Filosofia Rapsódica: O que é o Folclore?

Segundo a carta do folclore brasileiro:

Folclore é o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. Constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade. Ressaltamos que entendemos folclore e cultura popular como equivalentes, em sintonia com o que preconiza a UNESCO. A expressão cultura popular manter-se-á no singular, embora entendendo-se que existem tantas culturas  quanto sejam os grupos que as produzem em contextos naturais e econômicos específicos”. (Comissão nacional do Folclore)

Já Luís da câmara cascudo define o folclore da seguinte forma:

É a cultura do popular, tornada normativa pela tradição. Compreende técnicas e processos utilitários que se valorizam numa ampliação emocional, além do ângulo do funcionamento racional. A mentalidade móbil e plástica, torna tradicional os dados recentes, integrando-os na mecânica assimiladora do fato coletivo, como a imóvel enseada dá a ilusão da permanência estática, embora renovada na dinâmica das águas vivas. O folclore inclui nos objetos e formas populares uma quarta dimensão, sensível ao seu ambiente. Não apenas conserva, depene e mantém os padrões imperturbáveis do entendimento e ação, mas remodela,  refaz ou abandona elementos que se esvaziaram de motivos ou finalidades indispensáveis a determinadas sequências ou presença grupal […] Qualquer objeto que projete interesse humano, além de sua finalidade imediata, material e lógica, é folclórico. Desde que o laboratório  químico, o transatlântico, o avião atômico, o parque industrial determinem projeção cultural no plano popular, acima do seu programa específico de produção e destino normais, estão incluídos no folclore. […] Não apenas contos e cantos, mas a maquinaria faz nascer hábitos, costumes, gestos, superstições, alimentação, indumentária, sátiras, lirismo, assimilados nos grupos sociais participantes. Onde estiver um homem aí viverá uma criação e divulgação folclórica. O folclore estuda a solução popular na vida em sociedade. Como há dez anos passados, e ao contrário da lição dos mestres, creio na existência dual da cultura entre todos os povos. Em qualquer deles haverá uma cultura sagrada, hierárquica, veneranda, reservada para a iniciação, e a cultura popular, aberta a transmissão oral e coletiva, estórias e acessos a técnicas habituais do grupo, destinada à manutenção dos usos e costumes no plano do convívio diário” […] Todos os países do Mundo, raças, grupos humanos, famílias, classes profissionais, possuem um patrimônio de tradições que se transmite oralmente e é defendido e conservado pelo costume. Esse patrimônio é milenar e contemporâneo. Cresce com os conhecimentos diários desde que se integrem nos hábitos grupais, domésticos ou nacionais. Esse patrimônio é o FOLCLORE. Folk, povo, nação, família, parentalha. Lore, instrução, conhecimento na acepção da consciência individual do saber. Saber que sabe. Contemporaneidade, atualização imediatista do conhecimento”. […]“O folclore é o popular, mas nem todo popular é folclore. A Sociedade Brasileira de Folk-Lore (1941) fixou as características do conto, a estória, como tive a inicial coragem de usar em 1942, e que coincidem com o fato folclórico: a) Antiguidade/ b) Anonimato/ c) Divulgação/ d) Persistência.” (Câmara Cascudo)

Bem, como nos apontou cascudo anteriormente, existe uma existência binária da cultura entre os povos: uma cultura erudita, sagrada, hierárquica, veneranda, reservada para a iniciação, isto é, uma alta cultura intelectualizada; e por outro lado existe uma cultura popular, aberta a transmissão oral e coletiva, estórias, mitos, lendas, superstições e acessos a técnicas habituais do grupo, destinada à manutenção dos usos e costumes no plano do convívio diário de cada povo, raça ou civilização.

Do ponto de vista proposto por Cascudo anteriormente, como então separar o que é cultura do que é folclore? Há um limite entre a cultura e o folclore ou cultura e folclore são exatamente as mesmas coisas?

Bem, para resolvermos este problema teremos que lançar mão da teoria dos conjuntos. Pensemos. Tanto a cultura erudita quanto a cultura popular são ambas as “cultura”, certo? Mas o que é “cultura”? A mais corrente definição de cultura é a formulada por Edward B. Tylor, que define a cultura da seguinte forma: “Cultura é o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”.

Sendo assim, cultura é um conjunto de conhecimento, crença, arte, moral, lei, costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como pertencente a uma determinada sociedade. Em outras palavras, a cultura é um conjunto de elementos culturais. Mas o que é um elemento cultural? Um elemento cultural é um dos objetos distintos que constituem o conjunto que estrutura a cultura. Por exemplo, o Cristianismo é um conjunto e cada um dos costumes, crenças e práticas do Cristianismo são seus elementos culturais.

A relação básica entre um elemento cultural e o conjunto é a relação de pertinência, onde se um elemento cultural x compõe o conjunto y, então dizemos que x pertence a y. O conceito de conjunto tirado da matemática é o conceito básico para compreendermos os limites entre a cultura e o folclore, bem como é o conceito fundamental da Filosofia Rapsódica. Deste modo, dois conjuntos de uma cultura são iguais se, e somente se, cada elemento cultural de uma cultura é também elemento cultural de outra cultura.

Um exemplo clássico dentro da história da civilização em que dois conjuntos de uma cultura são iguais é o representado pelos diversos tipos de sincretismos, que se caracterizam pela reunião ou síntese de diferentes conhecimentos, crenças, artes, éticas, leis, costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade, embora com os fundamentos do conhecimento, da crença, da arte, da moral, da lei, do costume e do hábito original. Isto ocorreu, por exemplo, quando o cristianismo absorveu e adaptou conceitos das religiões pagãs da Europa, moldando-os de acordo com os interesses da Igreja Católica numa tentativa de facilitar a propagação da religião cristã no continente europeu. Um exemplo é a festa cristã do Natal, originalmente uma festa pagã que celebrava o solstício de inverno e o nascimento anual do Deus Sol, mas que a Igreja Católica transformou na atual celebração do nascimento de Jesus Cristo. Nas religiões afro-latino-americanas, cada orixá corresponde a um santo católico, mas, de fato, não se trata de um amálgama. As figuras não se confundem. Muitos dos santos Católicos são cultuados também no candomblé e em outras religiões afro-latino-americanas. Na época da escravidão na América Latina, os escravos africanos criaram uma maneira criativa e inteligente de enganar os seus senhores. Invocavam os seus deuses africanos sob a forma dos santos católicos: Oxóssi na forma de São SebastiãoOgumcomo na forma de São JorgeOxalá na forma de Jesus CristoIbejis na forma de Cosme e DamiãoIansã na forma de Santa Bárbara, os fios de contas como Nossa Senhora do Rosário, entre outros. Também adaptaram alguns rituais africanos à tradição cristã: por exemplo, a incorporação da Lavagem do Bonfim à cerimônia das Águas de Oxalá. Podiam, assim, manifestar publicamente, ainda que de forma dissimulada, sua religiosidade africana.

O Alvissarismo, por sua vez, mostrou que os homens primitivos começaram a raciocinar mesclando o real e a realidade, e que a mutação genética que produziu a transformação do macaco em homem teve sua origem no espanto proveniente do roubo do fogo, que promoveu a encarnação do Verbo e o nascimento da linguagem que estruturou o desenvolvimento de tudo aquilo que é próprio aos seres humanos, ou seja, Filosofia, Política, Economia, Moral, Ética, Pedagogia, Direito, Estética e Religião, separando o homem e o mundo, a civilização e a natureza; um acontecimento histórico que envolveu o sincretismo comportamental de três gêneros homos: 1°- O Homem de Trinil (Oceania). 2°- O Homem de Pequim (Ásia) e 3°- O Homem de Neandertal (Europa), e que fundamentou as bases comportamentais do homo sapiens. A Antropologia Alvissarista concebe a raça humana como uma mescla entre o Homem de Trinil, o Homem de Pequim e o Homem de Neandertal. Para o Alvissarismo o nascimento da civilização provém de um acontecimento primordial (o roubo do fogo) que gerou a linguagem que fundamentou a transformação do animal irracional em um animal racional e estruturou a raça humana através de um sincretismo entre esses três gêneros homo. O Alvissarismo apresenta diversos tipos de sincretismo, constituindo-se como uma doutrina cuja estrutura genealógica está baseada na fusão de diferentes filosofias, culturas e religiões, com uma reinterpretação original de seus elementos fundamentais. Desse modo, o Alvissarismo, enquanto sistema de Filosofia, nasce da conciliação entre o pensamento de cinco filósofos: Kant, Lacan, Wittgenstein, Platão e Kardec. Como psicologia, o Alvissarismo nasce da conciliação entre o pensamento de Freud, Jung, Lacan e Kardec. Como Política, o Alvissarismo nasce da conciliação entre a Direita e a Esquerda. Como economia, o Alvissarismo nasce da conciliação entre o capitalismo e o comunismo. E, por fim, como Religião, o Alvissarismo nasce da conciliação entre as diversas revelações de Deus aos homens desde Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Kardec, constituindo-se como uma doutrina sincrética que unifica de forma homogênea o Judaísmo, o Cristianismo e o Espiritismo em uma única religião: o Alvissarismo; que promove um notório e original sincretismo cultural e religioso entre os mais diversos mitos e lendas do folclore brasileiro e o Cristianismo, unificando os santos e beatos católicos com os mais importantes personagens da Mitologia Brasileira, arquitetando assim a cristianização do folclore brasileiro e a identidade da Religião Alvissarista.

Deus de Abraão, Isaac e Jacó = Tupã – Espírito criador e protetor de todos os mundos possíveis.

Espírito Santo = Angra – Espírito do Fogo.

Pai primitivo de Pequim = Adão = Jesus = Mahyra – Espírito protetor da humanidade que deu início a civilização.

Adão, Eva e a família primitiva = Rupave, Sypave e os primeiros humanos – Pai e Mãe de toda humanidade.

Nosso Senhor Jesus Cristo = Angatupiri – Espírito que é a personificação do Bem. 

Paraíso = Yvy marã e’ỹ – O lugar ideal, Jardim do Éden. Um lugar descrito por diferentes religiões onde o clima é ameno e há abundância de alimentos e recursos, e não há guerras, doenças ou morte. Normalmente, a vida no paraíso seria a recompensa após a morte para as almas dos que seguem corretamente os preceitos de cada religião.

Sarça ardente que ditou os Dez mandamentos a Moisés no Monte Sinai = Andurá – Hierofania. Manifestação do sagrado marcado pelo arquétipo do fogo.

São Sebastião e Padre Cícero = Boitatá – Espírito protetor da flora.

São Francisco = Curupira – Espírito protetor da fauna.

São Francisco = Caipora – Espírito protetor dos animais da floresta, que só permite aos homens matar os animais da floresta se este ato for realizado com a finalidade de salvar a própria vida e/ou a vida de outrem, bem como para fins alimentícios.

Santo Antônio = Saci Pererê – Espírito protetor das criancinhas e das matas.

Nossa Senhora das Águas = Iara ou Mãe D’Água – Espírito protetor dos mares, lagos e rios.

Santa Clara = Vitória Regia – Espírito protetor das noites e madrugadas.

São Benedito, Maria do Araújo, São Jorge e Santa Edwirges = Negrinho do Pastoreio – Espírito protetor dos sacerdotes, pastores, cavaleiros e empregados em geral.

Dom Bosco = Boto – Espírito protetor dos jovens. 

Nossa Senhora do Bom Parto e Santa Margarida = Mandioca – Espírito protetor das mulheres gravidas e seus bebês.

São Jorge, São Cristóvão e São Floriano = Cobra Honorato – Espírito protetor dos salva-vidas em geral, como soldados, policiais, bombeiros e nadadores; e Maria Caninana, espírito destruidor das embarcações, que tira a vida dos navegantes, náufragos e pescadores.

Santo Antônio, São João Batista e São Pedro = Sapucaia Oroca – Espírito protetor das festas e celebrações religiosas e festas e celebrações em geral.

São Lourenço, Maria do Araújo e Lola = Açaí – Espírito protetor dos alimentos em geral e de todos os homens que trabalham com alimentos.

Nossa Senhora das Águas = Pingo D’Água – Espírito protetor das cachoeiras e seus frequentadores.

São José, Nossa Senhora de Nazaré, Santo Antônio e Santa Rita = Uirapuru – Espírito protetor da família, dos relacionamentos amorosos e casamentos.

Nossa Senhora da Conceição = Mãe da Mata: Espírito protetor das matas que luta contra as devastações na mata e contra as caças injustas, isto é, sem finalidade alimentícia ou de defesa.

Princesa Isabel do Brasil = Princesa – Espírito protetor das cidades.

Santa Sara = Guaraná – Espírito protetor das mulheres que desejam engravidar e constituir família.

Santa Cecília = Anhum – Espírito protetor dos músicos.

Nossa Senhora da Luz = Jacaré Luminoso – Espírito protetor dos cegos e pessoas perdidas nas matas à noite.

Monge João Maria – Espírito protetor dos excluídos.

São Sebastião = Sumé – Espírito protetor dos Mártires e Nomes – do – Pai.

Almas que ainda não conseguiram fazer a passagem para a luz = Anhangá – Espíritos diversos que ainda estão presos a terra após a morte, mas que protegem os animais da floresta.

Lúcifer = Taubá – Espírito que é a personificação do Mal.

Anticristo = Jurupari. Mulher que dará a luz ao Anticristo = Ceuci – Espírito imaculado que gerou vida milagrosamente, dando a luz ao filho da perdição.

A inserção da teoria dos conjuntos na Filosofia Rapsódica tem como fundamento a relação binária entre uma cultura erudita e uma cultura popular, ou entre a Filosofia F e o Folclore f. Deste modo, se F é um membro ou elemento de f, então escrevemos que F f (Lê-se: Filosofia pertence ao Folclore). Se todos os elementos culturais que formam a Filosofia, representado por F, são elementos culturais do conjunto do Folclore, representado por f, então o conjunto F é um subconjunto de f, em outras palavras, a Filosofia nada mais é do que um subconjunto do Folclore assim como a cultura erudita é um subconjunto da cultura popular, o que pode ser denotado por Ff. A prova disso está na obra de Câmara Cascudo, que mostra em seu livro “Locuções Tradicionais do Brasil”, onde ele percebe que o povo brasileiro do sertão fala igual a uma linguagem usada na Idade Média ou da renascença, onde um analfabeto fala igual a Camões ou Gil Vicente. A partir dessa definição, fica óbvio que uma cultura é um subconjunto de si mesma. Mas se uma cultura é um subconjunto de si mesma, como então determinar os limites entre a cultura erudita e a cultura popular, isto é, como determinar os limites entre a Filosofia e o Folclore?

Com base no paradoxo de Russel. Considere o conjunto de todas as Filosofias F como sendo “o conjunto de todos os conjuntos que não se contêm a si próprios como membros”.

Formalmente. A Filosofia representada pela letra F é elemento cultural do Folclore representado pela letra f se e só se f não é elemento de f. Em outras palavras, a Filosofia é elemento cultural do Folclore se e só se a Filosofia não é elemento do conjunto de todas as filosofias.

f = {F / F Ɇ F}

Na cultura, f é um conjunto bem definido de elementos culturais. A questão a ser resolvida aqui é seguinte: f se contém a sim mesmo? Se sim, não é membro de f de acordo com a definição. Por outro lado, supondo que f não se contém a si mesmo, tem de ser membro de f, de acordo com a definição de f. Desse modo, as afirmações “f é membro de f” e “f não é membro de f” conduzem ambas a contradições, levando-nos ao teorema da incompletude de Gödel como sendo o fundamento da Filosofia Rapsódica.

Deste modo, fica definido que qualquer folclore recursivamente sistematizável em uma determinada cultura e capaz de expressar verdades básicas da filosofia rapsódica não pode ser ao mesmo tempo, completo e consistente. Ou seja, sempre há em um folclore proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas nem negadas, já que um folclore recursivamente sistematizável em uma determinada cultura e capaz de expressar verdades básicas da filosofia rapsódica e alguns enunciados da cultura em geral pode provar sua própria consistência se, e somente se, for inconsistente.

Um exemplo clássico disso é o mito indígena do roubo do fogo cuja origem está fundada na mitologia tupi-guarani e a teoria do roubo do fogo, que basicamente descrevem a mesma coisa, porém um de forma mitológica e o outro de forma filosófica. Enquanto a teoria do roubo do fogo constrói um sistema formal consistente sobre a origem da linguagem, por outro lado o mito do roubo do fogo não possui consistência filosófica e racional. E assim determinamos os limites e as diferenças entre o Folclore e a Filosofia.

Para alguns estudiosos, o folclore e a cultura são exatamente a mesma coisa; alguns dizem até que o folclore não existe, devendo ser chamado simplesmente de cultura, no máximo cultura popular. Posta as controvérsias se o folclore existe ou não existe, se é a mesma coisa que cultura ou outra coisa diferente de cultura. Fica no ar a questão filosófica: o que determina os limites entre a cultura e o folclore? Quais são as diferenças entre a cultura e o folclore?

Do mesmo modo como fizemos anteriormente para determinara os limites entre a Filosofia e o Folclore, agora faremos para determinar os limites entre o Folclore e a Cultura. Com base no paradoxo de Russel. Considere o conjunto de todas as Culturas como sendo “o conjunto de todos os conjuntos que não se contêm a si próprios como membros”.

Formalmente. A Cultura representada pela letra C é elemento cultural do Folclore representado pela letra f se e só se f não é elemento de f. Em outras palavras, a Cultura é elemento cultural do Folclore se e só se a Cultura não é elemento do conjunto de todas as culturas.

f = {C / C Ɇ C}

Na cultura, f é um conjunto bem definido de elementos culturais. A questão a ser resolvida aqui é seguinte: f se contém a sim mesmo? Se sim, não é membro de f de acordo com a definição. Por outro lado, supondo que f não se contém a si mesmo, tem de ser membro de f, de acordo com a definição de f. Desse modo, as afirmações “f é membro de f” e “f não é membro de f” conduzem ambas a contradições, levando-nos ao teorema da incompletude de Gödel como sendo o fundamento da Filosofia Rapsódica.

Deste modo, fica definido que qualquer cultura recursivamente sistematizável em um determinado folclore e capaz de expressar verdades básicas da sociedade não pode ser ao mesmo tempo, completa e consistente. Ou seja, sempre há em uma cultura elementos verdadeiros que não podem ser demonstrados nem negados, já que uma cultura recursivamente sistematizável em um determinado folclore e capaz de expressar verdades básicas da sociedade e alguns enunciados do folclore pode provar sua própria consistência se, e somente se, for inconsistente.

Um exemplo clássico disso está na lenda das Amazonas, já que Câmara Cascudo descreve que Spix e Von Martius desenganaram-se das amazonas (Viagem pelo Brasil, III):

“Pelo geral interesse que o assunto desperta, confiei o leitor na declaração de que nós, o Dr. Spix e eu, não poupamos trabalhos para obter alguma luz ou certeza sobre o caso. Entretanto, não avistamos em parte qualquer amazona, nem ouvimos de pessoa fidedigna, de pessoa europeia, informação que de longe se referisse a essa tradição fabulosa”. (Câmara Cascudo)

No entanto, a lenda não pode ser demonstrada nem negada, pois o infanticídio faz parte da cultura indígena do Brasil. Amazonas permanecerá para sempre um grande mistério. Deste modo, a lenda das Amazonas faz parte do folclore, mas o infanticídio indígena no Brasil faz parte da cultura, e assim determinamos os limites e as diferenças entre cultura e folclore.

A Filosofia Rapsódica promovida pelo Alvissarismo colocou na Filosofia o folclore assim como Villa-Lobos colocou na música clássica modinhas que as crianças do povo cantam nas rodas de rua e ninguém sabe de quem são.

A Filosofia Rapsódica é criação pessoal – Cascudo a instrumentou e eu a inventei – mas sua raiz está plantada em uma sabedoria que um dia alguém – não se sabe quem – criou em algum lugar, fazendo com que sua reprodução ao logo do tempo se coletivizasse, sendo assim criada por um autor desconhecido.

A Filosofia Rapsódica pode ser definida como a racionalização do folclore; a racionalização filosófica de tudo aquilo que é preferencialmente anônimo e coletivizado, como uma racionalização de um retrato da cultura popular em movimento, que se cria, se recria, persiste, recorda, reelabora e se consagra passando pela peneira do tempo. A Verdade é aquilo que insiste. A Filosofia é a busca pela verdade. O Folclore é a verdade da Filosofia. Esses são os indicadores de uma Filosofia Rapsódica: ela é a racionalização do popular, do anonimato, do coletivizado, do tradicional e do persistente, porque a verdade é aquilo que repete e insiste. E A Filosofia Rapsódica é a busca pela verdade no folclore, que se caracteriza como o retorno do real dentro do simbólico e do imaginário popular.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s