Semiologia Metapsicopatológica

No Livro Metapsicopatologia dissemos que Charles Morris (1946) divide a semiologia em três campos: a semântica, responsável pelo estudo das relações entre os signos e os objetos a que tais signos se referem; a sintaxe, que compreende as regras e as leis que regem as relações entre diversos signos em um sistema de signos; e, por fim, a pragmática, que se ocupa das relações entre os signos e os sujeitos que fazem uso concreto deles.

O signo é o elemento nuclear da semiologia metapsicopatológica, isto é, o signo é um tipo de sinal, ou seja, qualquer estímulo emitido pelos objetos encontrados na pessoa. Assim é que podemos deduzir que a fumaça é um sinal do fogo, a cor vermelha, do sangue, etc. O signo é um sinal especial porque está sempre provido de significação. Desse modo, na semiologia metapsicopatológica, sabe-se que se o paciente relata falar com as almas dos mortos, mas não relata nenhum tipo de delírio persecutório ou alucinação corporal é um sinal/signo de que este paciente não é um psicótico e provavelmente de fato possui um dom mediúnico, ou se o paciente visões com seres espirituais, como anjos e demônios, ou relata ter sonhos premonitórios que de fato a posteriori acontecem, e não relata nenhum tipo de delírio persecutório por parte dos tais anjos ou demônios e nenhum tipo de alucinação corporal, é um sinal/signo de que este paciente de fato possui um dom mediúnico, e não algum tipo de psicose, como esquizofrenia ou paranoia. A semiologia metapsicopatológica trata especificamente dos signos que indicam a presença ou ausência de um elemento espiritual na causa do transtorno mental, isto é, a semiologia metapsicopatológica trata dos signos que indicam quais são as causas espirituais do transtorno, isto caso elas existam, e não sejam apenas causas físicas ou mentais puramente. Os signos de maior interesse para a semiologia metapsicopatológica são os sinais que são emitidos pelo espírito do paciente de forma objetiva, verificáveis pela observação direta do espírito em seu estilo (ver Psicologia Alvissarista – Estilística: Terapia Psicoespiritual), e as vivências subjetivas do paciente relatadas por testemunhas, amigos, parentes mais próximos e qualquer pessoa que de forma direta ou indireta esteja ligada aos acontecimentos que antecederam ao transtorno espiritual, ou seja, suas queixas e narrativas, aquilo que a vítima experimentou e, de alguma forma, comunicou a alguém, isto é, qualquer coisa que dê alguma pista sobre o que levou aquele sujeito a se tornar a vítima de um transtorno espiritual. Na investigação metapsicopatológica é preciso distinguir os sinais objetivos (observáveis pelo profissional) dos sinais subjetivos (percebidos por outrem e relatados ao profissional). Os sinais, por sua vez, devem ser percebidos como dados elementares do transtorno espiritual, que são provocados pelo investigador.

De acordo com Roman Jakobson [1962] (1975), os antigos estóicos já haviam desmembrado o signo em dois elementos fundamentais: o significante e o significado. Desse modo, todo signo é constituído por esses dois elementos básicos. O significante, que é o suporte material, o veículo do signo; e o significado, isto é, aquilo que é representado e que está ausente, ou seja, o conteúdo do veículo.

Segundo o filósofo americano Charles S. Peirce [1904] (1974), dentro das relações entre significante e significado de um signo, existem três tipos de signos: o ícone, o indicador e o símbolo. O ícone seria um tipo de signo no qual o elemento significante evoca automaticamente o significado, isso devido a uma extrema semelhança entre eles, como se o significante fosse uma afiguração do significado; desse modo, o desenho esquemático no papel de um fogo, pode ser considerado um ícone do objeto fogo. No caso do indicador ou índice, a relação entre significante e significado seria de contiguidade, isto é, o significante seria um índice ou algo que aponta diretamente para o significado; desse modo, uma nuvem é um indicador de chuva, a fumaça, um indicador do fogo, etc. E, por fim, o símbolo seria um tipo de signo totalmente diferente do ícone e do indicador; aqui o elemento significante e o objeto ausente (significado) são diferentes em aparência e sem qualquer relação de contiguidade, não havendo qualquer relação direta entre eles, tratando-se de uma relação puramente convencional e arbitrária. Entre o conjunto de letras agrupadas F-O-G-O e o objeto “fogo” não existe qualquer semelhança, nem visual nem de qualquer outro tipo, constituindo uma relação puramente convencional. É justamente por isso que o sentido e o valor de um símbolo dependem exclusivamente das relações que este mantém com os outros símbolos do sistema simbólico; depende, por exemplo, da presença ou ausência de outros símbolos que expressam significados semelhantes ou antagônicos a ele.

Os sinais metapsicopatológicos têm, como signos, uma dimensão dupla, isto é, uma dimensão referente à diacronia da vida ou mundo material e outra dimensão referente à sincronia da morte ou mundo espiritual. Eles podem ser tanto um índice (indicador) como um símbolo. Os sinais como índice indicam uma função que está em outro ponto do transtorno espiritual; porém, aqui, a relação entre o sinal/signo é em certo sentido de contiguidade. A mudança repentina de personalidade, a agressividade intensa e gratuita contra seres humanos e animais, desprezo e aversão a objetos religiosos, falar em tonalidades estranhas e línguas estranhas que a pessoa não conhece mudança na cor dos olhos e no formato da íris, cheiro de enxofre, pode ser um indicador de que a paciente está possuída por um demônio. Além da dimensão de indicador, os sinais/signos metapsicopatológicos, ao serem nomeados pelo profissional, pela testemunha ou pelo próprio meio cultural, tornam-se símbolos linguísticos no interior de uma linguagem ou de uma estrutura linguística. No momento exato em que recebe um nome, o sinal/signo adquire o status de símbolo, de signo linguístico arbitrário, que só poderá ser compreendido dentro de um sistema simbólico estruturado em determinado universo cultural. Desse modo, a angústia apresenta-se no suspeito como mãos geladas, tremores e aperto na garganta (que indicam uma disfunção no sistema nervoso autônomo) e, ao ser tal estado emocional nomeado como nervosismo, ansiedade ou gastura, passa a receber certo significado simbólico e cultural, que, por sua vez, só poderá ser compreendido tendo-se como referencia um universo cultural onde esses sinais fazem algum sentido. A semiologia metapsicopatológica, portanto, cuida não somente dos sinais/signos emitidos pelo paciente com o transtorno espiritual, mas também dos sinais/signos produzidos pelas testemunhas e familiares.

A semiologia metapsicopatológica deverá ser dividida em duas áreas fundamentais: a semiotécnica metapsicopatológica e a semiogênese metapsicopatológica.

A semiotécnica metapsicopatológica refere-se a técnicas e procedimentos específicos de observação e coletas e descrição de sinais/signos do transtorno espiritual e no discurso das testemunhas, dos amigos mais próximos, dos familiares do paciente e de qualquer outra pessoa que esteja direta ou indiretamente ligado aos acontecimentos que antecederam o transtorno espiritual. No caso, a semiotécnica metapsicopatológica concentra-se na entrevista direta com todas as pessoas que estejam de alguma forma ligada ao paciente ou aos acontecimentos que antecederam ao transtorno espiritual. A coleta de sinais/signos neste caso requer uma habilidade específica por parte do profissional em formular as perguntas adequadas para uma coleta produtiva de vestígios que levem o profissional às causas do crime. Aqui são fundamentais perguntas imbuídas de “como”, “onde”, “quando” e “por que”. Mas o fundamental para a semiotécnica metapsicopatológica é a observação minuciosa, atenção e perspicácia do comportamento, do conteúdo de seu discurso e do seu modo de falar, da sua mímica, postura, vestimenta, forma como reage ao acontecimento do transtorno espiritual e do seu estilo de relacionamento com o profissional, com as testemunhas, amigos, familiares do paciente e com qualquer outra pessoa que esteja direta ou indiretamente relacionada aos acontecimentos que antecederam ao transtorno espiritual.

A semiogênese metapsicopatológica, por sua vez, é o campo de investigação da origem espiritual do transtorno, dos mecanismos, dos significados e do valor do transtorno espiritual para o sujeito. Portanto, os objetos da metapsicopatologia são dois: o transtorno espiritual, e a causa espiritual do transtorno, isto é, o transtorno espiritual em relação a um objeto de gozo. A metapsicopatologia está interessada apenas nas patologias cuja causa é espiritual, e não física ou mental. Por isso é necessário para o trabalho do profissional uma sequência de entrevistas preliminares onde o profissional poderá com maior assertividade diagnosticar se a causa do transtorno é física, mental ou espiritual. Sendo a causa do transtorno de ordem física o mais adequado a se fazer é indicar um clínico geral. Sendo a causa do transtorno de ordem mental o mais adequado é indicar um psiquiatra, um psicoterapeuta, um psicanalista ou um psicólogo.

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