O Natural e o Sobrenatural ou a Psicose e a Mediunidade

 

No Livro Metapsicopatologia dissemos que o conceito de natural e sobrenatural em metapsicopatologia é uma questão que será compreendida como a psicose e a mediunidade; por isso mesmo é uma questão bastante delicada e controversa. É óbvio que, quando se trata de um caso extremo, como uma possessão demoníaca, onde todos os sintomas e alterações comportamentais são de intensidade extrema e de longa duração, como no caso de Anneliese Michel, que inspirou o filme “O exorcismo de Emily Rose”, o delineamento da fronteira entre o natural e o sobrenatural é evidente. No entanto, existem muitos casos limítrofes, nos quais a delimitação entre o natural e o sobrenatural e a distinção entre uma entidade demoníaca, um orixá maligno e um espírito obsessor é bastante difícil. Nestas situações limítrofes, onde não se sabe ao certo se o caso é natural ou sobrenatural, se a entidade é um demônio, um orixá ou um espírito obsessor, o estudo da demonologia, da angelologia e da magia são de primordial importância para que o profissional possa fazer um diagnóstico diferencial.

Deve-se, portanto, manter três raciocínios clínicos no estabelecimento do diagnóstico; um raciocínio baseado fundamentalmente na cuidadosa descrição evolutiva e atual dos sintomas que o sujeito apresenta; um raciocínio etiológico, que busca estabelecer se o transtorno é de ordem natural (neurose, perversão ou psicose) ou sobrenatural (demônio, orixá, obsessor) através de formulações hipotéticas plausíveis baseadas nos dados da experiência, ou seja, hipóteses construídas a posteriori; e por ultimo um raciocínio diferencial, que busca estabelecer a natureza da entidade espiritual, ou seja, se a entidade é um demônio, um orixá ou apenas um espírito obsessor.

Para o Alvissarismo, os anjos tem uma natureza puramente espiritual e livre. A função dos anjos é diversificada de acordo com a sua hierarquia, mas basicamente os anjos são responsáveis pela glorificação de Deus e pela transmissão da vontade divina tanto no mundo inteligível ou espiritual quanto no mundo sensível ou material. Os anjos e os homens possuem semelhanças notáveis, ambos são criaturas inteligentes e foram criados à imagem e semelhança de Deus. Os anjos possuem um papel essencial na ascensão mística dos homens, uma vez que esses seres celestiais são responsáveis por preparar a alma dos homens para a visão de Deus. Cada ser humano possui um anjo da guarda individual desde a sua concepção, que o prepara para viver no mundo, protegendo-o do mal até onde Deus permite, cuidando e zelando pela sua vida até o fim, e encaminhando-o para o seu destino após a morte, seja o céu ou o purgatório. Quando a contabilidade moral do espírito é negativa, o anjo simplesmente permite que o demônio o leve para o inferno. O Alvissarismo classifica os anjos em bons e maus. Os anjos maus são chamados anjos caídos ou demônios, postos como inimigos ou adversários de Deus e de seu povo. Um dos objetivos dos anjos é o de salvar a alma de todos os seres humanos e também dos anjos caídos, a fim de que Lúcifer – o rei dos demônios –, não tendo mais súditos, se converta e peça ao pai para voltar à morada celeste, exterminando assim a existência do inferno. Segundo a tradição Judaico-Cristã-Espírita adotada pelo Alvissarismo, o anjo é um mensageiro de Deus, conforme relatos da Bíblia são criaturas espirituais, servos e ajudantes diretos de Deus. Os anjos são escravos de Deus – o Rei do universo – no que tange ao sentido da palavra escravo, isto é, o que vive em absoluta sujeição a outrem, ou seja, os anjos são servos de Deus porque se sujeitam à sua vontade. No entanto, ao contrário de um escravo, tal como conhecemos na terra, os anjos recebem remuneração pelo seu trabalho, não estando totalmente à mercê da vontade divina; os anjos recebem pelo seu trabalho o pagamento de Deus em forma de felicidade por cada alma que eles conseguem salvar do fogo do inferno. O Alvissarismo faz uma descrição dos anjos baseado na tradição Judaico-Cristã-Espírita, considerando-os seres santos, isto é, separados do pecado, que atuam como mensageiros dos planos superiores do mundo espiritual. Deus, sendo soberanamente justo e bom, não criou os anjos perfeitos, puros e santos, pelo contrário, tais seres angélicos, independente de suas hierarquias celestiais, atingiram a Angelitude, pureza d’alma, santidade e felicidade por mérito próprio através das sucessivas reencarnações. Os anjos são espíritos que, através da pluralidade das existências, atingiram esse grau de evolução moral e intelectual através do pagamento de todas as suas dívidas morais para com Deus, a natureza e o próximo, se libertando do ciclo cármico da roda das encarnações, sendo este estado de pureza moral e intelectual também possível ao homem comum, que, através do seu livre-arbítrio e da sua boa vontade, pode, através da reencarnação, conseguir saldar todas as suas dívidas para com Deus, a natureza e o próximo e, assim, se libertar do ciclo cármico da roda das encarnações e se tornar um espírito santificado e livre da interferência da matéria pelas próprias escolhas que fizer no sentido da evolução moral e intelectual baseada na renúncia de si mesmo em prol do Outro. Assim que o homem consegue saldar todas as suas dívidas morais para com Deus, a natureza e o próximo, ele é automaticamente liberto do ciclo cármico da roda das encarnações e é nomeado por Deus e pelos nove coros celestes como um mensageiro direto de Deus, isto é, como um anjo. Ao se tornar um anjo, o espírito continua a trabalhar no caminho do bem até atingir o último grau da evolução espiritual e se tornar um serafim. Para o Alvissarismo, doutrina que tem o Judaísmo, o Cristianismo e o Espiritismo como base, os anjos são os espíritos santificados que são protetores dos necessitados e mensageiros do amor, da justiça e da caridade. Os anjos são, portanto, seres iluminados que trazem mensagens do mundo espiritual. Os anjos são mensageiros de Deus, e se comunicam com os homens e com seus protegidos principalmente através dos sonhos, tal como muitas vezes foi descrito nas escrituras sagradas, indicando a comunicabilidade entre os vivos e os mortos pelo viés da mediunidade ou dom do Espírito Santo. Segundo o Alvissarismo, os anjos, que são criaturas perfeitas e santificadas no sentido de não possuírem pecados ou dívidas em sua contabilidade moral, são os espíritos que já alcançaram a perfeição possível de ser alcançada pelas criaturas. Os anjos dedicam a sua existência a realizar a vontade de Deus, porque são capazes de compreender a finalidade da criação. A revelação Alvissarista confirma a existência dos anjos e faz a humanidade conhecer a sua natureza e origem.

Segundo a tradição Judaico-Cristã-Espírita adotada pelo Alvissarismo, demônios são espíritos impuros e malévolos, que lutam pela perdição da humanidade sob o comando de um rei chamado Lúcifer, Satã ou Satanás, que no princípio da criação fora um anjo, mas se rebelara contra Deus. Lúcifer, cujo nome significa “filho da luz” ou “portador da luz”, era o mais belo, sábio e poderoso de todos os anjos, foi exilado do céu por Deus devido a sua tentativa de tomar o trono do Pai e ser igual a Deus. Na mitologia Alvissarista, Lúcifer roubou o fogo de Cristo e por isso foi exilado do céu para o inferno. Lúcifer tornou-se Satã por ter roubado o fogo de Jesus, seu irmão gêmeo. Ele era um anjo de luz que, por ter se rebelado contra o Pai e roubado o fogo de Jesus, gerou uma guerra celestial. Ao perder a guerra, Lúcifer e todos os anjos que o seguiram, (cerca de 1/3), foram expulsos da presença de Deus e exilados no inferno. Lúcifer é conhecido por ser o portador da luz por ter roubado o fogo de Jesus. No princípio da criação, tentou oferecer a sabedoria a Eva, oferecendo-lhe o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (conforme está descrito no Gênesis), razão pela qual Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Na mitologia Alvissarista, Jesus é o primeiro espírito a encarnar na terra, por consequência do roubo efetuado por Lúcifer, dando-se a conhecer como Adão na figura do Pai primevo de Pequim, o primeiro homem a aprisionar seu espírito em um corpo. No princípio o Verbo se fez carne através do roubo do fogo. No Alvissarismo, os demônios são espíritos imundos, são anjos caídos que foram expulsos do céu devido ao orgulho, a inveja e a vaidade de Lúcifer, que tentou usurpar o trono de Deus roubando o fogo de Jesus. Lúcifer é o rei dos demônios. Por diversos motivos e por submissão religiosa a Satanás, os demônios têm o poder de possuir o corpo de algumas pessoas, assumindo o completo controle do corpo da pessoa possuída, manipulando suas ações e palavras e influenciando o conteúdo de seus pensamentos. A função dos demônios é diversificada de acordo com a sua hierarquia, mas basicamente os demônios são responsáveis pela perdição da humanidade e pela transmissão de valores contrários a vontade de Deus tanto no mundo inteligível ou espiritual quanto no mundo sensível ou material. Os demônios e os homens possuem semelhanças notáveis, posto que ambos são criaturas inteligentes, e muitos demônios já foram homens. Os demônios possuem um papel essencial na destruição da humanidade, corrompendo as almas dos homens através do vício e do pecado, uma vez que esses seres das trevas são responsáveis por tentar o homem a pecar e por fomentar em seus espíritos os pensamentos e os atos mais imorais, afastando os homens da companhia de Deus. Os demônios são homens ou anjos caídos que se tornaram adversários de Deus e de seu povo. Um dos objetivos dos demônios é fazer com que todas as almas dos homens e também dos anjos se percam do caminho de Deus e vão para o inferno, a fim de que Deus – o Rei do universo –, não tendo mais súditos, perca o seu reinado e Lúcifer tome posse de seu trono. Segundo a tradição Judaico-Cristã-Espírita adotada pelo Alvissarismo, o demônio é um mensageiro do Diabo, conforme relatos da Bíblia os demônios são criaturas espirituais, servos e ajudantes diretos de Satanás. Os demônios são escravos de Lúcifer – o rei do inferno – no que tange ao fato de eles viverem em absoluta sujeição a vontade de Satã. No entanto, ao contrário de um escravo tal como conhecemos, os demônios recebem remuneração pelo seu trabalho, não estando totalmente à mercê da vontade maligna; os demônios recebem pelo seu trabalho o direito a propriedade das almas que conseguem desencaminhar, levando para o inferno; as almas dos homens é a moeda de troca dos demônios, possuindo para eles muitíssimo valor. Muitas vezes os demônios fazem pactos com os homens a fim de comprar as suas almas. O Alvissarismo faz uma descrição dos demônios baseado na tradição Judaico-Cristã-Espírita, considerando-os seres malignos, isto é, juntos do pecado, que atuam como mensageiros do Diabo. Deus, sendo soberanamente justo e bom, não criou os espíritos para o mal, a impureza e o pecado, pelo contrário, tais seres malignos, independente de suas hierarquias diabólicas, atingiram a Demonitude, a impureza d’alma, pecado e imoralidade por responsabilidade própria através das diversas reencarnações. Os demônios são espíritos que, através da pluralidade das existências, atingiram esse grau de retrocesso moral, mas muitas vezes não intelectual, posto que muitos deles são inteligentíssimos, mas não sapientíssimos, já que através do não pagamento e da aquisição de dívidas morais para com Deus, a natureza e o próximo além do ponto limite que é 0, adquiriram mais débitos do que créditos morais, se aprisionando ao inferno, sendo este estado de impureza moral também possível ao homem comum, que, através do seu livre-arbítrio e de sua má vontade, pode, através da reencarnação, conseguir adquirir mais débitos do que créditos morais para com Deus, a natureza e o próximo, vindo a possuir assim uma contabilidade moral negativa, se aprisionando no inferno. Assim que o homem adquire mais débitos do que créditos morais, ele é imediatamente aprisionado no inferno e é nomeado por Lúcifer um demônios. Ao se tornar um demônio, o espírito passa a trabalhar diretamente para o Diabo. Ao se aprisionar no inferno, o espírito não está condenado àquela morada eternamente, posto que há possibilidades de ele se libertar da prisão dos mortos, basta apenas que, por seu livre-arbítrio, deseje pagar as suas dívidas morais para com Deus, a natureza e o próximo, manifestando esse desejo através da oração a Deus, que imediatamente lhe proporcionará uma nova existência corporal a fim de que ele recupere a sua contabilidade moral, passando-a de um saldo negativo para um saldo positivo; o problema é que, no inferno, os demônios fazem de tudo para não permitir que outros demônios se arrependam e peçam a Deus uma nova existência a fim de saldar as suas dívidas, de modo que poucos são os que conseguem se livrar das garras do Diabo e adquirir uma nova chance neste ou em outros mundos. Para o Alvissarismo, doutrina que tem o Judaísmo, o Cristianismo e o Espiritismo como base, os demônios são os espíritos impuros que são tentadores dos homens e mensageiros do pecado. Os demônios são, portanto, seres das trevas que tentam o homem a pecar, a fim de fazer da alma do pecador a sua propriedade privada. Os demônios são mensageiros do Diabo e se comunicam com os homens, procurando fazer pactos com eles com a finalidade de comprar as suas almas, e muitos são os homens que vendem as suas almas ao demônio. Para o Alvissarismo, os demônios, que são criaturas imperfeitas e imundas no sentido de possuírem pecados ou dívidas morais em sua contabilidade moral, são os espíritos que alcançaram essa degradação moral possível de ser alcançado pelas criaturas. Os demônios dedicam a sua existência a realizar a vontade de Satã, porque não são capazes de compreender o amor de Deus e o a finalidade da criação. A revelação Alvissarista confirma a existência de Satanás e dos demônios e faz a humanidade conhecer a sua natureza e origem.

Um aspecto importante da Demonologia Alvissarista é a distinção entre demônios e espíritos obsessores. Essa distinção é estabelecida basicamente de acordo com a contabilidade moral do espírito. Enquanto os demônios são espíritos que possuem uma contabilidade moral negativa, os espíritos obsessores ainda possuem uma contabilidade moral positiva, porém, existem outros aspectos que diferenciam os demônios dos espíritos obsessores, por exemplo, enquanto os demônios são mensageiros do Diabo e trabalham para ele, os espíritos obsessores são apenas espíritos desorientados e movidos pelo ressentimento, pelo rancor, pelo egoísmo, pelo ódio, pela inveja, pelo ciúme, pela ambição, pela ganância, pela avareza, pelo orgulho, pelo espírito de competição e pelo desejo de vingança, que influenciam de modo maléfico um outro espírito, esteja ele encarnado ou desencarnado, isto é, pode ocorrer obsessão entre espíritos encarnados. Os espíritos obsessores não são necessariamente maus como os demônios, podem ser bons ou apenas pecadores. O obsessor geralmente é um credor de vidas pretéritas do obsidiado, mas também pode ser apenas um espírito que está a adquirir uma dívida moral com o obsidiado através daquele ato, isso vai depender da ligação existencial que ambos os espíritos possuem na roda das encarnações. Os espíritos obsessores não possuem os poderes dos demônios, e não podem possuir o corpo de uma pessoa, eles apenas utilizam da capacidade mediúnica desta pessoa para atormentá-lo, eles conseguem exercer certa influência sobre as pessoas e não raramente até se prendem por laços de afinidade e de pensamento a determinadas pessoas, vampirizando suas energias a fim de alimentarem seus desejos carnais, seja através dos vícios morais e materiais, do sexo desregrado ou do apego sórdido ao dinheiro e aos bens materiais.

Na Mitologia Alvissarista, os orixás são espíritos de luz ou de trevas de ancestrais brasileiros que correspondem aos seus respectivos arquétipos e pontos de força da natureza. Os orixás não são deuses, nem anjos ou demônios, são apenas entidades de luz ou trevas relacionadas às manifestações de determinadas forças naturais, psíquicas ou morais, ou seja, são espíritos de ancestrais humanos que viveram em terras brasileiras antes mesmo da origem do Brasil, e que estão do ponto de vista de sua contabilidade moral dentro da Roda das Encarnações, ou entre a humanidade e angelitude ou entre a humanidade e a demonitude, e que podem ser representados por diversos símbolos distintos, mas que possuem capacidade de cópula com outros símbolos, formando assim o que se chama de sincretismo cultural e religioso, isto é, a fusão ou cruzamento de vários arquétipos que resulta em um novo arquétipo com traços de sua origem diversificada; desse modo é que cada um dos orixás do Alvissarismo corresponde a um ou mais dos santos católicos, ou seja, cada um dos orixás do Alvissarismo apresenta as mesmas determinadas características e funções de proteção dos santos católicos, no caso de espíritos da luz. Cada orixá possui o seu sistema simbólico próprio, composto por cores, comidas, cantigas, rezas, ambientes, oferendas, espaços físicos e etc. Esses orixás brasileiros nos são revelados em toda a sua significação, característica e personalidade através dos mitos e lendas do folclore brasileiro, ou seja, por meio da sabedoria popular do Brasil.

Bem, o motivo verdadeiro pelo qual eu estou a escrever este livro é que eu quero entender um fenômeno que aconteceu comigo há algum tempo. Sendo estudioso das religiões e muito admirador principalmente das duas grandes religiões brasileiras (Umbanda e Santo Daime), aconteceu-me de ter a oportunidade de adentrar em um dos muitos terreiros de Umbanda Brasil a fora – isto ocorrera na cidade de Piraúba- MG – onde eu estava a trabalho como motorista para levar um casal de senhores para se benzerem com o tal benzedor neste terreiro de Umbanda. Eu muito curioso, não aguentei e acabei adentrando ao local para ver como eram realizados os cultos de Umbanda, pois eu só conhecia a Umbanda de livros e nunca havia entrado em um terreiro. Fiquei sentado num banco apenas observando o ritual. Havia uma portinha de madeira que dava para um muro que tapava a visão de quem estava do lado dos bancos aonde as pessoas que iam se benzer esperavam ser chamadas. Cada vez que uma das pessoas a espera era chamada ela adentrava a portinha de madeira e ter com o benzedor do terreiro, que tinha a assistência de alguns jovens, homens e mulheres, em geral vestidos de vermelho; ao que me parece, esse era um dia de trabalho com espíritos da polaridade da esquerda na Umbanda. Não houve em nenhum momento nenhum tipo de doutrinação da Umbanda, apensas a benzição. Durante as benzições rezava-se muito rapidamente e se cantava os pontos cantados típicos da Umbanda; em alguns momentos ouviam-se por detrás do muro choros, gritos, rangidos e mutações vocais absolutamente extraordinárias, o que de fato me deixou bem espantado, se não fosse eu que estivesse ali ouvindo aquilo de pessoas completamente desconhecidas iria dizer que aquilo era pura armação, teatro e fraude, mas não, era verdadeiro. Bem, eu estava ali apenas acompanhando os senhores a quem fui levar como motorista de taxi; quando tudo se acabou e eles foram atendidos eu prontifiquei-me a ir-me em bora, pois não era minha intenção ser benzido pelo tal benzedor. No entanto, quando estava para sair, um dos jovens que ficava na porta a chamar as pessoas que esperavam por sua benzição, chamou-me e eu de imediato, com educação e sem me levantar do banco, acenei que eu não iria me benzer, que ele poderia passar a vez. Ele então passou a vez para a outra pessoa que lá estava. Antes de sair eu fui ao banheiro para urinar, e assim que saí do terreiro começou a ocorrer um dos fenômenos mais estranhos que já aconteceram comigo em toda a minha vida: eu senti a minha genitália como que sendo abundantemente picada por formigas, muitas formigas; e olhava e não via nada, nenhuma formiga em minha genitália, mas a dor não parava e só aumentava. A sensação de estar sendo picado por centenas de formigas só cessou depois que eu saí da cidade de Piraúba. No entanto, alguma coisa aconteceu ali naquele dia, pois minha vida depois daquele dia nunca mais foi a mesma. Eu sou adicto (limpo só por hoje), e estava limpo já há meses; quando resolvi me limpar meses antes desse dia fatídico fiz até mesmo um jejum de comida de oito dias no aniversário de morte de minha querida amiga espiritual Lola (a beata da cidade de Rio Pomba), de quem sou devoto e a quem recorri para pedir ajuda para me manter limpo e vencer minha adicção. Após sair do terreiro a primeira coisa que fiz foi me drogar, e passei quatro dias seguidos fazendo isso; acabei recaindo na minha adicção, minha casa virou um inferno; havia brigas constantes entre mim e meus familiares por qualquer bobagem, as fraquezas de meus familiares começaram se manifestar de forma cada vez mais intensa, minha depressão (a qual tenho desde a infância) aumentou exponencialmente e eu acabei a recorrer mais ainda às drogas para suportar minha depressão, mas antes que me afundasse de vez, pedi ajuda e me curei de minha adicção (esta história eu conto com detalhes no livro Narcorreforma). Bem, penso que o rapaz da portaria da benzição ou algum espírito Exu presente naquele terreiro possa ter se sentido ofendido por eu ter me negado a me benzer, como se eu fosse eu uma casa Espírita kardecista (a qual frequentei durante longo tempo quando morei em Juiz de Fora) e não quisesse, por alguma razão tomar o passe, aí então um dos médiuns da casa ou um dos espíritos resolvessem colocar um formigueiro na minha genitália. Daí se vê o nível moral do espírito e das pessoas que estavam naquele terreiro naquele dia. A questão aqui é saber: como o porteiro ou um espírito (Exu) pode colocar um formigueiro na minha genitália? Ou como posso eu ter a sensação de ter um formigueiro em minha genitália? Como a partir desse dia minha vida e a estrutura harmônica de minha família se desestruturaram completamente e minha depressão e drogadicção chegaram a um grau quase insuportável e mortífero? Existem três hipóteses para explicar este fenômeno, as duas primeiras naturais e a terceira sobrenatural. A primeira hipótese é a de que a sensação que tive fora tão somente uma alucinação tátil? Paulo Dalgalarrondo assim nos diz:

“O paciente sente espetadas, choques ou insetos ou pequenos animais correndo sobre sua pele. As alucinações táteis com pequenos animais ou insetos geralmente ocorrem associados ao delírio de infestação (síndrome de Ekbom). Também são relativamente frequentes as alucinações táteis sentidas nos genitais, sobretudo em pacientes esquizofrênicos, que sentem de forma passiva que forças estranhas o tocam, cutucam ou penetram seus genitais […] as alucinações táteis são frequentes na esquizofrenia, nos quadros histéricos, no delirium tremens e nas psicoses toxicas, sobretudo naquelas produzidas pela cocaína”. (Dalgalarrondo, P. 2008. p. 127).

Bem, esta hipótese pode ser descartada de cara, posto que eu não seja um psicótico, isto é, não tenho esquizofrenia, já que este fora um evento único que jamais se manifestara novamente ao longo do tempo. Já fiz análise durante um longo tempo com um psicanalista lacanaiano e fui para o divã (o que prova que sou um neurótico, pois psicóticos não para o divã, já que refletir sobre seu inconsciente o surtaria, posto que na psicose o inconsciente esteja a céu aberto, e não escamoteado como na neurose, manifestando-se apenas através de atos-falos, chistes, esquecimentos, figuras de estilo e etc.), e o meu diagnóstico é de neurose obsessiva com depressão leve e crônica, também conhecida como distimia. Quanto ao delirium tremens:

“O delirium tremens (termo latino que significa “delírio trêmulo” graças às alucinações e tremedeira durante sua ocorrência) é uma psicose causada pela abstinência e ou suspensão do uso de drogas ou medicamentos frequentemente associada ao alcoolismo, mas que também pode ocorrer devido ao uso prolongado ou abusivo de benzodiazepínicos ou barbitúricos. Assim, é uma forma de manifestação mais intensa e complicada da abstinência […] É caracterizada por tremedeira associada à atividade mental onírica. É possível perceber, entretanto, que essa condição é descontinuada durante o breve período do sono profundo ressurgindo em outras fases do ciclo da atividade mental. Delirium é um diagnóstico inespecífico em psiquiatria que designa um estado de confusão mental: a pessoa pode eventualmente não saber onde está, em que dia está, não conseguir prestar atenção em nada, ter um comportamento desorganizado, sua fala pode apresentar-se desorganizada ou ininteligível, a noite pode ficar mais agitado do que de dia”. (Wikipédia)

Esta é outra hipótese descartada; primeiro porque no dia quando eu senti a sensação do formigueiro em minha genitália eu em momento algum tremi, tanto que voltei dirigindo. Segundo, apesar de eu ser um adicto (limpo só por hoje) e estar no dia da experiência há meses sem usar drogas, minha droga de escolha ou preferência não era o álcool, na verdade, eu não bebia em ocasião alguma, e como pudemos ver claramente, o delirium tremens está mais associada ao alcoolismo e ao uso prolongado e abusivo de benzodiazepínicos ou barbitúricos, drogas das quais eu nunca sequer usei, quanto mais abusei. No dia da experiência não senti nenhuma confusão mental, eu sabia exatamente onde estava e o que estava fazendo, tanto que voltei dirigindo o carro tranquilamente, tirando o desconforto da sensação de estar sendo picado por formigas em minha genitália.

O meu psiquiatra (que era completamente materialista e incrédulo de toda espiritualidade) na época até propôs outra hipótese natural para o fenômeno para não ter de recorrer à hipótese sobrenatural proposta por mim: a de que eu era um privilegiado por ter vivenciado uma expansão da consciência, mas não tê-la suportado, e por isso minha depressão se agravou tanto e acabei por recair na drogadicção. Bem, eu não preciso nem comentar o absurdo desta hipótese e o quanto ela é forçosamente naturalizada. A partir desse dia renunciei ao tratamento com este psiquiatra e deixei o privilégio de ter um formigueiro no saco para ele.

Bem, descartadas as duas hipóteses, tanto a da alucinação tátil quanto a do delirium tremens, que são hipóteses naturais, sobra agora a hipótese sobrenatural: a do duplo etéreo, corpo fluídico ou corpo ou matéria espiritual. Ou seja, a hipótese sobrenatural de que toda matéria deste mundo está acoplada a uma submatéria, matéria fluídica, ou matéria espiritual. Deste modo, a sensação que eu senti de estar sendo picado por centenas de formigas em minha genitália se explica pelo fato de que o porteiro pediu ao espírito (Exu) ou este por conta própria, por sentir-se talvez ofendido por eu não ter me benzido com o tal benzedor, pegou o fluido, o duplo etéreo, ou matéria espiritual de um formigueiro nos arredores do terreiro e, quando eu fui ao banheiro, se aproveitou e colocou este formigueiro em minha genitália, causando-me a sensação desconfortabilíssima de estar sendo picado por centenas de formigas invisíveis, porém reais; de modo que, ao nosso entender, o que o espírito (Exu) colocou em minha genitália na verdade foi o fluido do formigueiro, da formiga, e não a formiga em si mesma em sua forma material, da mesma forma como um espírito pode pegar o fluido de qualquer objeto material deste mundo, como um livro, por exemplo, em uma biblioteca e lê-lo. Bem, ao que me parece, a terceira hipótese, que é a hipótese sobrenatural é a mais plausível dentre as três hipóteses analisadas (não contando a hipótese ridícula proposta por meu psiquiatra), portanto, sendo a hipótese verdadeira.  O que comprova esta hipótese é o fato de este ter sido um dia fatídico em minha vida e de toda a minha família, donde dali para frente tudo se degradou e numa determinada noite eu ter sentido a presença em meu quarto do Exu que me pusera o mau e junto dele um demônio que projetava imagens de uma perversidade macabra em minha mente e fedia a enxofre.

No livro de Souza Leal “O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas de Umbanda” o autor faz uma exemplar definição do que de fato é a Umbanda verdadeira, criada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas em 1908, na cidade de Niterói, no Rio de janeiro, que se caracteriza pela pratica do bem e da caridade, e a Umbanda falsa, que se caracteriza pela prática do mal e da magia negra.

“Despindo-se, através dos tempos, de sua imponente pompa litúrgica, a Magia Negra conserva, por toda parte, a quase totalidade de seu poder terrífico de outrora. Como a Branca, que lhe é adversa, a Magia Negra para consecução de seus objetivos, opera com as forças da natureza, propriedades de produtos da fauna e da flora do mar, de corpos minerais, de vegetais de vísceras e órgãos animais, com elementos do organismo humano, e com atributos ou meios só existentes nos planos extraterrestres. A sua influência atinge as pessoas, os animais e as coisas. As entidades espirituais que realizam esses trabalhos possuem sinistra sabedoria, recursos verdadeiramente formidáveis, e energia fluídica aterradora. Um desses espíritos tem se prestado à experiências, não só diante de conhecedores do espiritismo, como perante pessoas de brilho social no círculos da elegância. Assim, tomando o seu aparelho, isto é, incorporando-se ao seu médium, faz triturar com os dentes, sem ferir-se, cacos de vidro. Caminha, de pés descalços, sobre um es Tendal de fundos de garrafas quebradas, seno que, por duas vezes, convidados, levaram as garrafas e as quebraram, aguçando lâminas pontudas para o passeio do médium. Ele demonstrou de uma feita, a um grupo de curiosos da alta sociedade, a importância de coisas aparentemente insignificantes. Nos centros do espiritismo de linha, pede-se, durante as sessões, que ninguém encruze as pernas e os braços. Parece uma exigência ridícula, e não o é. Provou-o, o Exu.

Quando, incorporado, passeava descalço sobre os cacos de vidro, para fazer compreender a transcendência daquela recomendação, mandou que uma senhora trançasse a perna, e logo os pedaços de vidro penetraram, ensanguentando-se, os pés que os pisavam. Para comprovar a força dos pontos da magia (desenhos emblemáticos, cabalísticos ou simbólicos), produziu uma demonstração sensacional. Escolheu sete pessoas, ordenou-lhes que se concentrassem sem quebra da corrente de pensamento, riscou no chão um ponto e decapitou um gato, cujo corpo mandou retirar, deixando a cabeça junto ao ponto. – Enquanto não se apagar esse ponto, esse gato não morre e essa cabeça não deixa de miar. Durante dezessete minutos, a cabeça separado do corpo miava dolorosamente na sala, enquanto lá fora, o corpo sem cabeça se debatia com vida. Os assistentes começavam a ficar aterrados. Ele apagou o ponto, e cessaram o miado gemente da cabeça sem corpo e as convulsões do corpo sem cabeça. Tais entidades tem ufania de seu poder; são com frequência, irritadiças e vingativas, mas, quando querem agradar a um amigo da Terra, não medem esforços para satisfazê-lo. As suas lutas no espaço, por questões da Terra, tem a grandeza terrível das batalhas e das tragédias. Essa magia exerce diariamente a sua influência perturbadora sobre a existência, no Rio de Janeiro. Centenas de pessoas de todas as classes, pobres e ricos, grandes e pequenos, por motivos de amor, por motivos de ódio, por motivos de interesse, recorrem aos seus sortilégios. A política foi e continua a ser dos seus melhores e mais assíduos clientes. Durante a revolução de São Paulo, essas hordas do espaço travaram pugnas furiosas, lançando-se umas contra as outras. As que se moveram pelos paulistas esbarraram com as que foram postas em ação em favor da ditadura e esses choques invisíveis nos planos que os nossos sentidos não devassam, certo ultrapassaram, em ímpeto, as arremetidas do plano material. Sobre o enraivecido desentendimento das legiões ditas negras, pairavam as falanges da Linha Branca de Umbanda e os espíritos bons e superiores de todos os núcleos de nosso ciclo, levantando muralhas fluídicas de defesa para que os governantes de São Paulo e do Rio não fossem atingidos pela perturbação, e na plenitude de suas faculdades, medindo a extensão da desgraça, compreendessem a necessidade de negociar e concluir a paz. Nesses dias da guerra civil, os terreiros da Linha Branca de Umbanda tinham um aspecto singular: – estavam cheios de famílias aflitas, e quase desertos de protetores, pois as falanges todas se achavam no campo das operações militares, esforçando-se para atenuar a brutalidade da discórdia armada… A atividade da Magia Negra tem três modos de ser contrastadas: a oposição de seus próprios elementos, a defesa a que se obriga a Linha Branca de Umbanda e a atuação dos Guias Superiores. Creio que, perdendo a solene pompa do cerimonial antigo, a magia perdeu em eficiência, porque a colaboração do elemento humano pensante e sensível diminuiu. O homem que aspira ao domínio da magia necessita de aprofundar-se em estudos muito sérios, sobretudo os da ciência, para conhecer as propriedades dos corpos, e suas afinidades, e precisa, ainda, desenvolver e governar, com intransigência de ferro, as faculdades da alma, as forças físicas e as energias do instinto. Isso não é fácil, e o praticante da magia, em nosso tempo, tem de subordinar-se, em absoluto, a vontade de um espírito, que, em geral, só lhe permite um lucro mesquinho. Nessas condições o individuo que se poderia chamar o mago negro cada dia se tornara mais raro, desaparecendo, a pouco e pouco, o contato da humanidade com essa ordem de espíritos. Nos centros dessa magia, conforme a finalidade das reuniões, os aparelhos humanos laboram vestidos, desnudos da cinta para cima ou totalmente despidos. Trabalha-se com entusiasmo, até para o bem, quando lhes encomendam”. (Leal, S. 1933. p. 37, 38, 39 e 40)

“O despacho exerce a sua influência de quatro maneiras: pela ação individual do feiticeiro, em contato fluídico com a vítima; pela ação das entidades propiciadas, causando-lhe exasperações, inquietando-a,

atacando-lhe determinados órgãos, perturbando lhe o raciocínio com

sugestões telepáticas, dominando-lhe o cérebro, produzindo moléstias e até a morte; pelo reflexo das propriedades volatizadas e corpos usados pela magia, e pela conjugação de todos esses meios”. (Leal, S. 1933. p. 49)

Fica óbvio neste momento que o terreiro que eu, naquele dia fatídico, resolvi entrar, por pura curiosidade, simplesmente para ver como eram os cultos de Umbanda, não era um terreiro sério; não era um terreiro que praticava a Umbanda Branca ensinada pelo caboclo das sete encruzilhadas e pelo senhor Zélio de Morais, seu aparelho. Como a Umbanda não possui um Livro Sagrado que constitui suas leis e regras, isso faz com que ela se dissemine de forma desregular e se desvirtue dos ensinamentos do seu fundador – o Caboclo das Sete Encruzilhadas – e o seu aparelho – Zélio de Morais –, que definiram a Umbanda como A Manifestação do Espírito para a Caridade, tendo como tônica primordial a prática da caridade, no sentido do amor fraterno, sendo esta a característica principal do verdadeiro culto de Umbanda, que teria por base o Evangelho de Jesus Cristo, são os responsáveis pela Umbanda Branca, e não pela Magia Negra que nela se introduziu com o passar dos tempos.  Existem, pois, dois tipos de umbanda: a verdadeira, fundamentada nos preceitos do Caboclo das Sete Encruzilhadas e seu aparelho Zélio de Morais, e a Umbanda falsa, fundamentada nos preceitos do mal e da magia negra. Esta ultima nós descrevemos anteriormente através de Souza Leal, fá-lo-emos agora a descrição através do mesmo da Umbanda verdadeira, também chamada de linha branca.

“A organização das linhas no espaço corresponde a determinadas zonas na Terra, por largos ciclos no tempo. Atendem-se, ao constituí-las, as variações de cultura moral e intelectual, aproveitando-se as entidades mais afins com as populações dessas paragens. Por isso, o espiritismo de linha se reveste, nos diversos países, de aspectos e característicos regionais. Nas falanges da Linha Branca de Umbanda e Demanda já se identificaram índios de quase todas as tribos brasileiras, sendo que numerosos foram europeus em encarnações anteriores; pretos da África e da Bahia, portugueses, espanhóis, muitos ilhéus malaios, muitíssimos hindus.

Pode-se, no terreiro de Umbanda, estudando-se a manifestações de caboclos e pretos, estabelecer as diferenças raciais, distinguir as tendências das mentalidades desses dois ramos da árvore humana, surpreender os costumes de seus povos e comparar as duas psicologias.

O caboclo autêntico, vindo da mata, através de um aprendizado no espaço, para a Tenda, tem o entusiasmo intolerante do cristão novo, é intransigente como um frade, atirando a face os nossos defeitos e até com as nossas atitudes se mete. Ouvindo queixas dos que sofrem as agruras da vida, responde zangado que o espiritismo não é para ajudar ninguém na vida material, e atribui os nossos sofrimentos a erros e faltas que teremos de pagar. Mas, em dois ou três anos de contato com as misérias amargas de nossa existência, suaviza a sua intransigência e acaba ajudando materialmente os irmãos encarnados, porque se condói de sua penúria e deseja vê-los contentes e felizes.

O preto, que gemeu no eito sob o bacalhau do feitor, esse não pode ver lágrima que não chore, e quase sempre sai a desbravar os caminhos dos necessitados, antes que lhe peçam. O negro da África difere um pouco do da Bahia; aquele, na sua bondade, auxilia a quem pode, porém, às vezes, se irrita com os jactanciosos e com os ingratos, mas o da Bahia, em casos semelhantes, enche-se de piedade, pensando nas dificuldades que os maus sentimentos vão levantar na estrada de quem os cultiva.

A Linha Branca de Umbanda e Demanda tem o seu fundamento no exemplo de Jesus, expulsando a vergalho os vendilhões do templo. Às vezes, é necessário recorrer à energia para reprimir o sacrilégio, consistente na violação das leis de Deus em prejuízo das criaturas humanas. O homem prejudica o seu semelhante por inconsciência, ignorância ou maldade. Nos dois primeiros casos, a Lei de umbanda, manda esclarecer a quem esta em erro, até convencê-los de sua falta, impedindo-o, desde logo, de continuar a sua ação maléfica. No segundo caso, reprime singelamente o perverso.

Pra exemplificar: a polícia, com frequência, sitia e fecha centros espíritas, ou que como tais se apresentam e prende os seus componentes. Quando o centro, como tantas vezes tem acontecido, é da Linha Branca, o seu guia considera: – A autoridade cometeu uma injustiça, sem a intenção de cometê-la. O seu desejo era cumprir o dever, defendendo a sociedade. Confundiu a nossa linha com a outra, tratando-nos como malfeitores sociais.

Devemos procurar esclarecer os poderes públicos, para evitar confusões semelhantes.

Se a casa atingida pela perseguição policial pertencia à magia negra, o que raríssimas vezes acontece, as entidades espirituais reagem e castigam até com brutalidade os repressores de sua atividade. Há muitos ex-delegados que conhecem a causa de desgraças que os feriram na situação social na paz dos lares. O objetivo da Linha Branca de Umbanda e Demanda é a prática da caridade, libertando de obsessões, curando as moléstias de origem ou ligação espiritual, desmanchando os trabalhos de magia negra, e preparando um ambiente favorável a operosidade de seus adeptos. Os sofrimentos que nos afligem são uma prova, ou provação, ou provém dos nossos próprios erros, ou da maldade dos outros. Em caso de prova, temos de suportá-la até o limite extremo, e os filhos de Umbanda procuram atenuá-las, ensinando-nos a resignação, mostrando-nos a bondade de Deus, que nos permite o resgate de nossas culpas sem puni-las com penalidades eternas, descrevendo-nos os quadros de nossa felicidade futura. Se as nossas dores e dificuldades significam consequências de nossas faltas, os protetores de Umbanda nos aconselham a repará-las, conduzindo-nos com amor e paciência, ao arrependimento. Na terceira hipótese, reprimem energicamente os malvados que nos perseguem do espaço para cevar ódios da Terra. Nas angústias de nossa vida material, afastam de nosso ambiente, purificando-o os fluidos da inveja, da cobiça, da antipatia e da inimizade. O tratamento da obsessão, as curas das doenças de natureza espiritual, constitui os trabalhos de caridade; os outros, os de demanda; porém, os dois são absolutamente gratuitos. Se algum médium se esquece de seus deveres e recebe dinheiro, ou coisa correspondente, pela caridade feita, pelo seu protetor, este se retira, abandonando-o à entidades que em geral o reduzem a miséria.

A hierarquia, na Linha Branca, é positiva, mantendo-se com severidade. Todos os seus dirigentes espirituais proclamam e reconhece a autoridade de Ismael, guia do espiritismo no Brasil. A incorporação é sempre um fenômeno complexo, que se processa mediante acidente psicológico, físico e espiritual, e tem na Linha Branca de Umbanda a expressão máxima de sua transcendência. Vulgarmente, basta que o espírito se assenhoreie dos órgãos cerebrais, vocais, e manuais, ou de todos os chamados nobres, para fazer a comunicação verbal ou escrita, e dar passes. Na Linha Branca, precisa apropriar-se de todo o organismo do médium, porque nesse corpo vai viver materialmente algumas horas, movendo-se, utilizando-se de objetos, às vezes suportando pesos. A incorporação na Linha Branca é quase uma reencarnação, no dizer de um espírito. Dir-se-á que todos os socorros prestados pela Linha Branca poderiam sê-lo, sem os seus trabalhos, pelos altos guias, pelos espíritos superiores.

Os espíritos de luz que baixam à Terra, e se conservam em nossa atmosfera orientam falanges ou desempenha outras missões, e não contrariam, nem poderiam contrariar, desígnios em que se enquadram as funções de todos os servos da fé, grandes ou pequeninos, se em algumas situações lhes é permitido exercer a sua ação instantânea em favor de quem soube merecê-la, na maioria das circunstâncias deixam o indivíduo, pelas faltas do passado ou pelas culpas do presente, submeter-se ao que lhe parece uma degradação. Estamos numa época amargurada de arrogante orgulho intelectual e insolente vaidade mundanaria, e, para abater a propasia desses orgulhosos, os episódios de suas existências se encadeiam de modo a arrastá-los a implorar e a receber a misericórdia de Deus, por intermédio dos espíritos mais atrasados, ou que como tais se apresentam”. (Leal, S. 1933. p. 41, 412, 43, e 44)

A pergunta que me fiz ao chegar em casa e refletir sobre o fenômeno que eu havia vivenciado dentro daquele terreiro de Umbanda negra é: por que razão Deus e o meu anjo da guarda permitiram que isso acontecesse? Eu invoquei meu anjo e muito bravo falei com ele, mas ele nada me respondera, nem em pensamentos nem em sonhos, só o tempo me fez entender porque Deus havia permitido que aquele espírito (Exu) me fizesse mal a mim e a minha família. Na hora não consegui compreender porque meu anjo da guarda (Samuel) não me defendera desse espírito maligno e não o permitira que fizesse tal maldade comigo, já que tenho uma ligação muito íntima e pessoal com meu anjo de guarda. Por que o meu anjo da guarda me abandonou no momento que eu mais precisei dele?

Em O Livro dos Espíritos, na questão 496, Alan Kardec questiona: O espírito que abandona o seu protegido, que deixa de lhe fazer bem, pode lhe fazer mal? “Os bons espíritos nunca fazem mal. Deixam que o façam aqueles que lhe tomam o lugar. Costumais então lançar a contar da sorte as desgraças que vos acabrunham, quando só as sofreis por culpa vossa”.

E adiante, na mesma página Kardec questiona:

 Será por não poder lutar contra espíritos malévolos que um espírito protetor deixa que seu protegido se transvie na vida?

“Não é porque não possa, mas porque não quer”.

“A divergência única entre Allan Kardec e a Linha Branca de Umbanda é mais aparente do que real. Allan Kardec não acreditava na magia, e a Linha Branca acredita que a desfaz. Mas a magia tem dois processos: o que se baseia na ação fluídica dos espíritos, e esta não é contestada, mas até demonstrada por Allan Kardec. O outro se fundamenta na volatilização da propriedade de certos corpos, e o glorioso mestre, ao que parece, não teve oportunidade, ou tempo, de estudar esse assunto”. (Leal, S. 1933. p. 90)

 

O Alvissarismo, pela experiência própria de seu fundador descrita anteriormente, aceita plenamente a magia tanto na que se baseia na ação fluídica dos espíritos, que não é contestada, mas demonstrada por Alan Kardec, quanto na magia entendida pela Umbanda como feitiçaria ou magia negra, que pode ser desfeita através de determinadas práticas ritualísticas:

Disso também oferece depoimento Santo Agostinho quando diz: “Em verdade existem

encantamentos mágicos e feitiços malignos, que não só afetam os homens com doenças, quando não os matam”. […]“Disso também oferece depoimento Santo Agostinho quando diz: “Em verdade existem encantamentos mágicos e feitiços malignos, que não só afetam os homens com doenças, quando não os matam”. Também devemos esforçar-nos para entender tão claramente o que ocorre na realidade hoje em dia. E pelo poder do diabo, dos magos e das bruxas se converteram em lobos e outros animais selvagens. Mas o Cânon fala de uma mudança corporal e duradoura, e não fala das coisas extraordinárias que podem ser feitas pelo encantamento, é o que diz Santo Agostinho no livro 18, cap. 17, na obra A Cidade de Deus, quando se refere às muitas histórias estranhas, como da famosa bruxa Circe, e dos companheiros de Diomedes, e do Padre de Prestâncio. Mas isso será analisado na Segunda Parte desta obra.” (O Martelo das Bruxas)

“Portanto, nossa proposição é a seguinte: Com sua arte, os diabos produzem efeitos perniciosos por meio da bruxaria, mas é verdade que sem a ajuda de algum agente não podem criar nenhuma forma, nem substancial nem acidental, e não afirmamos que possam causar danos sem a ajuda de algum agente, mas com esse agente é possível provocar enfermidades, e quaisquer outras paixões ou dolências humanas, sendo reais e verdadeiras. Nos capítulos seguintes ficará claro como esses agentes ou o emprego de tais meios podem ser eficazes na colaboração com os demônios”. (O Martelo das Bruxas)

“A magia, antigamente chamada de Grande Ciência Sagrada pelos Magos, é uma forma de ocultismo que estuda os segredos da natureza e a sua relação com o homem, criando, assim, um conjunto de teorias práticas que visam ao desenvolvimento integral das faculdades internas espirituais e ocultas do Homem, até que este tenha o domínio total sobre si mesmo e sobre a natureza. A magia tem características ritualísticas cerimoniais que visam a entrar em contato com os aspectos ocultos do Universo e da Divindade. Afirma-se que, por meio de rituaisfeitiçosorações ou invocações, é possível fazer com que forças ocultas atuem sobre o ambiente, modificando, por exemplo, a vontade, o agir ou o destino das pessoas. Essa concepção, no entanto, é tida como irracional pela ciência”. (Wikipédia)

Esta concepção tida como irracional pela ciência é justamente o que estuda a insciência. A Teoria Geral da Insciência é o conhecimento descritivo puramente racional da irracionalidade. Teoria significa contemplar, olhar, examinar, especular. A Teoria Geral da Insciência pode ser entendida como a forma de pensar e entender o conjunto de todos os fenômenos microfísicos e metafísicos, naturais e sobrenaturais a partir da análise a priori e a posteriori ou dedução a priori e a posteriori.

O termo Insciência deve ser aplicado a todas as áreas do conhecimento do desconhecido, sendo que em cada área deve possuir uma definição específica.

Em Insciência, a concepção de teoria inscientífica difere da concepção de teoria no senso comum, bem como difere da concepção de teoria na Ciência e na Pseudociência. O conceito de Insciência foi por nós formulado para estabelecer uma resposta segura ao problema da demarcação entre a Ciência e a Pseudociência.

Uma definição inscientífica de teoria é a de que ela é o conjunto de todos os conhecimentos do desconhecido, consistindo em hipóteses e especulações não falseáveis – mas nem por isso fanáticas ou dogmáticas – que foram exaustivamente confrontadas entre si e com os fatos da realidade concreta no conjunto de análise e deduções a priori e a posteriori, que, juntamente com as hipóteses, estruturam o conceito de Insciência. Em alguns casos, no entanto, devido à complexidade e abrangência de algumas hipóteses, podem ser elevadas ao formato de uma Lei.

Uma teoria inscientífica é o conjunto indissociável de dois subconjuntos: o subconjunto de fatos microfísicos e naturais (evidências necessariamente verificáveis, mas não necessariamente reprodutíveis) e um subconjunto de fatos metafísicos e sobrenaturais (conjunto de hipóteses adequadas à descrição destes fatos naturais e sobrenaturais, metafísicos e microfísicos, bem como das ideias não falseáveis ou testáveis frente aos fatos e, que, junto às evidências, formam o significado do conceito de Insciência).

A Insciência é um único conjunto de fatos naturais e sobrenaturais, sobre o qual as mais variadas teorias inscientíficas válidas se estruturam. Mesmo um subconjunto dos fatos em particulares sendo evidenciado para integrar uma determinada teoria, nenhum paradigma válido ou teoria com teses podem contrariar logicamente qualquer dos demais fatos naturais e sobrenaturais conhecidos. Caso isto ocorra, o ideal é que a teoria seja reestruturada, encontrando um método que o permita evoluir dentro do sistema.

Em Insciência, devem-se submeter criticamente as teorias às provas dos fatos microfísicos e naturais e metafísicos e sobrenaturais e selecioná-los pela ordem negativa e positiva dos resultados obtidos através da análise ou dedução a priori e a posteriori e da comparação dos resultados obtidos. Existem quatro formas de submeter uma teoria inscientífica à prova dos fatos.

  • Comparar logicamente todas as conclusões finais da teoria com o propósito de determinar se há coerência no sistema.
  • Investigar a lógica da teoria, com o propósito de determinar se ela é de fato uma teoria inscientífica, fundada em especulações tiradas da realidade concreta a partir de analise e deduções a priori e a posteriori.
  • Comparar com todas as teorias existentes sobre o fenômeno investigado com o propósito de perceber se há ou não algum avanço do conhecimento do desconhecido.
  • Comparar as teorias através de conclusões lógicas finais deduzidas e analisadas através da experiência.

No pensamento inscientífico o fato e a ideia têm sempre de andar juntos em uma sinfonia sincrônica e diacrônica, sendo que o fato ou a ideia sempre podem destruir um ao outro, o que dá início a uma transformação do sistema formado a partir de hipóteses não falseáveis. Existe sempre a possibilidade de surgir um fato ou ideia que venha a destruir e reconstruir a visão antes em vigor.

 

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