devemos nos perguntar é se esse discurso ideológico epistemologicamente individualista é bom ou mal para a humanidade. Ou seja, afirmar que o cristianismo é a única religião verdadeira é um discurso moralmente bom ou mal para a humanidade? Antes de respondermos essa pergunta, se torna necessário que definamos o que é o bom e o que é o mau.

Na peça O Julgamento de Cristo nós definimos o bom como tudo aquilo que é digno de ser desejado e amado pelo Outro; o bom é, portanto, o amor, e o mau, por sua vez, é o seu oposto, ou seja, o ódio. Essa definição do bom e do mau por nós outrora estabelecida é contraposta a definição proposta por Nietzsche, onde o bom é a vontade de poder e o mau a sua ausência. Estabelecida à definição do bom e do mau, agora nos perguntemos novamente: afirmar que o cristianismo é a única religião verdadeira é um discurso moralmente bom ou mau para a humanidade? Bem, se seguirmos a definição de Nietzsche (um ateu e anticristão), então o discurso ideológico do cristianismo será bom, pois nele está embutida a vontade de poder revelada pela posse da Verdade Absoluta como sendo a única religião verdadeira na face da terra, prevalecendo o poder do cristão sobre os não cristãos e do cristianismo sobre todas as outras religiões. Ou seja, o cristianismo, nesse ponto, é mais nietzschiano do que cristão, o que é uma contradição, já que Nietzsche era anticristão. Por outro lado, se adotamos a definição por nós proposta, isto é, a definição de que o bom é tudo aquilo que é digno de ser desejado por causar desejo no outro, ou seja, o amor, então fica obvio que o discurso ideológico promulgado pelo cristianismo ortodoxo, católico e protestante é um mau absoluto, pois ao invés de gerar o amor entre as pessoas, ele gera o ódio, já que seu individualismo epistemológico é notoriamente um instrumento de fomentação de uma atitude megalomaníaca em que o cristão se vê como superior a todos os outros seres humanos, dando origem ao fanatismo, a intolerância religiosa e a discriminação que, em alguns caso registrados na história da humanidade, gerou até mesmo a guerra não somente entre cristãos e não cristãos, mas também entre os próprios cristãos. O discurso ideológico religioso foi, durante muitos momentos da história humana, a fonte e a matriz das maiores atrocidades e até mesmo de verdadeiras carnificinas, que todos nós concordamos que não são dignas de serem desejadas ou amadas, sendo, portanto, um discurso que contém em si o mau absoluto e não o bem. Desse ponto de vista o discurso cristão que prega o amor e a bondade não passa de um discurso hipócrita, pois prega uma coisa e faz exatamente o seu oposto. Falo aqui do cristianismo por este é o discurso religioso mais influente do Brasil, mas, na verdade, todas as outras religiões mundiais adotam o mesmo discurso, salvo uma religião moderna conhecida como Fé bahá’í, que notoriamente não adere ao individualismo epistêmico que é a matriz de toda intolerância ao diferente no discurso religioso, sendo um discurso perigoso à sociedade e danoso à humanidade, pois coloca alguns poucos homens como superiores aos outros. Desse ponto de vista há pouca diferença entre o discurso religioso do cristianismo e de todas as religiões adeptas do individualismo epistêmico e o discurso político do nazismo, sendo a única diferença entre ambos os discursos o objeto da megalomania, pois enquanto no discurso nazista o objeto de seu sentimento de superioridade é a raça, no discurso religioso o objeto é a fé. Desse ponto de vista a religião é, em verdade, um nazismo teológico.  O que está por trás desse tipo de discurso é, portanto, a vontade de poder e não o amor, ou seja, o que está por trás desse discurso é o mal e não o bem.

A vontade de poder rege boa parte da lógica do discurso religioso, sendo esta a fonte das maiores atrocidades humanas cometidas em nome de Deus e da religião, sendo as mais conhecidas as seguintes atrocidades: as cruzadas, a santa inquisição, a caça as bruxas, a guerra dos trinta anos, a escravidão, a intolerância, o preconceito, a homofobia, a ignorância e, nos tempos modernos, o terrorismo islâmico com seus homens-bomba e a autoimolação budista com seus homens-fogo, o primeiro comete suicídio explodindo o próprio corpo e assim, assassinando outras dezenas de pessoas; o segundo, por sua vez, é menos prejudicial, pois comete suicídio colocando fogo em si próprio, no entanto, sem assassinar outras pessoas. Desse ponto de vista a autoimolação budista é menos danosa à humanidade do que o terrorismo islâmico. Na origem de toda essa barbárie humana que manchou e ainda mancha a história com sangue de inocentes está a vontade de poder; poder sobre o saber, poder sobre o próximo, poder sobre o mais fraco, poder sobre o mais pobre, poder sobre o diferente, poder sobre a verdade e principalmente poder sobre a vida e a morte. Desse ponto de vista, e somente desse ponto de vista específico, a religião é o câncer da humanidade.

O discurso religioso também está a serviço de uma ideologia político-econômica; um exemplo clássico desta escravidão ideológica da religião está no protestantismo que é uma vertente cristã que possui um discurso religioso ideológico de Direita, tendo uma ética exclusivamente capitalista, e a teologia da libertação, que é um tipo de teologia marxista que possui um discurso teológico ideológico de Esquerda, tendo uma ética exclusivamente socialista. Por sua vez o Alvissarismo possui um discurso religioso que está submetido à ideologia político-econômica de Centro. É importantíssimo sabermos qual ideologia político-econômica um determinado discurso teológico e religioso está submetido para que possamos saber qual é o propósito de tal discurso, isto é, sabermos se esse ou aquele discurso teológico e religioso é bom ou mau para a humanidade.

  • O discurso psiquiátrico

Analisemos agora o famigerado discurso psiquiátrico, que é, provavelmente, o pior discurso existente na face da terra, o discurso mais prejudicial à humanidade. Vejamos por qual razão. Bem, o discurso psiquiátrico promove a subjugação do sujeito por meio de uma ideologia aparentemente científica, mas que na verdade se orienta por meio de um discurso legislativo, já que a psiquiatria como mostramos em outro lugar, nasce do poder legislativo dado a ela pelo Estado e não de um discurso científico. A verdade é que o discurso psiquiátrico sequer pode ser denominado de discurso científico, mas tão somente de discurso legislativo de caráter pseudocientífico. Se objetivo primordial não é nem nunca foi a cura do paciente, mas tão somente o seu controle subjetivo por meio do poder que lhe foi conferido inicialmente pela lei e posteriormente pela droga, então a psiquiatria não é uma prática científica, mas sim uma prática jurídica e farmacológica. O saber da psiquiatria não está no sujeito, mas sim na droga que o psiquiatra receita ao sujeito. O discurso psiquiátrico é regido pela lógica do poder de subjugação do outro, não é à toa que grande parte dos psiquiatras se acha superior aos seus pacientes, encarnando o que Lacan chamou de sujeito suposto saber, o que leva o tratamento psiquiátrico ao completo fracasso, pois este é um posicionamento em que o psiquiatra jamais poderia encarnar se quisesse realmente de fato curar seu paciente e não somente obter controle sobre ele. Os psiquiatras são tão patéticos que ao mesmo tempo em que encarnam esse sujeito suposto saber (SSS) fazem de tudo para responsabilizar o paciente pelo fracasso do tratamento. Ora, se ele encarna o sujeito suposto saber, então ele também deveria se responsabilizar pelo fracasso do vínculo transferencial e consequentemente do tratamento. Se ele é mais sabido do que seu paciente, por que então na hora de se responsabilizar pelo fracasso do tratamento ele seria menos responsável?

O discurso psiquiátrico em momento algum da história da psiquiatria produziu a libertação do sujeito de seu sofrimento, mas tão somente o poder sobre o sujeito através de um suposto saber superior ao do paciente. A lógica do saber psiquiátrico é a lógica da arrogância e da prepotência, bem como a lógica do poder sobre o outro via medicamento, como se o ser humano fosse um bolo de carne conduzido por impulsos eletroquímicos. O discurso psiquiátrico é idêntico ao discurso escravagista, pois não é um discurso libertador, mas sim um discurso aprisionador, só que enquanto o discurso escravagista tem como objeto as relações econômicas, o discurso psiquiátrico tem como objeto o poder que lhe é conferido pelo Estado e pelo saber químico das drogas que receita aos seus pacientes. O psiquiatra não liberta seu paciente de seu sofrimento, ele obtém poder sobre o sofrimento do paciente através do medicamento, mantendo o paciente sob seu controle. Isso é tão verdade que, raramente você encontrará um psiquiatra disposto a simplesmente ouvir o sofrimento de seu paciente ao invés de lhe dar goela baixo suas drogas e suas teorias psicopatológicas baseadas num manual estatístico de diagnóstico de transtorno mental. Ora, estabelecer o diagnóstico de um paciente com base nesses DSMs da vida é a mesma coisa que querer medir o grau de beleza estética de um poema ou o coeficiente de inteligência de uma pessoa. O que move a psiquiatria não é o amor transferencial, mas sim a vontade de poder. A psiquiatria brasileira ainda é mais patética do que a psiquiatria americana, pois o psiquiatra brasileiro não consegue sequer ser original, ele tão somente regurgita o discurso psiquiátrico fabricado nos EUA. Que tem o Brasil com os EUA? Será que a psiquiatria brasileira não se cansa de ficar imitando a psiquiatria americana como se essa fosse realmente digna de ser imitada? Por que os psiquiatras brasileiros não produzem um discurso psiquiátrico original ao invés de ficar regurgitando o discurso psiquiátrico fabricado na América? A única psiquiatra brasileira que de fato produziu um discurso absolutamente original foi Nice da Silveira, antes dela e depois dela o Brasil só produziu regurgitadores da psiquiatria Americana, e esta é, sem a menor sombra de dúvidas, a pior escola de psiquiatria de todos os tempos ainda existente na face da terra. Os Americanos enxergam a mente humana como enxergam o dinheiro. Quem dera eles fossem loucos pela mente humana como são loucos por dinheiro, assim eles não fabricariam o famigerado DSM, que é a fonte de todo erro de diagnóstico estabelecido pelos psiquiatras mundo a fora.

Todo psiquiatra tem em si um quê de sádico, pois, mesmo que de uma forma latente, ele sente prazer em humilhar o seu paciente, exercendo sobre ele total controle através das rédeas medicamentosas e do manual estatístico de diagnósticos de transtornos mentais. O psiquiatra é uma espécie de senhor da mente humana que vê em seu paciente nada mais do que um escravo de seu saber farmacológico. E o pior de tudo no discurso psiquiátrico é que ele é um discurso absolutamente hipócrita, pois nenhuma escola de psiquiatria no Brasil e no mundo obriga os psiquiatras recém-formados a se submeterem ao tratamento que eles submetem os seus pacientes, ou seja, o psiquiatra vende para o seu paciente a fruta estragada, mas de forma alguma come dela. Em suma, não há nada mais perigoso para a sociedade do que um psiquiatra, que, em verdade, é um verdadeiro açougueiro da mente humana, e o pior, um açougueiro legitimado pelo Estado. Assim como foi separado a Igreja do Estado, chegou, pois, a hora de separarmos a psiquiatria do Estado. O fato é que, se a única função do psiquiatra é receitar medicamento para seus pacientes (e é isso o que faz um psiquiatra e é isso a única coisa que ele deveria fazer), então a psiquiatria pode ser abolida da face da terra, pois isso um clínico geral é capaz de fazer, enquanto um psicólogo conduziria a psicoterapia, coisa que um psiquiatra não tem ideia de como fazer. Não deveria ser permitido ao psiquiatra realizar qualquer tipo de procedimento psicoterápico, pois nenhuma escola de psiquiatria ensina psicoterapia, o que elas ensinam é a drogar o paciente. Desse ponto de vista, não há muita diferença entre um psiquiatra e um farmacêutico ou até mesmo entre um psiquiatra e um traficante de drogas, pois todos eles fazem exclusivamente a mesma coisa: fornecem drogas aos seus clientes. Como um psiquiatra trata um adicto viciado em drogas? Ora, dando-lhe mais drogas. Isso é a cara da psiquiatria, que acha que todo transtorno mental é resolvido simplesmente com drogas, como se estas fossem um tipo de panaceia e como se o ser humano fosse única e exclusivamente uma máquina conduzida por descargas eletroquímicas. O psiquiatra não passa de um farmacêutico ou comerciante de drogas legalizadas pelo Estado. E se o paciente de fato necessita de tais drogas para viver, então que o psiquiatra se restrinja a isso, e não pretenda conduzir uma psicoterapia, pois ele não faz ideia de como fazer esse trabalho que demanda uma escuta analítica e não a subjugação humilhante do paciente através de drogas e de seu suposto saber superior ao do paciente. O psiquiatra é um médico que depois de formado resolveu passar mais dois anos na escola de psiquiatria para aprender como subjugar, humilhar e drogar seu paciente, colocando-se como intelectualmente superior a ele. Ora, um mero psicólogo passa cinco anos dentro da universidade estudando profundamente os aspectos básicos da mente humana e o psiquiatra quer realizar esta façanha em apenas dois anos. É muita prepotência e arrogância não? Se a escola de psiquiatria ensina a drogar seus pacientes, então os psiquiatras deveriam se limitar a isso, e não tentar conduzir uma psicoterapia, pois eles não possuem qualquer formação para isso. Um psiquiatra passa trinta anos dentro de um consultório drogando, subjugando e humilhando seus pacientes e não aprende absolutamente nada sobre o manejo do amor transferencial que é a base de todo processo psicoterápico. E não aprende por quê? Ora, porque o discurso psiquiátrico não é orientado pelo amor, mas sim pelo poder. Sendo, portanto, um discurso absolutamente prejudicial à humanidade, pois é um discurso que fomenta e promulga a dominação de um ser humano sobre o outro. A psiquiatria é a escravidão da mente humana e o psiquiatra o senhor da mente, e suas drogas, seu jagunço. De todos os discursos de saúde mental existente na face da terra, o discurso psiquiátrico é, com certeza, o pior de todos eles; e com isso eu quero dizer: o mais demoníaco e perverso. Se as paredes dos hospitais psiquiátricos e manicômios do mundo pudessem falar, elas gritariam socorro e justiça. A psiquiatria fede a enxofre. Eu sonho com o dia em que o mundo irá abolir a psiquiatria assim como aboliu a escravidão, pois enquanto os senhores escravizavam os corpos de seus escravos, fazendo deles tão somente uma mercadoria, os psiquiatras escravizam a mente do homem, fazendo dela tão somente uma mercadoria. As indústrias farmacêuticas que o digam, pois, o que seria delas se não fossem os psiquiatras a elas conveniados? Quando não encontrares a resposta para alguma coisa, procure no dinheiro e você a encontrará. O discurso psiquiátrico em sua maioria está a serviço de uma ideologia político-econômica, seja ela o capitalismo como na psiquiatria ortodoxa ou o comunismo ou socialismo como na antipsiquiatria.  Enquanto a psiquiatria ortodoxa possui um discurso ideológico de Direita, a antipsiquiatria possui um discurso ideológico de Esquerda. Por sua vez, a metapsiquiatria por nós proposta em A Crítica da Razão Psiquiátrica possui um discurso ideológico de Centro. É importante sabermos a qual ideologia o discurso psiquiátrico está ligado para sabermos qual é de fato o seu propósito e, principalmente, sabermos se esse propósito é bom ou mau.

  • O discurso científico

O discurso ideológico da ciência, assim como o discurso ideológico da psiquiatria, é um discurso que está orientado pelo poder, e não pelo saber e muito menos pelo amor à verdade. O propósito do discurso científico é obter o poder sobre o saber, pois saber é poder do mesmo modo como o discurso religioso tem como propósito obter o poder sobre a verdade, pois quem tem a verdade tem o poder. Portanto, o que está na base do discurso ideológico da ciência não é o amor à verdade como é o discurso ideológico da filosofia, mas sim a vontade de poder que dá ao cientista o controle sobre o Outro, tornando-se supostamente superior a ele. A arrogância e a prepotência é a fonte ideológica de todo discurso científico. A psiquiatria ainda consegue ser pior do que a ciência, pois a psiquiatria pretende ser uma coisa que não é e não reconhece ser uma coisa que é, enquanto que a ciência verdadeira é o que é e muitas vezes reconhece não ser o que não é.

A ciência da mesma forma como a religião e a psiquiatria está submetida a um discurso ideológico político-econômico. Um exemplo clássico dessa submissão do discurso científico à ideologia político-econômica é a teoria do aquecimento global, que, por sua vez, é negada por aqueles cientistas cujo discurso está submetido à ideologia político-econômica de Direita, cujo propósito é manter o capitalismo a todo vapor sem se preocupar com a destruição do meio ambiente; e por outro lado temos a teoria do aquecimento global que é aceita por aqueles cientistas cujo discurso está submetido à ideologia político-econômica de Esquerda, cujo propósito é substituir o capitalismo pelo socialismo se utilizando do discurso ambiental. E no meio de tudo isso existe o discurso da Insciência que está submetido à ideologia político-econômica de Centro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s