Filosofia Quântica

No Livro Filosofia Quântica dissemos que Segundo Silvio Seno Chibeni do departamento de Filosofia da UNICAMP.

“A história das grandes transformações sofridas pela física e que culminaram na formulação da mecânica quântica na segunda metade da década de 1920 começou no primeiro ano do século, quando Max Planck logrou explicar, através de uma hipótese que a ele próprio repugnava, o espectro de radiação do corpo negro. Um pequeno orifício aberto em um corpo oco representa aproximadamente um “corpo negro” (não confundir com “buraco negro”, que é algo muito diferente!). Tal orifício aparecerá negro para corpos em temperaturas usuais, daí advindo o seu nome. No entanto, à medida que a temperatura se eleva, o orifício se torna vermelho, depois amarelo e, finalmente, branco (neste ponto, ou mesmo antes, o material se funde; fenômeno do mesmo tipo pode ser observado aquecendo-se um pedaço de metal). A cada temperatura corresponde uma coloração da luz emitida, que resulta da mistura de radiações luminosas de diferentes frequências; cada frequência contribui na mistura em uma determinada proporção, fornecendo uma determinada parcela de energia à energia total irradiada pelo orifício. Essas proporções podem ser medidas experimentalmente. A figura abaixo mostra o gráfico de uma grandeza proporcional à energia irradiada em função do comprimento de onda”.

O nascimento da mecânica quântica se dá em 1900 pela explicação de Max Planck do mecanismo que faz com que os átomos radiantes sejam capazes de produzir a distribuição de energia observada. Planck então sugeriu o seguinte:

  • A radiação dentro da cavidade está em equilíbrio com os átomos das paredes que se comportam como osciladores harmônicos de frequência da v.
  • Cada oscilador pode absorver ou emitir energia da radiação em uma quantidade proporcional a v. Quando um oscilador absorve ou emite radiação eletromagnética, sua energia aumenta ou diminui em uma quantidade hv.
  • A energia dos osciladores é quantizada.

Dito isto, fica estabelecido que a Filosofia Quântica seja um ramo da filosofia que tem por objeto o quantum (menor valor que certas grandezas físicas podem apresentar. São exemplos de grandezas quantizadas a energia e o momento angular de um elétron em um átomo), e tem por objetivo o estudo da natureza da quantização e dos fundamentos metafísicos, teológicos e religiosos que surgem como consequência da existência da mecânica quântica. Embora a palavra quantum já fosse usada na literatura científica ao longo do século XVIII, foi a partir do trabalho de Max Planck sobre a radiação de corpo negro, publicado em 1900, que o termo passou a ser largamente empregado na física, e que agora propomos que seja empregado na filosofia, e em especial na metafísica, na teologia e na religião, sem, no entanto, pretender que esse emprego do quantum na filosofia possua caráter científico.

A interpretação mais corrente da mecânica quântica foi desenvolvida por  Niels Bohr e Werner Heisenberg que trabalhavam juntos em Copenhague em 1927, que pode ser resumida em três teses fundamentais:

  1. As previsões probabilísticas feitas pela mecânica quântica são irredutíveis no sentido em que não são um mero reflexo da falta de conhecimento de hipotéticas variáveis escondidas. No lançamento de dados, usamos probabilidades para prever o resultado porque não possuímos informação suficiente apesar de acreditarmos que o processo é determinístico. As probabilidades são utilizadas para completar o nosso conhecimento. A interpretação de Copenhague defende que em Mecânica Quântica, os resultados são indeterminísticos.
  2. Física é a ciência dos resultados de processos de medida. Não faz sentido especular para além daquilo que pode ser medido. A interpretação de Copenhague considera sem sentido perguntas como “onde estava a partícula antes de a sua posição ter sido medida?”.
  3. O ato de observar provoca o “colapso da função de onda”, o que significa que, embora antes da medição o estado do sistema permitisse muitas possibilidades, apenas uma delas foi escolhida aleatoriamente pelo processo de medição, e a função de onda modifica-se instantaneamente para refletir essa escolha.

Para a Filosofia Quântica, a linguagem é a fonte, a matriz de todo conhecimento a priori e a posteriori, portanto, a linguagem deve ser o centro gravitacional da filosofia. A Filosofia Quântica propõe um modo de fazer filosofia que acredita que todo conhecimento possível ao homem passa pela estrutura formal da linguagem, portanto, todos os problemas filosóficos devem ser resolvidos por meio de uma análise lógica da linguagem enquanto origem da racionalidade e da experiência. Isso significa que o papel da filosofia é esclarecer as expressões linguísticas e expor os limites da capacidade humana de simbolizar o real. Esse posicionamento tem como ponto central a crítica à postura realista adotada por  Einstein sobre a interpretação da mecânica quântica.

Contra o realismo de Einstein, a Filosofia Quântica reafirma a existência de um mundo físico, independente da mente humana, que contém uma série de objetos individualizados, porém, a estrutura formal do conhecimento de todos os objetos do mundo depende exclusivamente da linguagem, isto é, para a Filosofia Quântica existe um mundo físico independente do sujeito, mas o conhecimento deste mundo físico depende integralmente da capacidade linguística do ser humano de simbolizar os objetos do mundo real. Isto é o que nós chamamos anteriormente de simbolismo ou idealismo simbólico, onde não se duvida da existência de um mundo exterior e da pluralidade de coisas nele presente. Mas aceitar isso não significa que se possa conhecer os objetos do mundo exterior fora da sua relação com o sujeito cognoscente, como pretende o realismo, pois isto seria um absurdo, posto que todo conhecimento do mundo passa pelo homem, já que sem o homem o mundo pode existir, mas não pode ser conhecido.

O simbolismo ou idealismo simbólico é uma vertente epistemológica sistematizada de forma a se opor e sintetizar o idealismo e o realismo através da tese de que “Todo o conhecimento tem origem na linguagem, que possibilita a racionalidade e a significação da experiência sensível”. Ou seja, no simbolismo a origem do conhecimento não é mais a razão como no racionalismo e nem mesmo a experiência sensível como no empirismo, mas sim a linguagem, pois é esta que possibilita a racionalidade e a significação da experiência. A completa independência da realidade em relação a nossos esquemas conceptuais, crenças e pontos de vista, tal como prega o realismo filosófico, só é verdadeira no que se refere à existência do mundo físico, mas não ao seu conhecimento, ou seja, esta independência é apenas ontológica, e não gnosiológica, e é aqui que entra o idealismo, onde os fenômenos da realidade objetiva, externa ao sujeito, são incapazes de se mostrar ao homem em sua essência tais como são em si mesmos, mas apenas como representações subjetivas arquitetadas pela faculdade linguística do sujeito, como se houvesse um véu de Maya entre o homem e o mundo; mas aí então o realista metafísico questionará, dizendo: “Mas se é verdade que existe um véu entre o homem e o mundo, por que então este mesmo véu não existe entre o pensamento e a subjetividade?” Ora, esta pergunta está atrasada pelo menos há mais de um século e meio, pois a resposta a essa indagação foi descoberta por Freud e se chama inconsciente, este é o véu que existe entre o pensamento e a subjetividade e divide o sujeito entre Ser e Pensar e entre Saber e Verdade; no entanto, a impossibilidade de se conhecer a coisa em si não impossibilita também a sua experiência, e é isso o que garante a sua existência, pois se é impossível conhecer a coisa em si, então como é possível saber que ela existe? Este foi, portanto, o grande erro de Kant do qual a Filosofia Quântica não compactua, posto que para a Filosofia Quântica a coisa em si é incognoscível, porém experienciável através da prática moral, de mitos, ritos, hierofanias, experiências místicas e paradoxos lógicos na linguagem, tais como os apresentados pela lógica paraconsistente.

A verdade não é uma questão de correspondência entre as nossas crenças e a realidade, tal como prega o realismo, pois se assim fosse, os paradoxos presentes na existência do homem e do mundo, que contradizem a correspondência entre as nossas crenças e a realidade, seriam sempre falsos, uma tese que a lógica paraconsistente destrona com facilidade, posto que proposições contraditórias como “O homem olha, mas não vê”, ou “O homem ama, mas odeia”, ou “O homem está morto, mas está vivo” não são sempre falsas, podendo ser verdadeiras em determinadas condições, como por exemplo numa paixão arrebatadora, num complexo familiar ou na morte de alguém, que mesmo estando morto, permanece vivo através de seu legado, assim como no caso do experimento imaginário do gato de Schrödinger, no exemplo de um gato que está no mesmo sentido e ao mesmo tempo vivo e morto, bem como no caso do suicídio quântico, que afirma que a interpretação de muitos mundos de Everret implica que o conjunto de todos os seres conscientes possui o atributo da imortalidade, e o princípio da simultaneidade dimensional, que estipula que dois ou mais objetos físicos, realidades, percepções e objetos não-físicos podem coexistir no mesmo tempo-espaço, consistindo na existência de universos paralelos estruturados como uma gestalt (forma, em alemão), que é o processo mental no qual o ser humano dá forma aos objetos físicos da realidade sensível, configurando o que lhe é exposto diante dos olhos como “uma identidade concreta, individual e característica, que existe como algo destacado e que tem uma forma ou configuração como um de seus atributos” (Revista Scientifc American “Primordios da Psicologia da Forma – por Helmut E. Lück), não sendo possível ao homem comum obter o conhecimento do todo através de suas partes, posto que o todo é maior do que a soma das partes. Do ponto de vista da psicologia (psicanálise), os mundos consciente e inconsciente não são simplesmente (A+B), mas sim um terceiro mundo (C), que é préconsciente e possui suas características e leis próprias. Do ponto de vista da lógica, os mundos real e simbólico não são simplesmente (A+B), mas sim um terceiro mundo (C), que é imaginário e possui suas características e leis próprias. Independentemente dos elementos que compõem os objetos da realidade, na percepção humana é sempre a forma que sobressai; por exemplo: as letras F-O-G-O não constituem apenas uma simples palavra na mente humana, ela evoca imediatamente a imagem do fogo, seu calor e simbolismo, que são propriedades não diretamente relacionada às letras F-O-G-O. Do mesmo modo, do ponto de vista da metafísica, da teologia e da religião, os mundos sensível (material) e inteligível (espiritual) não são simplesmente (A+B), mas sim um terceiro mundo (C), que é semimaterial e possui suas características e leis próprias, como por exemplo a imortalidade da alma (perispírito segundo Kardec ou corpo espiritual segundo Paulo de Tarso), que é o envoltório semimaterial que envolve o espírito e o liga ao corpo físico. A mediunidade, os dons do Espírito Santo, as hierofanias, os mitos, os ritos, a ficção e os sonhos tem como principal característica a capacidade de tornar explícito no mundo sensível o que está implícito no mundo inteligível, projetando na cena exterior o que ocorre na cena interior, permitindo assim que o homem e a humanidade tenha maior consciência sobre a pluralidade dos mundos habitados, no exato ponto de fronteira de contato com seu mundo através de uma ponte subjetiva que liga os dois universos, seguindo o processo histórico em curso, observando e analisando atentamente os fenômenos sobrenaturais através das profundezas obscuras da metafísica, da teologia e da religião.

RubinGestalt

Aqui, a verdade é a própria contradição entre as nossas crenças e a realidade, e não a correspondência entre as nossas crenças e a realidade, produzindo histórias consistentes que podem ser descritas pelas probabilidades de cada história acontecer ou não, obedecendo às leis da probabilidade clássica, preservando a consistência com a equação de Schrödinger, o que nos permite vencer com elegância a resistência do princípio de explosão, onde se pressupõe que “a partir de uma contradição, qualquer coisa segue”, ou seja, “qualquer coisa pode surgir de uma contradição”, princípio este que a equação de Schrödinger prova ser falso, isto é, sendo afirmada a contradição do gato que está vivo e morto no mesmo sentido e ao mesmo tempo, não se pode inferir qualquer coisa, mas apenas duas coisas podem ser inferidas aqui, ou seja, apenas uma das duas possibilidades (50% Vivo ou 50% Morto) pode ser inferida do experimento imaginário, mas não qualquer coisa como pressupõe o princípio de explosão. O princípio de explosão é vencido aqui a partir da probabilidade clássica, mostrando que, a partir da contradição do gato que está vivo e morto no mesmo sentido e ao mesmo tempo, não se pode seguir qualquer coisa, mas apenas duas coisas podem ser seguidas, a possibilidade de o gato estar vivo ou a possibilidade de o gato estar morto, não podendo haver outras possibilidades como afirma, erroneamente, o princípio de explosão, posto que de uma contradição não se pode provar qualquer coisa, mas apenas coisas possíveis. Isto será melhor compreendido quando inserirmos em nossa investigação lógico-filosófica o conceito de mundos possíveis.

A paraconsistência da mecânica quântica provoca uma revolução jamais pensada na linguagem dos mundos possíveis. De modo que se faz necessário reformular o conceito de mundos possíveis. Para esta reformulação lançaremos mão do estatuto metafísico do conceito de mundos possíveis criado originalmente por Leibniz. Deste modo, a noção de mundos possíveis pode ser entendida como uma alegoria lógica que descreve a condição metafísica do conjunto de todos os seres e entes do universo. Um mundo possível é, portanto, um mundo logicamente possível em todos os mundos possíveis. Entendemos aqui a possibilidade lógica em todos os mundos possíveis como tudo aquilo que é logicamente possível em todos os mundos mesmo derivando de uma contradição lógica, por exemplo, a proposição Pı¬P “o gato está vivo e morto” é uma contradição lógica, mas é possível em um determinado mundo, como vimos anteriormente. Logo um mundo onde o gato está vivo e morto ao mesmo tempo é um mundo possível. Deste modo, faz-se necessário esclarecer que um mundo possível não é um planeta do universo, mas sim o conjunto de todas as coisas, isto é, o próprio universo, englobando o espaço-tempo, pois o espaço e o tempo existem em todos os mundos possíveis, sendo o espaço-tempo a condição sine qua non para a existência de qualquer mundo possível. Não podemos entender aqui o mundo atual somente como aquilo que está em ato (no sentido aristotélico do termo), mas também como aquilo que está em potência no próprio ato, isto é, a possibilidade, pois tudo o que é logicamente possível só o é em relação a outro mundo, pois do contrário tudo o que é logicamente possível se encerraria nas coisas e nos eventos deste mundo. A paraconsistência própria da linguagem dos mundos possíveis faz com que a imortalidade da alma e a pluralidade dos mundos habitados sejam condições lógica e ontologicamente possíveis. Assim a linguagem dos mundos possíveis possibilita a pretensão lógica e ontológica da metafísica, da teologia e da religião de englobar tudo o que é possível ser ou não ser. Isto quer dizer que a linguagem dos mundos possíveis, regida pela paraconsistência lógica da mecânica quântica, demonstra ser possível, que, neste exato momento, enquanto você se esforça para compreender este singelo texto, em um outro mundo, no mesmo espaço-tempo, um trem pode estar passando sobre você; ou um astronauta, em Vênus, pode estar sobre a avenida de uma outra civilização, num outro mundo, no mesmo espaço-tempo; ou um avião, onde você, sentado, neste exato momento, pode estar sobrevoando uma outra cidade, num outro mundo; ou neste exato momento, enquanto você se embriaga do surrealismo destas palavras, um outro ser (um espírito ou um anjo), em um outro mundo, pode estar com as mãos sobre seus ombros lendo o texto com você e lhe ajudando na compreensão deste; ou então um homem sobre o vulcão Lawoe, na Ilha de Java, na indonésia, pode estar no mesmo espaço-tempo, sobre uma porta dimensional para outro mundo, numa espécie de entrelaçamento quântico, onde dois mundos estão de alguma forma tão ligados que um mundo não pode ser corretamente descrito sem que a sua contra-parte seja no mesmo instante mensionada. Esta correlação entre a linguagem dos mundos possíveis e o entrelaçamento quântico sugere que um mundo está a influenciar instantaneamente um outro mundo com o qual está entrelaçado, apesar da separação ontológica entre eles. Isto dá a entender que todos os mundos possíveis estão conectados por “forças” invisíveis que permanecem no espaço-tempo, ou que estão fora do que entendemos ou concebemos por sistema espaço-temporal.

A linguagem dos mundos possíveis pode ser melhor traduzida pela estrutura própria dos computadores. A lógica clássica aristotélica-tomista tem uma memória feita de sentenças assim como um computador clássico tem uma memória feita de bits. Deste modo, cada bit guarda um “1” ou um “0” de informação, assim como cada proposição na lógica clássica guarda uma afirmação ou uma negação. Mas a mecânica quântica não é regida pela lógica clássica, como pudemos ver anteriormente, posto que na lógica clássica a proposição “o gato está vivo e morto” é uma contradição lógica que implica na falsidade da proposição, não sendo, portanto, um mundo possível. A mecânica quântica, pelo contrário, é regida pela lógica paraconsistente, onde a proposição “o gato está vivo e morto” é verdadeira em um mundo possível. A lógica paraconsistente se iguala, portanto, à estrutura dos computadores quânticos, onde um quibit pode conter um “1”, um “0” ou uma sobreposição dos dois; ou seja, pode conter tanto um “1” como um “0” ao mesmo tempo. O computador quântico funciona como uma espécie de manipulação deste sistema binário, assim como a lógica paraconsistente funciona como um tipo de manipulação das sentenças na proposição, dando sentido lógico aos fenômenos do mundo subatômico. A lógica paraconsistente é a lógica própria da mecânica quântica que possibilita uma revolução no conceito de mundos possíveis, na medida em que é possível construir computadores quânticos com átomos que podem estar excitados e não excitados ao mesmo tempo, bem como com fótons que podem estar em dois lugares ao mesmo tempo, ou com prótons e neutrons ou elétrons e pósitrons que podem ter um spin ao mesmo tempo para cima e para baixo.

Santo Agostinho em sua obra majestosa intitulada A Cidade de Deus, parece ter antecipado séculos antes a conclusão que Schröedinger chegou com seu experimento mental para demonstrar o paradoxo existente na interpretação de Copenhague da mecânica quântica, quando se pergunta “poderá alguém está ao mesmo tempo vivo e morto?”, e propõe o seguinte:

“Desde o momento em que cada um começa a viver neste corpo destinado a morrer, nenhum acto pratica que o não encaminhe para a morte. Efectivam ente, a sua mobilidade durante todo o tempo de vida (se é que se lhe pode chamar vida), mais não é que caminhar para a morte. Ninguém existe que não esteja, após um ano, mais próximo dela do que o estava um ano antes, que não esteja amanhã mais perto do que está hoje, hoje mais do que ontem, daqui a pouco mais do que agora e agora mais do que há pouco. Porque o tempo que se vive é tirado da duração da vida e, como o que resta diminui de dia para dia, o tempo desta vida outra coisa não é senão um a corrida para a morte: durante esta corrida a ninguém é permitido parar um instante que seja nem retardar por pouco que seja a sua marcha — mas todos são impelidos pelo mesmo movimento, nenhum avança a passo desigual. Realmente, nem aquele cuja vida foi mais curta passou o seu dia mais rapidamente do que aquele cuja vida foi mais longa; mas, ao passo que tempos iguais eram tirados de forma igual a ambos, um tinha um fim mais próximo e o outro um mais afastado, sem que a sua corrida diferisse de velocidade. É que um a coisa é percorrer mais caminho e outra caminhar mais devagar. Para o que leva mais tempo a chegar à morte a marcha não é mais lenta: o caminho é mais comprido. De resto, se cada um começa a morrer, isto é, a estar na morte, desde que a morte, ou seja, a supressão da vida, começa a realizar-se nele (por- que um a vez suprimida a vida, já se estará depois da morte e não na morte), segue-se que está na morte desde que começa a estar neste corpo. Que outra coisa se passa em cada dia, em cada hora, em cada momento até que a morte, que se estava processando, seja dada por concluída e se inicie o «tempo depois da morte» o qual, enquanto a vida se ia esvaindo, pertencia ao âmbito da morte? Nunca, portanto, o homem está na vida desde que está neste corpo — que mais morre do que vive — se não pode estar ao mesmo tempo na vida e na morte. O u antes, não está ele ao mesmo tempo na vida e na morte: na vida porque goza dela até toda ela ser suprimida, na morte porque já se está morto quando a vida se esvai? Se já não está na vida, que é que lhe é tirado até que seja completa a sua supressão? Se não está na morte, que é então a supressão da vida? Quando a vida toda abandonar o corpo, não haverá, realmente, outra razão para dizer que este já está «depois da morte» senão esta: é que já a morte existe quando a vida abandona o corpo. C om efeito, se depois da supressão da vida se não está «na morte» mas «depois da morte» — quando é que se estará então «na morte» senão no momento da supressão? Se é absurdo dizer que o homem antes de chegar à morte já lá está (com o é que dela se irá aproximando durante a vida se já lá estava?), sobretudo porque é muito estranho considerá-lo ao mesmo tempo vivo e a morrer, sendo certo que não se pode simultaneamente dormir e estar acordado, — põe-se a questão: quando é que está a morrer? É que, na verdade, antes de a morte chegar, não se está a morrer mas a viver; depois de a morte ter chegado, o homem estará morto e não a morrer. N um caso está ainda «antes» da morte, no outro caso está «depois» da morte. Então quando é que se está «na» morte? E quando se diz que se está a morrer; pois a estes três momentos — «antes», «em» e «depois» — correspondem estes três estados: vivo, a morrer e morto. Quando estará, pois, o homem a morrer ou na morte — de maneira que não esteja nem vivo, isto é, «antes da morte», nem morto, isto é, «depois da morte», mas a morrer, isto é, «na morte»? Realmente, o homem , formado de corpo e de alma, está, sem a menor dúvida, vivo: está ainda «antes de morto» e não «na morte». Mas quando a alma se separar, retirando ao corpo toda a sensibilidade, o homem estará «depois da morte» e dir-se-á que está morto. Perece, pois, entre o momento em que está a morrer e o momento de «estar na morte» — porque, se vive ainda, está «antes da morte»; se deixou de viver, está já «depois da morte»; nunca, portanto, se está a morrer, isto é, «na morte». D a mesma forma, no decorrer do tempo procura-se o presente sem que seja possível encontrá-lo, porque a passagem do futuro ao passado é sem duração Não parece que, depois deste raciocínio, se tem de negar a morte corporal? Se há morte — onde é que ela está que em ninguém pode ela estar e ninguém nela pode estar? Se se vive — ela ainda lá não está; se se está antes da morte, não se está na morte; se se deixou de viver— já lá não está porque se está «depois da morte» e não «na morte». Mas se não há morte nem «antes» nem «depois», a que propósito dizer «antes da morte» e «depois da morte»? Se não há morte, tudo o que se está a dizer é falho de sentido. Oxalá tivéssemos vivido bem no Paraíso para que morte não houvesse realmente! Mas no presente não som ente ela existe mas até é ela tão penosa que ninguém a pode explicar com palavras nem com raciocínio algum se pode evitar! T em os, portanto, de falar com o é costume falar-se (não podem os fazê-lo de outra maneira) e digamos «antes da morte» no sentido de «antes que a morte aconteça», como está escrito: Não louves ninguém antes da sua morte. Digam os também , quando ela aparecer: «Depois da morte deste ou daquele, aconteceu isto ou aquilo». Falemos também do tempo presente com o nos for possível, por exemplo: «Este moribundo fez o seu testamento», «o moribundo deixou isto ou aquilo a este ou àquele», se bem que não o poderia fazer sem estar vivo e o fez «antes» e não «na» morte. Falemos ainda com o fala a Sagrada Escritura que não hesita em declarar que os mortos, também eles, não estão «depois» mas «na» morte. Daí o seguinte: Porque não há ninguém na morte que se recorde de tiDe facto, até que revivam, com razão se diz que estão na morte, com o se diz que se está no sono até que se acorde. Embora chamem os adormecidos aos que estão no sono, não podemos, porém, chamar moribundos aos que já estão mortos. Não estão, claro está, a morrer (da morte corporal, que é da que estamos a tratar) os que já estão separados dos corpos. Mas é isso, com o já se disse, que nenhum a linguagem pode explicar: com o é que se pode dizer que os moribundos vivem ou os que estão já mortos, «depois» da morte estão «na» morte? Efectivamente, com o é que eles estão «depois» da morte se estão «na» na morte? Sobretudo não podendo chamar-lhes moribundos com o chamam os adormecidos aos que estão no sono e enfermos aos que estão na enfermidade, doridos aos que estão na dor, vivos aos que estão na vida. Mas dizem os que os mortos antes da ressurreição estão na morte, sem, todavia, lhes chamam os moribundos. Julgo que surgiu com oportuna conveniência (e não devido a habilidade humana, mas a disposição divina) a impossibilidade em que se vêem os gramáticos de conjugarem em latim o verbo morior (morro) conforme as regras por que se conjugam outros que tais. Assim, da palavra oritur (nasce) vem o pretérito ortusest (nasceu), e todos os verbos semelhantes se conjugam da mesma maneira com particípios pretéritos. Mas a respeito de moritur (morre), se se perguntar pelo pretérito, é costume responder-se mortuus (morreu), dobrando o u. E diz-se mortuus (morto) como se diz fatuus (fátuo), arduus, (árduo), conspicuus (conspíquo) e outras palavras semelhantes que não indicam tempo passado mas, com o nomes que são, se declinam sem indicarem tempo. Mas, no caso presente, para conjugar, digamos assim, o que se não pode conjugar, usa-se de um nome com o particípio pretérito. Bom é que se não possa conjugar este verbo tal com o também não pode conjugar-se a acção que ele significa. Todavia, ajudados pela graça do nosso Redentor, podemos, no que respeita à segunda morte, pelo menos decliná-la. Mais temível que a primeira, é ela o pior de todos os males porque não consiste na separação da alma e do corpo mas antes na união de ambos para a pena eterna. Aí, pelo contrário, os homens não estarão nem «antes» nem «depois» da morte, mas sempre «na» morte — e isto nunca «a viver», nunca já mortos, mas sempre «a morrer». Nunca, na verdade, haverá para o homem pior desgraça na morte do que chegar onde a própria morte não será morte!” (Santo Agostinho; Vol II. 2000. p. 365 a 368).

A Filosofia quântica aqui sistematizada aceita a interpretação de Copenhague da mecânica quântica e nega a interpretação realista de Einstein. Apesar de muitos físicos e filósofos criticarem a interpretação de Copenhague da mecânica quântica, a Filosofia Quântica desenvolvida aqui a aceita pelo fato de que a desde Heráclito, Hegel, Freud, Lacan e Da Costa e sua lógica paraconsistente parece provar que a verdade se manifesta justamente na contradição e no paradoxo, e não o contrário. Para a Filosofia Quântica o mundo possui uma base não determinística e o simbolismo ou idealismo simbólico proposto anteriormente mostra que a realidade é criada por um processo de observação não físico que se estrutura na linguagem. As críticas de Einstein onde diz que “Deus não joga aos dados” ou “pensas mesmo que a lua não está lá quando não estás a olhar para ela?” que estão na base da interpretação realista da mecânica quântica são facilmente aquebrantadas quando colocamos a linguagem como a fonte, a origem e a matriz de todo conhecimento possível. É verdade que Deus não joga aos dados, mas é mais verdade ainda que Deus escreve certo por linhas tortas, isto é, Deus é um músico que escreve como numa partitura musical, na diacronia da vida e na sincronia da morte.

Do mesmo modo, é verdade que a lua continua lá quando não estou a olhar para ela, mas é mais verdade ainda que sem a linguagem e o universo simbólico eu sequer saberia o que é a lua.

Real 1 —————— Logos—————— Real 2

Como se vê, é possível pensar o real como sendo simbolizado progressivamente durante a existência do homem. Onde cada vez menos desse primeiro real (R1) é largado de fora, embora nunca seja possível ser totalmente removido ou morto. Haverá, portanto, sempre um resíduo que estará lado a lado com o Logos.

Todavia, é possível perceber que a ordem simbólica em si produz um real de segunda ordem (R2), que é justamente o que possibilita a existência de juízos analíticos a posteriori.

Portanto, há dois níveis do real – (R1 e R2) –onde o primeiro, antes da letra, existe fora da realidade, e o segundo manifesta-se depois da letra em analogias e paradoxos lógicos na linguagem, tal como o do gato que está vivo e morto no mesmo sentido e, ao mesmo tempo.

A Filosofia Quântica é uma tentativa filosófica de responder a questão: sobre o que trata exatamente a mecânica quântica? As questões fundamentais sobre exatamente o que trata a mecânica quântica constituem uma proposta filosófica, e requerem algumas explicações adicionais de ordem metafísica, teológica e religiosa que nitidamente transcendem os limites empíricos da ciência. Para isso, a Filosofia Quântica deve aderir não somente à interpretação de Copenhague, mas unir a ela a interpretação de muitos mundos ou interpretação das histórias consistentes, que é uma versão mais moderna da interpretação de muitos mundos. Mas como unificar em uma única interpretação da mecânica quântica estas duas interpretações distintas? A chave para essa interligação das três interpretações está na questão: sobre o que trata exatamente a mecânica quântica? Para nós que propomos a mecânica quântica trata de investigar o quantum da natureza, da essência e da origem do conjunto de todos os seres; em suma, o objeto da Filosofia Quântica é Deus enquanto origem do conjunto de todos os seres.

A nossa interpretação de muitos mundos da mecânica quântica é uma interpretação diferente da que fora formulada inicialmente por  Hugh Everett, pois, ao contrário de Everett, nós não propomos a existência de múltiplos universos paralelos, mas tão somente a existência de dois universos paralelos e opostos, como os dois lados de uma mesma moeda: o universo sensível ou material e o universo inteligível ou espiritual. Esta interpretação explica a natureza não determinística (tal como a medição) na mecânica quântica exposta no princípio da incerteza de Heisenberg, onde é impossível calcular a velocidade e a posição de um elétron no mesmo instante.

A proposta de um único universo paralelo, isto é, um único universo binário dividido em material e espiritual pressupõe a existência de uma função estado para o universo único dividido em dois polos opostos a qual obedece à equação de Schrödinger para todo tempo e para a qual não há processo de colapso da onda. Este estado universal é uma sobreposição quântica de dois universos paralelos quase idênticos, quase, porque o universo material é tão somente uma cópia imperfeita do universo material, onde os dois universos são não comunicantes naturalmente, mas comunicáveis através da prática moral, de mitos, ritos, hierofanias, experiências místicas, mediunidade e paradoxos lógicos na linguagem, tais como os apresentados pela lógica paraconsistente.

Ao que parece, o espelho que separa o fenômeno da coisa-em-si, o sensível do inteligível, isto é, o mundo virtual (material) do mundo real (espiritual), é um espelho falso, ou seja, um vidro que, de um lado, provoca o reflexo normal de um espelho, mas do outro lado, funciona como uma janela. É dessa forma que os espíritos observam as pessoas sem que elas saibam que estão sendo observadas. O que permite ao médium que está do lado virtual, isto é, material, se comunicar com o lado real, isto é, espiritual, que está por trás do espelho, é a sua capacidade ou dom de enxergar além do espelho, isto é, enxergar o que está por trás dele. O mundo sensível ou material é uma espécie de imagem holográfica do mundo inteligível ou espiritual. O mundo sensível e material é puramente virtual, isto é, tudo o que conhecemos deste mundo é um tipo de holograma do mundo inteligível ou espiritual. Por ser um holograma, o mundo sensível ou material possui uma característica única: cada parte microcósmica dele, isto é, cada átomo, possui a informação do todo macrocósmico, isto é, do universo. Assim, um pequeno pedaço da matéria terá informações de toda imagem do universo material completo. Ela pode ser vista na íntegra, mas a partir de um ângulo restrito. Do mesmo modo, cada parte do mundo sensível ou material possui a informação do mundo inteligível ou espiritual. A mediunidade pode ser comparada a uma janela com um espelho falso: se a cobrirmos por trás com um véu, deixando um pequeno buraco na cobertura, permitiremos a um espectador do mundo sensível ou material continuar a observar a paisagem do outro lado, isto é, do mundo inteligível ou espiritual. Porém, por conta do buraco, de um ângulo muito restrito, que só os médiuns e/ou os místicos são capazes de perceber; mas ainda assim ele conseguirá ver a paisagem do mundo espiritual perfeitamente, desde que perceba que aquela janela possui um espelho falso, e que por trás desse espelho existe um véu que impede que as pessoas comuns percebam que do outro lado do espelho existe outro mundo, mas que, neste véu, existe um buraco que o permite se comunicar perfeitamente com esse outro mundo. É exatamente isso o que acontece com o médium ou com o sujeito que vivencia uma experiência mística, ele se comunica com o mundo espiritual através dessa janela, pelo buraco que há no véu de Maya. Independente do nome que se dê a esse conhecimento, o importante aqui é que ele se estrutura como uma hierofania e se manifesta como um retorno do mundo real dentro do mundo virtual ou uma espécie de furo do real dentro da realidade; é por isso que o verdadeiro conhecimento das Ideais de que nos fala Platão só pode ser alcançado através da estilística, da mitologia, do ficcional, do onírico, do ritualístico, do filosófico e do religioso. A ciência está em nível de Saber, enquanto a poesia, o mito, a ficção, o sonho, o ritual, a filosofia e a religião estão em nível de Verdade, porém, não se trata de uma verdade manifesta, mas sim de uma verdade latente, oculta, que precisa ser decifrada como se decifra um enigma. O real é irracional e o irracional é real. A filosofia não é uma ciência como pensava Hegel e Mário Ferreira dos Santos, pelo contrário, a filosofia é uma insciência, isto é, uma espécie de saber que não se sabe. Através da filosofia e da religião a Verdade se manifesta dentro do Saber. A filosofia e a religião se estruturam como um retorno da Verdade dentro do Saber, só que o que retorna não é exatamente a Verdade, mas sim o saber verdadeiro. Enquanto a ciência nos revela o Saber sobre o mundo virtual, a filosofia e a religião nos revela a Verdade sobre o mundo real.

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