A Crítica da Razão Psiquiátrica

No Livro A Crítica da Razão Psiquiátrica demonstramos que Ana Rosa Bulcão Vieira em seu artigo intitulado Organização e Saber Psiquiátrico nos diz o seguinte: “Só é possível compreender o nascimento da psiquiatria a partir da medicina, no momento em que esta incorpora a sociedade como novo objeto e se impõe como instância de controle social dos indivíduos e no seio da medicina social que se constitui a psiquiatria. Do processo de medicalização da sociedade surge o projeto – característico da psiquiatria – de patologizar o comportamento do louco, somente a partir de então considerado anormal e, portanto, medicalizável; e somente no início do século passado que a loucura ascende à categoria de doença mental. Nessa época os loucos se disseminavam indiferentemente entre os hospitais gerais, as casas, de detenção, as casas de caridade, os dep6sitos de mendigos e as prisões familiares. Nessa época a loucura figura claramente como estigma, isto é, como sinal distintivo e significante da pertinência do louco à categoria das “classes perigosas”. Apsiquiatria, então, ainda não se havia firmado, apropriando-se da insanidade como objeto pr6prio dentro da- legitimidade do seu saber e de sua técnica. A classificação resultante na definição da doença mental não obedece a um esquema puramente teórico e pertinente a uma disciplina científica; mas tem a ver com a normatividade de uma ordem institucional particular; “Não se pode pensar essa ordem e, correlativamente, essa desordem, senão por referência à lei ou à norma que a institui e defme” (Albuquerque, 1978). Mas os diversos sentidos da lei ainda se confundem amplamente na época da instituição da loucura em, objetei científico, sobretudo no domínio das ciências do homem. “De cada urna das concepções de lei e de ordem a caracterização da doença mental, enquanto desordem dei espírito, irá retirar sua contribuição, Da ideia de ordem enquanto sujeição a uma norma, decreto, expressão de uma vontade superior, a definição científica da doença mental retira a caracterização do louco como insubmisso, infenso a qualquer norma ou regularidade. Da ideia de ordem como expressado de um princípio abstrato, deriva a ideia de irracionalidade do louco e do caráter anormal e, portanto, especial da doença mental, Finalmente, da ideia de lei como regularidade imanente e necessária dos fenômenos deriva a concepção da loucura como patologia, exceção”(Castel, 1978). Enfim, a psiquiatria nascente, na tentativa de medicalizar a doença mental, de se apropriar da loucura dentro de um paradigma científico, acaba não sabendo se deriva a legitimidade de sua ação sobre a doença mental das normas científicas ou da legislação que lhe confere autoridade legal sobre a doença mental e, particularmente, sobre os “doentes mentais”. Tal como o saber jurídico, o saber sobre a doença mental produz, então, sua verdade em virtude do que explicita a lei e não a partir da evidência empíricas dos fatos ou de teorias aceitas. Essa aproximação entre os dois saberes teórico-prático e altamente institucionalizados, um sobre a ordem legal e outro sobre a desordem mental, é praticamente constitutivo da ciência da doença mental”. (Ana Rosa Bulcão Vieira; 1981)

Bem, o que a então na época aluna de mestrado em administração, na área de teoria e comportamento organizacionais, da EAESP/FGV tem a nos dizer é algo absolutamente primordial para compreendermos as origens da psiquiatria ou do saber psiquiátrico. O mais importante a ser frisado neste artigo de Ana Rosa Bulcão Vieira é o fato de que a psiquiatria clássica nasce da tentativa de medicalizar a doença mental e de se apoderar da loucura dentro de um suposto paradigma científico, mas acaba por não saber se sua legitimidade deriva do poder do saber científico das doenças mentais ou se deriva da legitimidade imposta pela lei que lhe dá legitimação jurídica para se apoderar da doença mental e das pessoas que sofrem por causa de sua condição existencial. Ou seja, a psiquiatria clássica não nasce como uma ciência, mas sim como uma lei, isto é, a psiquiatria clássica tem sua nascença não no poder do discurso científico, mas sim no poder do discurso legislativo.

A psiquiatria não é uma ciência, mas sim uma insciência por uma simples razão: todos os seus postulados ultrapassam os limites da razão alicerçados por Kant (1724-1804) em sua “Crítica da Razão Pura” e os limites da linguagem arquitetados por Wittgenstein (1889-1951) em seu “Tractatus Lógico-Philosophicus”, e não se enquadram dentro do princípio da falseabilidade formulado por Karl Popper (1902-1994) em sua obra “A Lógica da Pesquisa Científica”, que estabelece os critérios para se distinguir a ciência da não-ciência.

Analisando, sob a ótica de Popper, o principal postulado da psiquiatria, a saber: o objeto da psiquiatria é o transtorno mental e este deve ser catalogado em códigos. Por outro lado a metapsiquiatria tem como principal postulado a seguinte proposição: o objeto da metapsiquiatria é o sujeito e seu sofrimento, seja ele de ordem natural ou sobrenatural, e defende a tese de que, se a psiquiatria se baseou na observação e na teorização sobre os transtornos mentais catalogados por  Philippe Pinel (1745-1826) no manicômio de Bicêtre, só se pode tirar conclusões sobre o que Pinel observou, isto é, o fenômeno do transtorno mental, mas nunca sobre o que Pinel não observou, isto é, a coisa-em-si (o inconsciente).

Assim, se Pinel observou alguns transtornos mentais no manicômio Bicêtre e classificou as doenças mentais em quatro categorias (manias” ou delírios gerais, “melancolias” ou “delírios exclusivos”, “demências” e “idiotias”), isto não lhe permite afirmar cientificamente a veracidade destas categorias, posto que uma outra pessoa, observando os mesmos fenômenos analisados por Pinel, pode chegar à conclusões bem diferentes da dele, afirmando que tais transtornos são de outra categoria. Não importa quantos transtornos mentais tenham sido observados por Pinel, basta a conclusão oposta de outra psiquiatra sobre os mesmos transtornos mentais para derrubar a pretensão científica dos postulados organizados por Pinel para arquitetar e fundar a psiquiatria.

Assim, qualquer pretensão psiquiátrica à cientificidade da psiquiatria baseada na observação dos transtornos mentais (manias” ou delírios gerais, “melancolias” ou “delírios exclusivos”, “demências” e “idiotias”), jamais poderá ser considerada uma verdade absoluta e definitiva. E nem adianta alguns psiquiatras ortodoxos recorrerem ao enfoque historicista de Thomas Kuhn (1922-1996) e ao conceito de paradigma com a finalidade de dar uma certa esperança a psiquiatria de que um dia, no futuro, a psiquiatria poderá ser confirmado pela ciência, pois dentre as seis fases do desenvolvimento da ciência estabelecidas por Kuhn, a saber: 1°- Paradigma (noção fundamental do enfoque historicista de Kuhn, e enfatiza um marco histórico na ciência que é aceito de forma geral por um conjunto de cientistas que compartilham um mesmo paradigma); 2°- Ciência Normal (período histórico no qual é desenvolvida uma determinada atividade científica baseada num paradigma com a finalidade de pôr a prova a sua veracidade); 3°- Crise (período histórico em que se percebe que o paradigma não é capaz de resolver todos os problemas e explicar a totalidade do fenômeno em questão, possuindo limitações e incompletudes que levam os cientistas a repensarem o paradigma); 4°- Ciência Extraordinária (período histórico no qual surgem novos paradigmas que competem entre si na elucidação do fenômeno analisado); 5°- Revolução Científica (período histórico no qual um dos novos paradigmas surgidos substituem o paradigma tradicional adotado anteriormente, dando inicio a um novo ciclo na história da ciência, um exemplo clássico de revolução científica é a revolução copernicana); 6°- Novo paradigma (período no qual surge um novo paradigma na história da ciência), a psiquiatria não se enquadra nem mesmo na primeira delas, a saber, a fase do paradigma. Apesar do brilhante e verdadeiro trabalho de Kuhn, não é lícito à psiquiatria se apoderar de sua filosofia histórica da ciência como alguns psiquiatras se apoderaram do positivismo de Comte (1798-1857) para dar à psiquiatria a falsa esperança de que um dia a psiquiatria será confirmada pela ciência, pois a psiquiatria não se adapta ao conceito de paradigma de Kuhn, que resulta fundamentalmente da interpretação histórico-sociológica e subjetiva da ciência e não passa de uma perspectiva que se aceita de forma geral por toda a comunidade científica (o que não é o caso da psiquiatria, que possui diversas ideologias diferentes e até contraditórias) e a partir do qual se realiza a lógica da pesquisa científica, cujo objetivo é esclarecer os possíveis enganos ou ilusões do paradigma no qual se baseia. Kuhn nos mostra claramente que o critério que define o que é a ciência é algo subjetivo e progride de modo a aproximar-se dialeticamente da verdade. Esta aproximação é feita, segundo nossa compreensão baseada na dialética histórica de Hegel (1770-1831) sob a ótica do Alvissarismo e no trabalho de Popper, através da oposição binária entre a Tese e a Antítese, que substitui uma teoria por outra mais adequada no que se refere à explicação lógica do fenômeno e o seu vínculo com a realidade objetiva. Sendo assim, a ciência não é somente subjetiva como quis Kuhn, mas também objetiva como nos mostrou Popper, ou seja, o processo evolutivo da ciência provém de uma contradição interna à própria história da humanidade que contrapõe a Tese à Antítese, substituindo um paradigma por outro sucessivamente através da dialéica histórica entre a Tese, a Síntese e a Antítese, já que, segundo a nossa compreensão do processo histórico, não são possíveis trocas diretas entre a Tese (++) e a Antítese (- -) sem antes perpassar pela Síntese (+ – ou – +), ou seja, não são possíveis trocas diretas entre o Ser e o Não-Ser sem antes perpassar pelo Devir.

No que se refere ao trabalho de Kuhn, a psiquiatria permanece no estágio pré-paradigmático, que é o estágio embrionário e um campo de conhecimento em vias de se tornar uma ciência. Este estágio é caracterizado pela atividade exercida por uma comunidade científica antes da aquisição de um paradigma, estágio ao qual a psiquiatria não alcançou, já que, o paradigma, segundo Kuhn, é um conjunto de crenças, regras, compromissos e valores que são compartilhados pelos cientistas por um determinado período de tempo e que confere à sua atividade investigativa a unidade mínima que lhe permite constituir uma comunidade científica. Se assim compreendemos o paradigma, o estágio pré-paradigmático no qual se enquadra a psiquiatria, deve ser, portanto, caracterizado por momentos em que uma determinada ciência é praticada sem que haja consenso entre os cientistas sobre quais devem ser as crenças, regras, compromissos ou valores que deverão ser aceitos por todos com a finalidade de promover o progresso daquela ciência. Este é, pois, o estágio ao qual a psiquiatria, por ser uma insciência, permanece, sem ter condições de chegar a se constituir como um verdadeiro paradigma, isto é, sem possuir o caráter de uma verdadeira ciência, mas apenas o caráter de uma pseudociência. O que caracteriza a Insciência e a Pseudociência é o fato de elas não conseguirem ultrapassar o estágio pré-paradigmático do desenvolvimento da Ciência; e o que diferencia a Insciência e a Pseudociência é o fato de a Insciência (metapsiquiatria) não possuir a pretensão de ultrapassar o estágio pré-paradigmático, enquanto que a Pseudociência (psiquiatria), mesmo no fundo sabendo não possuir capacidade para ultrapassar este estágio, ainda assim afirma pretensiosamente a possibilidade de ultrapassá-lo e chegar ao estágio paradigmático, tornando-se frustrada por não conseguir alcançar o seu objetivo de ser uma Ciência e ao mesmo tempo não ter a humildade de reconhecer não ser uma Ciência. O problema da psiquiatria é que ela pretende ser uma coisa que não é, ou seja, uma Ciência, e nega ser uma coisa que é, ou seja, uma Insciência.

A metapsiquiatria, baseada na Filosofia da Ciência de Karl Popper, afirma que a impossibilidade de se refutar os principais postulados da psiquiatria, torna-a uma teoria de natureza não-científica. Assim, uma teoria só pode ser considerada científica quando é falseável, isto é, quando se torna possível provar sua falsidade. Esse conceito é conhecido como falseabilidade ou refutabilidade. Para um postulado ser falseável ou refutável, em princípio deverá ser possível fazer uma observação ou fazer uma experiência física que consiga mostrar que esse postulado é falso, o que não é possível fazer com os postulados da psiquiatria, já que não é possível provar que a loucura existe.

Por exemplo, para a psiquiatria ser denominada de Ciência, o postulado “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental”, arquitetado pela psiquiatria a partir da observação das psicoses, deveria poder ser falseado pela observação de uma pessoa que rompe com a realidade e não sofre de um transtorno mental, mas como o postulado “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental” não é falseável, pois a ruptura com a realidade não prova a existência da loucura, logo ele se torna, segundo o princípio da falseabilidade formulado por Popper nos anos de 1930, um postulado não científico.

Pinel supôs que se poderia passar de um postulado singular para um postulado universal, ou seja, que se poderia passar de “esta pessoa que rompe com a realidade sofre de um transtorno mental” para “ali está outra pessoa que rompe com a realidade e sofre de um transtorno mental”, e por isso, “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental”. No que se refere à lógica, este método é obviamente inválido, uma vez que o postulado “esta pessoa rompe com a realidade e sofre de um transtorno mental” não prova a veracidade do postulado “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental”. Ou o contrário, o postulado “esta pessoa não rompe com a realidade e não sofre de um transtorno mental” não prova o postulado “todas as pessoas que não rompem com a realidade não sofrem de um transtorno mental”. Este problema de indução lógica de um postulado singular para um postulado universal já havia sido identificado por David Hume (1711-1776).

O enunciado “esta pessoa rompe com a realidade e sofre de um transtorno mental” tirado por Pinel da observação dos sintomas dos pacientes aprisionados no manicômio Bicêtre (e não da escuta atenta do discurso do paciente) é chamado, na lógica, de enunciado existencial singular, uma vez que ele afirma o transtorno mental de uma pessoa particular. Este enunciado não pode inferir que “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental”, ou seja, na lógica, de um enunciado singular não se pode inferir um enunciado universal. Apesar do enunciado existencial singular “esta pessoa rompe com a realidade e sofre de um transtorno mental” não poder ser usado para afirmar o enunciado existencial universal “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental”, mas ele pode ser usado para demonstrar que um determinado enunciado universal é falso. A observação existencial singular de uma pessoa que rompe com a realidade e não sofre de um transtorno mental serve para mostrar que o enunciado “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental” é falso. Deste modo, se um sujeito como Chico Xavier (1910-2002) ou qualquer outro médium nos diz categoricamente poder se comunicar com os mortos e um tal psiquiatra afirme que “esta pessoa rompe com a realidade e sofre de um transtorno mental”, esta asserção não possui qualquer caráter científico, pois este é um juízo exclusivamente singular promovido pelo tal psiquiatra, e qualquer outra psiquiatra que não tenha a mesma opinião não poderá jamais afirmar que “esta pessoa rompe com a realidade e sofre de um transtorno mental”, e mesmo que outro psiquiatra tenha a mesma opinião do primeiro, da asserção “esta pessoa rompe com a realidade e sofre de um transtorno mental” não é lícito inferir que “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental”. Para que a psiquiatria pudesse ter caráter científico, seria necessário que a ruptura com a realidade e o transtorno mental decorrente desta fosse universal, inerente a todas as pessoas deste mundo, e não singular, isto é, exclusiva de umas poucas pessoas neste mundo, ou seja, para que a psiquiatria viesse de fato a se tornar uma ciência seria necessário que todas as pessoas deste mundo, indistintamente, que tivessem algum rompimento com a realidade sofressem de algum tipo de transtorno mental.

Com Hume, Kant, Wittgenstein e Popper os limites da ciência são claramente definidos. A ciência produz teorias falseáveis que só serão válidas enquanto não forem refutadas. Seguindo este modelo, a mtapsiquiatria conclui que não há como a psiquiatria ser denominada de Ciência, que é regida exclusivamente por juízos sintéticos a priori, pois o seu objeto e os seus postulados centrais pertencem à Filosofia, que busca a verdade através de juízos analíticos a priori, e à psicopatologia, que busca a verdade através de juízos analíticos a posteriori.

A metapsiquiatria, portanto, adota o princípio da falseabilidade de Popper e a distinção entre fenômeno e coisa-em-si e entre juízos analíticos e sintéticos de Kant para afirmar categoricamente que a psiquiatria não é uma Ciência, mas sim uma Pseudociência enquanto pretender ser uma Ciência, e uma Insciência quando reconhecer não ser uma Ciência.

A psiquiatria é estruturada por juízos analíticos, mas é fundada posteriormente à experiência da observação dos sintomas e principalmente da audição do discurso do paciente. O juízo “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental” é um juízo analítico a posteriori, pois aqui o predicado está implícito no sujeito e a conexão analógica só é possível devido à experiência da observação dos sintomas e da audição do paciente que relata ao psiquiatra o seu surto psicótico, pois para saber que toda pessoa que rompe com a realidade sofre de um transtorno mental, é necessário antes que o homem tenha vivenciado a experiência da ruptura com a realidade através do surto psicótico. A psiquiatria só existe porque são possíveis juízos de experiência fundados de modo puramente analítico. Todavia, na psiquiatria não é possível qualquer tipo de juízo a priori, mas em alguns casos, onde se utiliza de tecnologia, é possível o juízo sintético a posteriori; em verdade, é facilmente perceptível que a psiquiatria só é possível via juízos analíticos a priori (filosofia) e a posteriori (psicopatologia), isso na medida em que as proposições psiquiátricas são, por um lado, todas universais e necessárias quando são analíticas a priori, e por outro lado, todas singulares e particulares quando são analíticas a posteriori, lembrando que todo juízo analítico a posteriori estrutura em si mesmo a necessidade e a universalidade, porque são especulações filosóficas com base em dados concretos, ou seja, são especulações com base na experiência sensível, tal como fizera Pinel ao fundar a psiquiatria. Em lógica, não se pode inferir um enunciado universal de um enunciado singular, mas se pode inferir um enunciado singular de um enunciado universal, e é exatamente isto o que faz a metapsiquiatria através dos juízos analíticos, que inferem de um enunciado universal a priori, como por exemplo: “Todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental”, um enunciado singular a posteriori, como por exemplo: “esta pessoa rompe com a realidade e sofre de um transtorno mental”. Um enunciado singular não é necessariamente um enunciado universal, mas um enunciado universal é necessariamente um enunciado singular, ou seja, se eu postulo que “todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental”, então necessariamente “esta pessoa que rompe com a realidade sofre de um transtorno mental”. Esta é a base lógica na qual se estrutura a metapsiquiatria. Nos juízos analíticos a posteriori o sujeito e o predicado possuem relações de identidade e semelhança, porém essa relação só é estabelecida graças à experiência sensível, portanto, trata-se de um juízo que depende da experiência para ser erguido, mas como é analítico, estrutura-se de forma universal e necessária e, devido à experiência, possibilita certo grau de ampliação no conhecimento, mesmo que seja de forma limitada e incompleta, os juízos analíticos a posteriori são os mais importantes para a metapsiquiatria, pois são juízos universais e necessários, que se estruturam na singularidade e na particularidade da experiência de cada sujeito. O juízo analítico a posteriori é aquele que compara representações e conceitos, avaliando os fenômenos particulares e ligando-os a leis universais, ele reflete sobre conceitos universais de acordo com sua singularidade, analisando a experiência e submetendo-a a especulações empíricas que fundamentam leis estéticas e teleológicas de modo universal e necessário.

Os juízos analíticos a posteriori são parecidos com os juízos reflexionantes descobertos por Kant na “Crítica do Juízo”, porém não são sintéticos, mas sim analíticos, ou seja, são dedutivos e não indutivos. O juízo analítico a posteriori é uma dedução estética ou teleológica universal e necessária tirada da experiência sensível. O juízo analítico a posteriori é o único capaz de ampliar o conhecimento metapsiquiátrico, mesmo que de uma forma limitada e incompleta, pois ele é o único juízo capaz de estruturar em si mesmo o retorno do real dentro do simbólico e/ou do imaginário, possibilitando a ampliação do conhecimento metapsiquiátrico. O problema do juízo analítico a posteriori é que este, por mais que estabeleça proposições universais e necessárias como referentes aos transtornos mentais, são sempre particulares e subjetivos, e, por mais que um tal psiquiatra afirme que Chico Xavier e Pedro Siqueira (1971) romperam com a realidade e por isso sofrem de um transtorno mental por declarar poder ver e falar com as almas dos mortos, e nos afirmar que Deus existe e que a alma é de fato imortal porque eles experienciaram essa ruptura com a realidade, mesmo assim esse diagnóstico não tem qualquer valor científico, pois, para qualquer outro psiquiatra que não dê o mesmo diagnóstico, esse conhecimento permanece vazio, e o máximo que o psiquiatra pode fazer é insistir em sua opinião, mas esta jamais terá validade objetiva, isto é, científica, pois o diagnóstico aqui é exclusivamente particular e singular, vivenciada única e exclusivamente pelo psiquiatra. A metapsiquiatria não pressupõe que todas as pessoas que rompem com a realidade sofrem de um transtorno mental, como um delírio ou alucinação, como no caso de Chico Xavier e Pedro Siqueira que declaram poder se comunicar com os mortos, pois tal ruptura com a realidade pode ser uma ampliação subjetiva do conhecimento metafísico devido à experiência sensível da mediunidade, que faz com que o subjetivo e o objetivo se tornem um e o mesmo, sendo a mediunidade ou o Dom do Espírito Santo aquilo que, regido pelo juízo, intercambia os mundos sensível e inteligível, dando ao sujeito acesso à coisa-em-si através do fenômeno da experiência mística, que é uma ruptura com a realidade, mas não é um transtorno mental. O fato de alguém declarar que pode se comunicar com os mortos ou que vê, ouve e sente a presença de entidades espirituais malignas ou benignas não prova de forma alguma que tal pessoa sofra de algum tipo de psicose. O erro primordial da psiquiatria está em estabelecer seus diagnósticos com base nos sintomas catalogados no CID 10 e no DSM V, onde a cada espirro surge um novo transtorno, e não no discurso do paciente e na dinâmica do Complexo de Édipo (relação do paciente frente à proibição do incesto). O CID 10 e o agora DSM V são na verdade um manual de como dar um diagnóstico errado e confundir alhos com bugalhos, o que em geral acontece não só pela fixação da psiquiatria em sintomas, mas também por causa de a psiquiatria não realizar as entrevistas preliminares antes de dar início ao tratamento farmacológico; pois é isso o que faz um psiquiatra: ele receita drogas antes mesmo de estabelecer um diagnóstico seguro. Isso é um perigo! Trata-se de um modo de tratamento absolutamente precipitado. O psiquiatra nada mais é do que um farmacêutico que trabalha sentado em uma poltrona confortável e não atrás de um balcão, e em geral não tem a menor ideia de como conduzir uma psicoterapia (salvo se for especialista em alguma das diversas correntes de psicoterapia, como psicanálise, humanismo, existencialismo, psicologia transpessoal ou terapia cognitivo-comportamental), já que sua especialidade é especificamente receitar drogas ao paciente, como um comerciante de drogas. Os psiquiatras em sua grande maioria não passam de açougueiros da mente humana; são assustadoramente superficiais, e o que é mais incrível: se acham muito inteligentes, uns até pensam ser semideuses, mesmo não tendo capacidade intelectual para entender sequer uma única frase de Lacan, cujo trabalho magnífico eles desprezam justamente porque não compreendem. Um psiquiatra pode se passar por muito inteligente a alguém que não conhece de psicopatologia, psicanálise e filosofia, pois a alguém que tem o mínimo conhecimento nessas três áreas jamais verá no psiquiatra alguém inteligente, mas tão somente um sujeito patético que está a décadas subjugando pacientes enquanto aparenta estar tratando. Os psiquiatras do século XXI tratam seus pacientes cometendo os mesmos erros que Freud cometia no início da psicanálise, e olha que eles em geral só sabem o básico de psicanálise, isto é, somente o que eles estudam muito superficialmente na escola de psiquiatria, onde aprendem mais sobre como se colocar como superior a seu paciente do como tratar sua mente. Cada vez que um psiquiatra atende um paciente, Freud e Lacan se reviram na tumba de tão superficiais que eles são, e tentam fazer seu paciente engolir suas teorias no consultório, como se se devesse discutir teorias com os pacientes e não simplesmente escutá-los. A verdade é que boa parte dos psiquiatras não são ruins no que fazem; eles são péssimos, e qualquer pessoa que conheça a prática psicanalítica e a prática psiquiátrica não hesitaria sequer um segundo em ficar com a psicanálise, pois o psiquiatra é um farmacêutico que finge tratar da mente humana. O que seria do psiquiatra se não fossem as drogas que ele receita a seus pacientes? Ele seria tão somente um clínico geral e olhe lá. O saber da psiquiatria não está no inconsciente como está o saber da psicanálise, mas sim na droga que ele receita, e sem ela ele nada seria, pois ele não entende da natureza da mente humana, mas tão somente da estrutura química do cérebro. Mas o que realmente faz com que a grande maioria dos psiquiatras seja tão ruim no que eles fazem é o fato de eles próprios não se submeterem ao tratamento que eles realizam em seus pacientes. Isso quer dizer que eles projetam em seus pacientes as suas próprias questões mal resolvidas; enquanto que, por outro lado, todo psicanalise se submete à própria análise antes de se tornar analista, justamente para que ele não venha a projetar em seu paciente as suas próprias questões. O psiquiatra é um verdadeiro hipócrita, pois não experimenta o tratamento que ele submete seus pacientes. Numa metáfora, o psiquiatra é como um produtor rural que vende frutas encharcadas de agrotóxico, mas não as come, pois sabe que se ele comer da fruta que vende, ele irá passar mal. O diagnóstico de um transtorno mental não pode jamais se basear no sintoma como fazem os psiquiatras, mas sim no discurso estético original e na dinâmica do Complexo de Édipo como fazem os psicanalistas. Se o paciente declara poder se comunicar com pessoas mortas, vê e ouve entidades espirituais malignas ou benignas, isso mostra que há de fato uma ruptura com a realidade, mas se este paciente não possui nenhum dos sintomas clássicos de paranoia (delírio persecutório), mania (delírio de grandeza e verborragia), melancolia (tristeza mórbida e delírio de morte/suicídio) ou esquizofrenia (delírio persecutório e alucinação corporal), e é capaz de formular figuras de estilo como metáforas e metonímias de modo original e não por clichê, então sua ruptura com a realidade não é devido a um transtorno mental, mas sim a um dom ou experiência mística real, salvo se estiver mentindo, mas isso será facilmente percebido pelo psiquiatra, que pode prova-lo e testá-lo quando achar conveniente. Quando perguntaram a Chico Xavier no programa Pinga Fogo se ele se sentia perseguido, ele respondeu com toda humildade que seria uma pretensão muito grande de sua parte se achar perseguido. Pedro Siqueira passou na infância e na juventude por diversos psicólogos, psiquiatras, neurologistas e nenhum deles confirmou qualquer característica de psicose no sujeito.

Entre as muitas contribuições de Hume, Kant, Wittgenstein e Popper à humanidade, a maior delas está em nos legar à grandeza de reconhecer o quão pequeno nós somos e o quão pouco nós sabemos. O que a psiquiatria precisa fazer é renunciar à arrogância e à presunção da pretensão à cientificidade de seus postulados e ser humilde o bastante para reconhecer os seus próprios limites, admitindo não ser uma Ciência, mas sim uma Insciência. A tese de que a psiquiatria é uma prática de natureza não científica é um dos principais aspectos reformadores da metapsiquiatria enquanto Insciência.

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