Rapsódia: Filosofia Tupiniquim

A Filosofia Brasileira rumo à Filosofia Tupiniquim só pode existir enquanto uma Filosofia Rapsódica. A rapsódia (no sentido filosófico que aqui lhe damos) é uma justaposição, de uma unidade sistêmica e formal de uma Filosofia exclusivamente baseada em nosso folclore brasileiro. Uma filosofia Rapsódica caracteriza-se por ter apenas um movimento – o Alvissarismo –, que está para a história da Filosofia assim como o Modernismo está para a história da Literatura. Alvíssara está para a Filosofia assim como Macunaíma está para a Literatura. O Alvissarismo é um sistema filosófico, político, econômico e religioso de origem brasileira, de caráter sincrético, abraâmico, agnóstico-teísta, monista- espiritualista, que sintetiza crenças e práticas do Judaísmo, do Cristianismo e do Espiritismo com o folclore brasileiro e a mitologia tupi-guarani, mas integrando fortes variações de temas marcados por sua intensidade e tonalidade sem necessariamente seguir uma estrutura pré-definida, porém capaz de erguer uma identidade filosófica brasileira.

A Filosofia rapsódica que deve marcar a passagem da Filosofia Brasileira ao princípio da Filosofia Tupiniquim é marcada por uma sistematização mais livre do que as outras variações filosóficas do mundo, uma vez que a Filosofia Rapsódica não há a necessidade absoluta de repetição exata dos temas centrais, podendo se criar novos temas no decorrer da sistematização, como é o caso – no Alvissarismo – da teoria do roubo do fogo e do paradoxo do falante, que basicamente descrevem a mesma coisa, porém de pontos de vista opostos. Enquanto a teoria do roubo do fogo constrói um sistema formal consistente sobre a origem da linguagem, por outro lado o paradoxo do falante constrói um sistema formal inconsistente.

Oswald de Andrade foi o primeiro Filósofo Brasileiro da história do Brasil, e não somente um escritor ou poeta modernista. Na verdade, Oswald de Andrade foi o único modernista que de fato fora um Filósofo – todos os outros autores que vieram antes dele e depois dele, como Mário de Andrade, Darci Ribeiro, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, José de Alencar, Monteiro Lobato, Manoel Bandeira, Lima Barreto, Gilberto Freyre, João Cabral de Melo Neto, Antônio Gonsalves Dias, Rachel de Queiroz, Gregório de Matos, Cora Coralina, Olavo Bilac, Jorge Amado, Ariano Suassuna, entre outros, buscaram com certo sucesso responder: o que é o Brasil? Mas o único que de fato conseguiu responder a esta indagação de forma filosófica fora Oswald de Andrade (o primeiro Filósofo Brasileiro). Todos os outros intelectuais do Brasil foram e são apenas filósofos do Brasil e não Filósofos Brasileiros –, incluindo Matias Aires, Silvio Romero, Tobias Barreto, Mário Ferreira dos Santos, Vicente Ferreira da Silva (a quem Oswald dizia ser o único filósofo brasileiro, mas com certeza não sabia o que estava dizendo, porque ele sim de fato fora o primeiro Filósofo Brasileiro da história do Brasil), inclusive o gênio mundialmente reconhecido Newton da Costa, Cláudio Henrique de Lima Vaz, Luiz Caramashi, Olavo de Carvalho e todos os outros maiores e menores nomes da história da filosofia no Brasil.

No entanto, o mais importante escritor brasileiro que permite a nós – filósofos brasileiros – compreender de fato o que é o Brasil e produzir a sistematização da passagem de uma Filosofia Brasileira a uma Filosofia Tupiniquim chama-se Luís da Câmara Cascudo. Este não foi por natureza um filósofo como Oswald de Andrade, mas deu ao intelectual brasileiro o instrumento para que nós – filósofos brasileiros – pudéssemos de fato sistematizar a passagem da Filosofia Brasileira à Filosofia Tupiniquim, e este instrumento se chama Dicionário do Folclore Brasileiro.

“Nenhuma ciência possui como o folclore maior espaço de pesquisa e de aproximação humana. Ciência da psicologia coletiva, cultura do geral no homem, da tradição e do milênio na atualidade, do heróico no cotidiano, é uma verdadeira História Normal do Povo”.  (Câmara Cascudo).

A esta área do saber ou ciência que possui o folclore como objeto de estudo e aproximação humana de fundo psicológico, antropológico, sociológico e cultural da tradição de um povo é o que nós chamamos de Filosofia Rapsódica. O que é a Filosofia Rapsódica? A Filosofia Rapsódica é o ramo da filosofia que tem por objetivo o estudo da origem, da essência, da natureza e dos fundamentos do folclore. A Filosofia Rapsódica estuda o julgamento e a percepção do que é o folclore ou do que é considerado folclórico, a produção das emoções e das tradições folclóricas, bem como: as diferentes formas de folclore e da técnica folclórica; a ideia de folclore e de criação folclórica, ou seja, o que pode ser considerado folclore ou não.

Deste ponto de vista, os primeiros filósofos rapsódicos da história foram os irmãos Green na Alemanha e Luís da Câmara Cascudo no Brasil. Câmara Cascudo está para o Brasil e para o mundo assim como os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm  estão para a Alemanha e o mundo.

“Posso dizer que o Dicionário do Folclore Brasileiro, que eu fiz em tantos anos, representa, incontestavelmente, o mural das minhas habilidades no tempo e no espaço. Ali estão as minhas curiosidades, o segredo, a alegria da minha preferência”. (Câmara Cascudo).

A união incondicional entre a filosofia e o folclore iniciada pela teoria do roubo do fogo – cujo mito é de origem indígena – promoveu a existência de uma identidade filosófica puramente brasileira.  A união entre a filosofia e o folclore constitui o caminho central para a passagem de uma Filosofia Brasileira a uma Filosofia Tupiniquim capaz de descobrir o que de fato é o Brasil, no sentido de uma busca por uma identidade filosófica puramente brasileira. Muitos intelectuais brasileiros em especial escritores e poetas se empenharam na definição de uma identidade brasileira, mas no que tange à filosofia, isto apenas fora problematizado pioneiramente pelo filósofo Roberto Gomes, mas a sistematização concreta de uma Filosofia Brasileira que uniu o folclore e a filosofia só viera a existir de fato com o nascimento do Alvissarismo – e disso muito nos orgulhamos –, pois assim alcançamos a independência da Filosofia Brasileira já descrita noutro livro.

Cascudo define o folclore como um patrimônio de tradições que é transmitido oralmente de geração em geração e que é capaz de passar pela peneira do tempo, sendo conservado pelos costumes de um povo. 

“Todos os países do Mundo, raças, grupos humanos, famílias, classes profissionais, possuem um patrimônio de tradições que se transmite oralmente e é defendido e conservado pelo costume. Esse patrimônio é milenar e contemporâneo. Cresce com os conhecimentos diários desde que se integrem nos hábitos grupais, domésticos ou nacionais. Esse patrimônio é o FOLCLORE. Folk, povo, nação, família, parentalha. Lore, instrução, conhecimento na acepção da consciência individual do saber. Saber que sabe. Contemporaneidade, atualização imediadista do conhecimento”. (Câmara Cascudo.)

Cascudo neste momento de sua reflexão apresenta o vínculo indissociável entre o folclore e a sabedoria popular. O Alvissarismo, por sua vez, se utiliza do folclore e da sabedoria popular para sistematizar um saber filosófico e erudito. Cascudo, no entanto, ressalta que, o que de fato define um fato folclórico de um fato não folclórico; são quatro elementos básicos: antiguidade, anonimato, divulgação e persistência.

 Cascudo assim o diz:

“O folclore é o popular, mas nem todo popular é folclore. A Sociedade Brasileira de Folk-Lore (1941) fixou as características do conto, a estória, como tive a inicial coragem de usar em 1942, e que coincidem com o fato folclórico: a) Antiguidade/ b) Anonimato/ c) Divulgação/ d) Persistência.” (Câmara Cascudo).

Deste modo, a Filosofia Rapsódica , que é uma unificação ou síntese entre a filosofia e o folclore está diretamente vinculado à três pontos principais.

  • A Filosofia Rapsódica deve conter uma síntese entre o saber erudito e o saber popular, isto é, uma síntese entre a Filosofia e o Folclore.
  • A Filosofia Rapsódica deve possuir suas origens na remota mitologia brasileira ou tupi-guarani.
  • A Filosofia Rapsódica deve ter sua raiz plantada em uma mitologia brasileira ou tupi-guarani que possua uma ampla abrangência dentro da sociedade brasileira, mantendo uma continuidade temporal onde, mesmo sendo simultaneamente antiga e persistente através da repetição, da recordação e da reelaboração, mantem-se extraordinariamente vivo no inconsciente coletivo pelos séculos dos séculos.

Um exemplo clássico de Filosofia Rapisódica é a Filosofia Alvissarista através da teoria do roubo do fogo. Esta teoria é a origem, a fonte, a matriz de todo o sistema filosófico, político, econômico e religioso do Alvissarismo, e que consiste na tese de que, na era glacial, no período paleolítico inferior (500.000 a. C – 30.000 a. C), na Ilha de Java, o Homem de Trinil roubou o fogo do Homem de Pequim, e que este ato criminoso gerou o espanto necessário para produzir no Homem de Pequim uma mutação em seu DNA, isto é, uma alteração no código genético da célula, cuja causa fora a perda primordial da radiação eletromagnética provocada pela presença do fogo. Essa mutação gênica possibilitou o surgimento de novos genes e, por isso, novas características foram incorporadas ao patrimônio genético da população primitiva, aumentando a sua variabilidade genética. A mutação genética causada pelo roubo do fogo deu origem ao homo sapiens; ou seja, o roubo do fogo gerou o espanto necessário para o surgimento de uma mutação genética no homem primitivo de Pequim, dando-lhe a partir desse instante o gene da linguagem (Fox p2), isto é, o Verbo, que, por sua vez, fez com que o macaco se tornasse homem; através da especiação que essa mutação genética causou, o animal irracional se tornou um animal racional devido a aquisição da linguagem, isto é, da encarnação do Verbo. A Filosofia Alvissarista afirma que o Simbólico surge com o advento da linguagem (Logos) promovida pelo espanto gerado no homem primitivo de Pequim através do roubo do fogo, e é construída aos poucos através do jogo da presença e ausência da radiação do fogo (For! Da!) jogado pelo homem primitivo de Pequim quando, na estratégia de recuperação do fogo roubado pelo homem primitivo de Trinil, transpassara o fogo de mão em mão entre os homens primitivos até chegar com este de volta à aldeia. O mesmo processo que hoje em dia pode ser visto na cultura através dos jogos olímpicos, onde a tocha é passada de mão em mão até chegar ao seu destino final; ou na política, onde a faixa presidencial e a coroa são passadas de presidente a presidente ou de rei a rei; ou na economia, onde o dinheiro como moeda de troca é passado de mão em mão; ou na moral, onde os costumes são passados pelos pais aos seus filhos de geração em geração.

O fogo é o símbolo mais importante para o Alvissarismo. O fogo é o símbolo da mediunidade entre Deus e o homem. Deus sempre se revelou através do fogo. Através do roubo do fogo gerou a encarnação primeva do Verbo. Deus selou sua aliança com Abraão em meio ao fogo. Revelou-se a Moisés através do fogo. Deus conduziu o povo pelo deserto por uma coluna de fogo. O fogo está no centro do altar alvissarista, pois representa a religação entre Deus e o homem. Quando Moisés consagrou o templo, o Senhor respondeu com fogo. Elias foi arrebatado até o céu numa carruagem de fogo. A Palavra de Deus é fogo. Jesus batiza com fogo. O Espírito santo desceu sobre os homens em línguas de fogo. O Alvissarismo realiza o batismo no fogo sagrado do Espírito Santo porque o fogo é o símbolo da origem do Logos, da encarnação primeva do Verbo, do princípio e do fim de todo conhecimento. O fogo é um símbolo predominante de todo o folclore brasileiro e mitologia tupi-guarani. Segundo Câmara Cascudo na parte do  Dicionário do Folclore Brasileiro que trata do tabu do fogo:

“Encontra-se o tabu do fogo entre as proibições de conduta das populações do Nordeste, sobrevivência de costumes fixados no folclore entre superstições de povos diversos, em variantes que subjetivamente se relacionam, e onde transparece um nítido sentido sexual. Há mesmo em certos ‘Faz-Mal’ nordestinos, que dizem respeito ao fogo, uma introjeção sexual direta. Veja-se em faz mal menino brincar com fogo. Não se memoriza no nordeste a associação dum perigo, duma ‘injúria’ do fogo – uma queimadura, mas ao contrário, duma injúria ao fogo, e a explicação direta que abertamente dão à medida coativa é diferente sexual e originalmente peniana: explica o povo que menino que brinca com fogo mija na cama. Abraham demonstrou psicanaliticamente a simbólica sexual do fogo numa equivalência do esperma. Freud, analisando uma sua enferma, encontrou nos seus sonhos a substituição do fogo pela urina. Jones, a este respeito, registra o seu pensamento de que só muito tarde a criança aprecia a importância do fogo. Esta atração infantil pelo fogo e o temor ao fogo, no Nordeste, cercam-se doutras proibições. Diz-se ainda que faz mal menino mijar no fogo, porque seca as urinas, proibição aparentemente ligada ao antagonismo água-fogo, e que revela de certo modo que a restrição se assenta em interesse popularmente verificado ali entre crianças da região pelo fogo e associa mais uma vez o aparelho gênito-urinário ao fogo. A violação do princípio traria como consequência uma punição, a enfermidade, ou seja, uma ‘doença do tabu’ – à primeira vista , a parada da excreção urinária, mas encerrando num sentido simbólico profundo o temor da perda duma ação futura, simbolicamente fecundante. Sabe-se doutro modo, que a urina aparece frequentemente associada ao fogo pela similitude de calor ou sensação de ardor provocada, máxime na criança, no ato de urinar. Este tabu relaciona-se ainda com à intimidação de proibição da conduta local – faz mal menino brincar com fogo, porque urina na cama. Tem-se aí os elementos primários, encontrados na formação da pirofobia noturna de certos fóbicos, quando o medo de urinar na cama ou desejo disso se realizar assinalam a fixação do temor infantil, num encadeamento que liga os princípios urgentes e irritantes da execração ao fogo, assinalando Freud ter encontrado frequentemente o fogo como um símbolo constante e comum da urina. O cuspir no fogo, para o nordestino também um tabu de conduta: faz mal cuspir no fogo, seca o cuspo, encerrando uma atração ali verificada e uma oposição contrariante, associa a saliva e o fogo numa das expressões correlatas de elementos fecundantes que não se devem perder ou extinguir. Na tradição popular inglesa, tem-se o ‘spit-fire’, locução que significa popular e livremente pessoa de ‘língua afiada’, possivelmente originária do dragão mítico, que cuspia fogo, ligando o tubo digestivo à ideação específica do que recebe e excreta igualmente, num entrosamento de elementos libidinais, que partem da língua, como elemento simbólico associado. Esta associação língua-sexualidade é registrada igualmente em superstições de Nachtmar, colecionadas por Lainstner, citadas por Jones, como ainda no folclore cristão encontram-se referências constantes à língua como ao fogo, ora línguas-de-fogo, ora espadas afiadas que saem da boca, símbolos todos empregados como forças geradoras, concepcionais, num sentido mais largo. Entre os romanos e os gregos da antiguidade, o culto ao fogo, no lar era realizado em altar votivo, onde dádivas propiciatórias lhe eram depositadas, encerrando um anseio de proteção, de participação protetora, que concedesse ao indivíduo o poder específico da sua ação vital e vitalizante: o elã genésico ou como uma força em ação. Entre os hindus, o fogo-divindade, simbolizado em Agni, aparece como o criador da vida ou a própria vida. No Rig-Veda tem-se entre os hinos no seu culto estes versos: ‘Agni, tu és a vida, tu és o protetor dos homens, a ti devemos a vida!’(sentido vital nitidamente sexualizado). No interior do Nordeste ainda não se bota luz acesa no chão, faz mal, onde o símbolo fálico se poria em contato com o da terra, expressivo de poder feminino, dando a suspeitar a evasão duma fonte de energia ante o objeto: o fogo fecundaria a terra – coisa temível, esclarecendo lendas locais que o ato poderia dar lugar ao aparecimento de assombração, seu fruto. Faz mal, a mais, entrar em casa (símbolo feminino)com luz acesa na mão, outro tabu de conduta, que irradia o mesmo temor conjugado”. (Câmara Cascudo)

“Portugueses, africanos e ameríndios tiveram o culto do fogo ou sua veneração pelo caráter utilitário. Afugentava fantasmas noturnos em qualquer parte do mundo. Os indígenas viajavam com o tição fumegante como uma custódia contra os assombros da mata. Nenhum animal fantástico ousou jamais enfrentar o clarão do fogo. Viajantes no continente americano ou africano dão depoimento idêntico. Não há culto mais amplo nem mais antigo. O fogo, representação do sol, aquecendo, assando e depois cozendo os alimentos, preparando as peles, afiando armas, deu a impressão de conforto, segurança e tranquilidade, criando ambiente para a vida em comum. Onde estava o lume, estava a família. A lareira se tornou sede religiosa, centro irradiante de tradições, narradas pelos mais velhos aos mais novos ao calor reconfortante. Os gregos tiveram a personalização divina em Héstia, fogo doméstico, e Hefaístos, fogo industrial. As religiões mais primitivas tem no fogo a velocidade inicial. Em Portugal, a pedra em que se assenta o lume chama-se lar. Com o lume nasceu o culto dos mortos, os deuses larários, penates, os antepassados. A chama simbolizava a vida humana, a alma, efêmera e luminosa. Com o cristianismo, as lâmpadas, velas, fogo-novo do sábado de aleluia dizem da antiguidade desses cultos, vestígios poderosos de sua vitalidade milenar e universal. Os portugueses trouxeram maior número de tradições, capitalizadas através de séculos nos vários povos que viveram no território lusitano. A imaculabilidade do fogo é a exigência imediata e se conserva em todo o interior do Brasil. Nas cidades, onde apenas resistem as chamas breves dos acendedores de cigarro, o homem não vê o fogo nos fogões elétricos , a gás, fechados, brancos, limpos, sem a visão direta do enclausurado deus, destronado pela fada eletricidade. Pelas praias e sertões onde há fogão de lenha e carvão, fogueiras ao ar livre, o culto ainda aparece, nos fios de hábitos que são reminiscências vivas, sobrevivência dos rituais dos mortos”. (Câmara Cascudo)

 A primeira religião da história foi fundada pelo Pai Primevo de Pequim, através da encarnação do Verbo (Logos) promovido pelo roubo do fogo, na Indonésia, na Ilha de Java, no período paleolítico inferior, entre 500.000 a. C a 30.000 a. C, tal como está revelado no segundo selo do primeiro tomo de Alvíssara. Segundo Câmara cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, a palavra Alvíssara é o seguinte:

“Prêmio ou recompensa que se dá a quem anuncia boas notícias ou o encontro de coisas perdidas. Frei Manuel Calado (O Valeroso Lucideno): ‘… e o Governador João Fernandes Vieira deu dois escravos de alvíssaras a uma sentinela que trouxe nova de que vinham aqueles quatorze índios do Governador Dom Antônio Filipe camarão’

 Alvíssaras, meu bem, alvíssaras.

Alvíssaras que já cheguei!

Venho ver o Deus menino

E agora descansarei!…

Pedir alvíssaras a Nossa Senhora é uma tradição religiosa muito familiar entre católicos no Brasil. Dá direito a pedir uma graça à Virgem-Mãe, que nada recusará aos que lhe pedem nesse dia. Na noite de sexta-feira da paixão para o sábado de aleluia, alguns minutos antes da meia noite, reza-se o rosário das alvíssaras. Nas contas que representam os padre-nossos, diz-se: Alvíssaras, minha Mãe clemente, que o vosso Filho é inocente! No segundo padre-nosso: Alvíssaras, minha Mãe dolorosa, que vosso Filho ressuscitou da morte! E no terceiro; Alvíssaras, minha Mãe de Luz, que vosso Filho ressuscitou da cruz! E em todos os padre-nossos vão se alternando esses dizeres […] Em Portugal as alvíssaras são grupos de rapazes e moças que cantam versos em louvor da ressurreição de Cristo no sábado de aleluia ou domingo da ressurreição, indo à porta da igreja ou às casas dos amigos, recebendo amêndoas, passas e tremoços”.

Alvíssara, leva esse nome por ser uma palavra portuguesa de origem árabe (al-bixrá) que significa Boa Nova, recompensa dada a quem traz a Boa Nova, recompensa dada a quem traz algo perdido, gratificação a quem traz boas notícias ou restitui objeto perdido (o Fogo).

“Os bororos orarimugudoges (Mato Grosso) tiveram o fogo porque o macaco (guko) sabia obtê-lo pelo atrito de dois pauzinhos de riru’. […]“aAicaé-Raisaua é uma casta de japó, o grande, que tem a ponta do bico vermelho, porque, segundo reza a lenda, foi furtar ao Sol o fogo […] O jacaré furtou o fogo de tupana, engolindo-o e mergulhando numa fuga perfeita. O Tuxaua das rãs, Iuí, embriagou o jacaré com caxiri de macoari e uma moça matou-o, empurrando-o para cima dos curabis. Procuraram o fogo no interior do jacaré e ninguém o avistava. Finalmente a gente japu encontrou o fogo bem perto do ouvido. Tirou-o, entregando ao Iuí.”[…]”Antes na terra não havia fogo. É o prometeu indígena, e já me foi explicado que não foi o Japuaçu que foi furtar o fogo no sol, mas um pajé, que por punição foi mudado em japu, ficando-lhe o bico vermelho como sinal da causa da sua metamorfose”. (Câmara Cascudo)

A primeira religião da história da humanidade se baseava na crença na existência de Deus e da alma; na lei da reencarnação, onde o espírito assume sucessivas formas materiais para aperfeiçoa-se; e na lei do carma, onde o destino de cada espírito é traçado pelos atos praticados em suas sucessivas vidas terrenas; bem como na existência de um ser ou realidade distinto da matéria; este ser pode ser chamado mente ou espírito, e na crença da sobrevivência do espírito à morte do corpo, afirmando existir comunicação entre vivos e mortos através da mediunidade do Pai primevo de Pequim. O Espiritismo é uma doutrina primitiva que surge na pré-história, no fim do período paleolítico, onde começam a aparecer os primeiros vestígios de rituais de sepultamento dos mortos e cultos aos ancestrais, onde se buscava a comunicabilidade entre os vivos e os mortos. Desde então o Espiritismo vem se desenvolvendo, no antigo Egito é possível percebê-lo no Livro dos Mortos, na Bíblia, no Antigo e no Novo Testamento, encontram-se diversas passagens alusivas a fenômenos mediúnicos, mais especificamente no Livro de Números e Deuteronômio, onde Moisés proíbe pitonisas e feiticeiras de se comunicarem com espíritos, mas por outro lado, aprova as atividades mediúnicas de Eldad e Medad; em outro trecho, Saul, primeiro rei de Israel, evoca o espírito do profeta Samuel; e no Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo a pratica do Espiritismo é pública e notória, seja no diálogo entre Jesus e Elias ou então na própria comunicação entre Jesus ressurreto e os apóstolos; na civilização Minoica também existe vestígios do Espiritismo, na Grécia antiga também é possível notar sua existência, inclusive o próprio Filósofo Sócrates acreditava na imortalidade da alma e se comunicava com seu daimon. Na Idade Média existem diversos relatos de fenômenos mediúnicos, inclusive de Joana d’Arc, que dizia poder se comunicar com São Miguel Arcanjo, Santa Catarina e Santa Margarida. Emanuel Swedenborg descreveu relatos incríveis de comunicabilidade com os mortos, que posteriormente foram criticados por Kant; e mais a frente temos as Irmãs Fox, que tiveram um papel decisivo no surgimento do Espiritismo moderno, cuja base filosófica fora codificada por Alan Kardec e ampliada através das obras de Chico Xavier, que agora é complementado através do Espiritismo-Alvissarista. O povo brasileiro em sua síntese entre índios, negros e brancos é um povo que tem o Espiritismo em sua alma, talvez por isso a Doutrina espírita de Kardec tenha conseguido tanto sucesso por aqui, transformando-se em religião, o que quase não se viu em outros países, especialmente os europeus (com exceção da Inglaterra, que possui uma vertente do Espiritismo chamada de novo espiritualismo, que crê na comunicabilidade entre os vivos e os mortos, mas em geral não creem na reencarnação e nem tem a obra de Kardec como fonte de informação sobre o mundo espiritual), que, ou sequer conhecem a obra de Kardec ou o veem tão somente como um charlatão, principalmente depois de alguns acontecimentos no mínimo contestáveis com as Irmãs Fox, que parecem ter desmentido seus dons reais em troca de dinheiro e por pressão e interesses escusos dos adversários do Espiritismo, e posteriormente da intensa luta travada pelo grandioso mágico Harry Houdini que buscou incessantemente desmascarar as fraudes cometidas por charlatões em nome do Espiritismo. A questão aqui é que no Brasil o Espiritismo vingou e teve sucesso, e isso parece ser devido à síntese de raças que gerou o brasileiro: índio, branco e negro, que, como nos mostra Câmara Cascudo, é um povo que tem a crença na imortalidade da alma e na comunicabilidade entre os vivos e os mortos entranhada em sua cultura popular, em seu folclore. “A alma do que morreu aparece e fala ao que tá vivo […]. (Câmara Cascudo).

“A alma só abandona o corpo no último suspiro […] Representação: forma humana, feições reconhecíveis, irradiando uma sensação de frio extremo, ao redor. A voz pode ser a mesma possuída quando vivo, ou outra, quase sempre de exagerado acento nasal. Veste branca, roupa talar, longa, rojante, ou como usava. Materializa-se pela voz, pelo corpo inteiro, por uma parte apenas. Visível a todos ou determinada pessoa ou animal. Presença: a alma permanecerá na terra, enquanto dever promessas ou não cumprir a sentença que lhe impôs o Juiz Divino. Julgamento: a alma é levada ao tribunal celeste pelo Anjo da Guarda. Lê-se a relação de todos os bons e maus atos da vida terrena desde a idade da razão. A alma é colocada diante de São Miguel, que sustém a balança com que pesa os pecados cometidos e as virtudes exercidas. Deus dá a sentença. Devendo alguma promessa no mundo, a alma não entrará no céu […] o espírito, apenas desprendido da matéria, comparece perante o arcanjo S. Miguel, e tomando ele a sua balança, coloca em uma concha as obras boas e na outra as obras más, e profere o seu julgamento em face da superioridade do peso de uma sobre as outras. Quando absolutamente não se nota o concurso de obras más, o espírito vai imediatamente para o céu; quando são elas insignificantes, vai purificar-se no purgatório; e quando não tem em seu favor uma só obra boa sequer, vai irremissivelmente para o inferno, donde só sairá quando se der o julgamento final[…].

Segundo o Alvissarismo, o espírito, que é a essência do Ser, continua vivo após a morte do corpo físico. O que acontece do outro lado da vida, isto é, o que o espírito vivencia no mundo espiritual, é determinado pela fé e pelas ações que foram realizadas por ele na terra. A Lei de ação e reação, de causa e efeito (carma) torna-se imperativa, e cada um recebe punições ou recompensas de acordo com a quantidade e a qualidade exata de boas e más ações realizadas na terra. Esse processo é denominado de Juízo Particular, que é o momento em que a alma, que se separou de seu corpo após a sua morte, é julgada para saber se ela vai para o céu, o purgatório ou o inferno. O Juízo Particular “é o julgamento de retribuição imediata, que cada um, a partir da morte, recebe de Deus na sua alma imortal, em relação à sua fé e às suas obras”. Se a quantidade e a qualidade de boas ações for maior do que a quantidade e a qualidade de más ações, então o espírito habitará o céu. Se a quantidade e a qualidade de boas ações for mais ou menos igual a quantidade e a qualidade de más ações, então o espírito habitará o purgatório. E se a quantidade e a qualidade de más ações for maior do que a quantidade e a qualidade de boas ações, então o espírito habitará o inferno. Para o Alvissarismo nem as punições nem as recompensas são eternas, cada espírito paga por aquilo que praticou em sua exata proporção, mas a todos é concedida a oportunidade da reencarnação; por isso a salvação será dada a todos, uns em mais tempo e outros em menos tempo, pois o objetivo final de toda a existência humana é se libertar do ciclo cármico da roda das encarnações e se tornar um anjo, servindo diretamente a Deus. A morte é vista como um processo de libertação do espírito preso ao cárcere do corpo; no entanto, este pode ficar apegado às suas dores, paixões, vícios e preocupações terrenas. O desligamento do mundo sensível varia de espírito para espírito, alguns demoram dias, outros meses, outros anos e outros séculos. Alguns espíritos ficam presos ao plano terrestre por apego às coisas, pessoas, situações ou sentimentos, e só são libertados desse plano quando conseguem resolver as questões que os prendem ao plano terrestre; depois de resolvidas as pendências do espírito com este mundo, os seu anjo da guarda pessoal lhe aparece e o ajuda a fazer a passagem através da luz, levando-o para o mundo que ele habitará com base na sua contabilidade moral. Há, inclusive, os espíritos que não tiveram fé na imortalidade da alma na vida terrena, e por isso não sabem que morreram e às vezes passam dias, anos ou até séculos achando que ainda estão vivos, criando ilusões para si próprios a fim de não se haverem com o fato de que não fazem mais parte do mundo dos vivos. Por isso a instrução na Palavra de Deus (Alvíssara) e a fé na imortalidade da alma é tão importante na jornada da vida terrena. Depois que toma consciência da morte e consegue se desapegar totalmente das coisas, pessoas, situações e sentimentos deste mundo, o espírito é amparado por seu anjo da guarda e por seus familiares, e levado até uma das diversas cidades espirituais que existem em todos os planetas do sistema solar, seja no purgatório ou no céu, o que será determinado pela sua elevação moral e intelectual. No caso de espíritos cuja contabilidade moral é negativa, o demônio o leva para o inferno no centro da terra. Os espíritos mais elevados não passam por esse processo, pois reconhecem de imediato a morte e se desapegam das coisas, das pessoas, da situações e sentimentos deste mundo logo que se dão conta de sua nova condição existencial; por terem se instruído na Palavra de Deus (Alvíssara) e terem tido fé na imortalidade da alma, praticado o amor, a justiça e a caridade, são imediatamente levados por seus anjos da guarda para suas moradas celestes. Quando estiverem preparados, depois de terem estudado as próprias ações em vida e reconhecido suas dívidas morais, os espíritos passarão por um julgamento de suas ações, toda a sua contabilidade moral estará exposta em um Livro, e a partir dele Deus determinará como, quando, onde e porque o espírito renascerá, sendo sua reencarnação cuidadosamente planejada pelos anjos de Deus; esse processo é denominado de Juízo Parcial, posteriormente ao julgamento o espírito retorna ao mundo sensível em um novo corpo a fim de quitar suas dívidas e adquirir novos créditos. O espírito é livre para progredir, estagnar ou retrogradar no processo reencarnatório, ou seja, ele pode escolher pagar ou não pagar as suas dívidas pretéritas; alguns espíritos nascem com um número de dívidas e voltam para o mundo espiritual devendo ainda mais, indo assim para o inferno. O processo reencarnatório só termina quando o espírito consegue, por conta própria, pagar todas as suas dívidas para com Deus, a natureza e o próximo, atingindo assim a santa Angelitude. As únicas diferenças sobre a ideia de uma vida após a morte entre o Kardecismo e o Alvissarismo, são as crenças na possibilidade do retrocesso na roda das encarnações e na existência do céu, do purgatório, do inferno e do Juízo Final; já que para o Alvissarismo, assim como para o Kardecismo, que fora influenciado pelo Platonismo, o mundo sensível ou material é apenas uma cópia imperfeita do mundo inteligível ou espiritual.

Após o milênio, irá acontecer o Juízo Final: “E vi um grande trono branco, e o que estava assentado sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para eles. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram os mortos que neles havia; e foram julgados cada um segundo as suas obras. E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo. Esta é a segunda morte. E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” (Apocalipse; 20: 13 a 15); e a construção do “novo céu” e da “nova terra”: “E vi um novo céu, e uma nova terra (Apocalipse; 21: 1), onde será banida a morte, ou seja, onde não haverá mais descrença sobre a imortalidade da alma, onde o corpo espiritual será pleno e manifesto, pois viveremos não mais em um mundo de regeneração moral, mas sim em um mundo celeste, pois já estaremos todos regenerados, e nisto consiste o Juízo Final, ou seja, em Deus separar os justos dos ímpios, os não regenerados dos regenerados, os santos dos pecadores, os credores dos devedores com base na contabilidade moral de cada espírito dentro da Roda das Encarnações, anotada no Livro da Vida, e dar aos primeiros a “Nova Jerusalém” como morada eterna, e aos últimos o inferno como morada por tempo indeterminado, até que todos os espíritos malignos se arrependam e Satanás reconheça a soberania de Deus como o Rei do Universo, pedindo ao Pai para voltar para casa celeste como na parábola do filho pródigo, e Deus o acolherá novamente em sua morada no céu como era no princípio, salvando então todas as almas do fogo do inferno, inclusive a alma do próprio Satanás, que depois de voltar arrependido para a casa do Pai Celeste, tornar-se-á novamente um anjo de luz e se reconciliará com Jesus, e todos os espíritos viverão em paz e harmonia no reino de Deus, e o inferno não mais existirá. Acima de tudo, recomendo que se façam preces, orações, súplicas e ações de graça por todos os homens, pelos reis e por todos os depositários de autoridade, a fim de gozarmos de vida sossegada e tranquila em toda piedade e honestidade. Isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador. Ele deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Porque um é Deus, um também o mediador entre Deus e os homens: Cristo Jesus, que se entregou para a redenção de todos. (1 Timóteo; 2: 1 a 6)

Por ter como fundamento da fé no sobrenatural a ideia de imortalidade da alma e não de ressurreição da carne é que o Alvissarismo sistematizara a teoria do roubo do corpo de Cristo. A teoria do roubo do corpo de Cristo é a teoria apresentada pelo Alvissarismo no quinto selo do primeiro tomo de Alvíssara, e que consiste na tese de que o sepulcro de Jesus foi encontrado vazio porque o seu corpo foi roubado. Sendo o Alvissarismo uma doutrina essencialmente Espírita de caráter Cristão, logo nós acreditamos na imortalidade da alma e não na ressurreição da carne; para o Alvissarismo, todas as aparições de Jesus Cristo post-mortem foram dadas em espírito e não em corpo. Desse modo, se a ideia da ressurreição da carne nos é inconcebível, e se é um fato histórico incontestável que o sepulcro de Jesus fora encontrado vazio, torna-se necessário explicar o que de fato aconteceu com o corpo de Cristo. Bem, Kardec não formulou nenhuma teoria sobre essa questão, apesar de ele ter deixado bem claro que o corpo de Jesus era um corpo material igual ao de todo ser humano, ele não se deu ao trabalho de especular sobre o desaparecimento do corpo de Cristo, essa tarefa, então, coube ao Alvissarismo. Para o Alvissarismo não há outra possibilidade para explicar o desaparecimento do corpo de Cristo senão através da teoria especulativa de que o seu corpo fora roubado pelos próprios discípulos. Se a ideia da ressurreição da carne é absurda aos olhos do Espiritismo-Alvissarista, se as aparições de Jesus post-mortem foram dadas em espírito e não em corpo, e se o seu sepulcro fora de fato encontrado vazio, logo não há outra teoria para explicar o desaparecimento de seu corpo senão a teoria do corpo roubado.

O Alvissarismo não é cético quanto à ressurreição de Cristo, o Alvissarismo é cético quanto à ressurreição da carne de Cristo, para nós trata-se única e exclusivamente de uma ressurreição da alma de Cristo, e não da sua carne, ou seja, as suas aparições post-mortem confirmam a ideia Platônica da imortalidade da alma. Não é nada improvável que os seguidores de Jesus tenham roubado o seu corpo, pois eles eram os únicos interessados em fazer isso, não só para proteger o corpo do Mestre de uma depredação e posterior humilhação como também para veicular a mensagem da vida após a morte, que era a mensagem central de Jesus, só que ele não poderia falar de uma vida após a morte através da ideia Platônica da imortalidade da alma, pois se assim o fizesse seria completamente rejeitado pelo povo, já que essa era uma concepção escatológica de índole estritamente grega e não tinha nada a ver com a escatologia hebraica daquele povo.

É óbvio que essa tese Alvissarista de que o corpo de Jesus fora roubado pelos próprios discípulos não é nem um pouco original, ela já se espalhara no dia mesmo da ressurreição de Jesus pelos judeus e pelos romanos, a novidade introduzida pelo Alvissarismo são os detalhes sobre esse acontecimento e a tese especulativa de onde poderia estar enterrado o corpo de Cristo. A hipótese Alvissarista de que o corpo de Jesus fora roubado pelos próprios discípulos é a única hipótese capaz de explicar de forma lógica e racional o desaparecimento do corpo de Jesus. Não é nada improvável, como propõe o Alvissarismo, que os seguidores de Jesus tenham roubado o corpo do Mestre com dois guardas romanos protegendo o túmulo, já que, como é narrado em (Mateus; 28: 11), os guardas por diversas vezes durante a noite dormiam tranquilamente, e que justamente uma dessas dormidelas é que deu a oportunidade para que os seguidores de Jesus pudessem rolar a pedra do sepulcro e retirar o corpo de Jesus de lá de dentro; e nem adianta alguns críticos desavisados dizerem que a pedra era pesada de mais para ser rolada, pois se conseguiram rolá-la para fechar o sepulcro, por que então não conseguiriam rolá-la para abrir o mesmo sepulcro? Esse é um argumento infantil de pessoas que querem a todo custo sustentar a ideia absurda e fantasiosa da ressurreição da carne. O Evangelho narra que os discípulos tiveram a ajuda de anjos para manter os guardas desacordados, e nesse estado, muito facilmente os discípulos retirariam o corpo de Jesus de dentro do sepulcro.

Vejam bem, ao afirmarmos que os discípulos de Jesus roubaram o corpo dele do sepulcro, nós não estamos dizendo que eles sejam desonestos ou que tenham um mau caráter, muito pelo contrário, eles fizeram o que tinha que ser feito. O objetivo desse roubo era o seguinte: evitar que o corpo do Mestre fosse depredado e humilhado em público e sustentar a ideia escatológica da vida após a morte sem ter de aderir à concepção Platônica da imortalidade da alma. Se o roubo do corpo de Cristo não tivesse acontecido e se seu sepulcro não tivesse sido encontrado vazio a obra de Jesus teria morrido na cruz, e o povo estaria até hoje sem saber que existe uma vida após a morte e um reino do céu. Desse modo, quando os apóstolos apregoaram para o resto de suas vidas a ressurreição de Jesus, eles não apregoaram uma mentira, mas sim a verdade da imortalidade da alma. Os apóstolos só foram capazes de se sacrificar tanto e até morrerem pela mensagem da ressurreição porque ela era verdadeira, porém se tratava não de uma ressurreição da carne, mas sim de uma ressurreição da alma. Eles foram absolutamente verdadeiros e leais ao Mestre e ao povo, pois ao falarem que Jesus estava vivo e que lhes aparecia, eles estavam falando a verdade, pois o espírito do Mestre realmente lhes apareceu durante quarenta dias justamente para confirmar a existência da imortalidade da alma. O espírito do Mestre lhes aparecia da mesma forma como diversos espíritos apareciam a Chico Xavier e assim como os espíritos dos Santos e de Nossa Senhora aparecem ao Pedro Siqueira. Trata-se, portanto, de aparições em espírito e não em corpo. Um corpo não pode atravessar paredes como fazia Jesus ressurreto, só um espírito tem capacidade para realizar essa façanha; o corpo espiritual é, em seu estado geral, invisível, mas ele pode sofrer algumas transformações que podem torna-lo visível e até mesmo passível de ser tocado, como é descrito no Evangelho, onde Tomé toca o corpo espiritual de Jesus. Mas, se Jesus ressuscitou em alma e não em corpo como estamos propondo aqui, como então explicar o fato de o evangelho narrar que ele, após sua ressurreição chegara até a comer junto aos discípulos? Bem, considerando que esse ritual erguido sobre a refeição fúnebre é mais antigo do que o próprio cristianismo e até mesmo mais antigo do que a filosofia, nós podemos dizer que os discípulos estavam repetindo uma situação erguida pelas religiões primitivas, onde era comum os parentes do morto darem de comer ao falecido num manjar fúnebre. (Essa situação é descrita no livro “A cidade antiga”) No caso, tendo o Cristo ressuscitado em alma, e tendo os discípulos a capacidade mediúnica (dom do Espírito Santo) de poder vê-lo, deu a ele de comer simbolicamente e não realmente, ou seja, nós entendemos essa passagem como puramente simbólica, de modo que, ao nosso entender, o que Jesus comeu ali na verdade foi o fluido da comida, do peixe, e não o peixe em si mesmo, da mesma forma como um espírito pode pegar o fluido de qualquer objeto material deste mundo, como um livro, por exemplo.

Os apóstolos só aceitaram ser presos, apedrejados e mortos porque a mensagem da ressurreição era verdadeira, apesar do corpo de Jesus ter sido retirado do túmulo por eles, o espírito do Mestre lhes aparecia, o que lhes dava prova sobre a imortalidade da alma e a vida após a morte, reforçando assim a missão dos apóstolos de apregoar ao povo que Jesus havia ressuscitado. Dentre todos os apóstolos, Paulo de Tarso foi o que mais compreendeu essa situação, ou seja, de que as aparições de Jesus foram dadas em um corpo espiritual e não em um corpo carnal, pois foi assim que Jesus lhe apareceu na estrada de Damasco. Foi graças às cartas de Paulo que séculos mais tarde Santo Agostinho conseguiu sincretizar o Cristianismo ao Platonismo, introduzindo no pensamento Cristão a ideia Platônica da imortalidade da alma. Desse modo, é preciso deixar claro que o Alvissarismo não nega a ressurreição de Cristo, o que nós negamos é a ressurreição da carne. Em contraposição à ideia da ressurreição da carne nós afirmamos a ideia da ressurreição da alma, isto é, a ideia de que as aparições de Cristo post-mortem foram dadas em espírito e não em corpo. Para nós, imaginar que um sujeito como Jesus, que apregoou durante três anos a vida do espírito e a renúncia aos desejos carnais, iria se dar ao trabalho de, depois de morto, levar a tralha do próprio corpo para o reino do céu, é ir contra toda a sua pregação, ou seja, a ideia da ressurreição da carne não faz o menor sentido. “Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (1 Coríntios; 15: 50). A ressurreição de Jesus é um fato histórico inegável, pois possui mais de quinhentas testemunhas, não se trata, portanto, de uma alucinação coletiva ou de um simples mito, mas de um fato real que confirma a imortalidade da alma e a existência de uma vida após a morte. Apesar de todas as contradições que existem sobre o relato da ressurreição de Jesus, se interpretarmos esse fato histórico como uma manifestação da imortalidade da alma, todas essas contradições caem por terra, pois o fato se torna mais racional e lógico, porém ainda continua a ser uma questão de fé, mas tratar-se-á de uma fé racional. A ideia Islâmica de que Jesus não havia morrido na cruz, mas apenas desmaiado e depois se recuperou de suas feridas é, talvez, mais fantasiosa do que a própria ideia da ressurreição da carne, ninguém jamais sobreviveria a tamanho martírio; e a ideia Roustainguista do corpo fluídico de Jesus consegue ser ainda mais absurda, posto que essa tese implicaria na negação da encarnação de Cristo e na completa impossibilidade da distinção entre o corpo material e o corpo espiritual. Desse modo, fica esclarecido que, dentre todas as hipóteses existentes para explicar o desaparecimento do corpo de Cristo e as suas aparições post-mortem, a hipótese Alvissarista é a mais provável, isto é, a mais lógica e racional. Nem os líderes romanos nem os líderes judeus, que guardaram o túmulo (Mateus; 27: 62) tinham qualquer motivo para roubar o corpo de Jesus, pelo contrário, ambos os líderes tinham motivo de sobra para esperar que os três dias da profecia se cumprissem para depois entrar no túmulo, pegar o corpo e exibi-lo em público para humilhar Jesus e os seus seguidores, mostrando que a sua profecia da ressurreição não havia se cumprido, destruindo de uma vez por todas com o movimento iniciado por Jesus de Nazaré. Desde que a cena se passou em Jerusalém, estava no poder dos líderes judeus e romanos encontrar o corpo de Cristo, já que o seu sepulcro fora encontrado vazio, mas para a frustração deles o seu corpo jamais foi encontrado. Mas, se o corpo de Jesus foi roubado pelos próprios discípulos como apregoa o Alvissarismo, como então seu corpo não foi encontrado pelos líderes judeus e romanos? Bem, de acordo com o Alvissarismo, o corpo de Jesus só não foi encontrado por três motivos: 1- Não há registro histórico da procura pelo corpo de Cristo entre os judeus e os romanos, os evangelhos não narram hora nenhuma qualquer empreendimento por parte dos líderes judeus e romanos em procurar o corpo de Jesus, que é a prova material do crime. Se os judeus e romanos tivessem realmente procurado pelo corpo de Jesus esse seria um fato que com toda certeza seria narrado nos evangelhos, pois era do interesse dos próprios apóstolos esclarecer que mesmo sendo procurado o corpo nunca foi encontrado. 2- Mesmo que os líderes judeus e romanos tivessem procurado o corpo de Jesus, eles o fariam por entre os sepulcros de Jerusalém, e jamais o encontrariam, pois, segundo o Alvissarismo (vide tomo 1, selo 5 de Alvíssara: “O Mistério do Graal: o Roubo do Corpo de Cristo”), o corpo de Jesus fora sepultado não em um sepulcro, mas sim na casa de José em Arimatéia, e como sepultar um cadáver em casa e não em um sepulcro era algo absolutamente inconcebível para os judeus, os líderes Judeus e romanos jamais desconfiaram que o corpo de Jesus havia sido sepultado em uma casa. Se os judeus e os romanos tivessem que procurar pelo corpo de Jesus procurariam em um sepulcro ou uma vala e não em uma casa. 3- Ao sepultarem o corpo de Jesus justamente na casa daquele que pedira o seu corpo a Pilatos, isto é, José de Arimatéia, que era um discípulo de Jesus, mas que os próprio judeus não sabiam disso nem poderiam saber, pois se soubessem o expulsariam do conselho, já que ele era um membro nobre do conselho dos judeus, os discípulos tiraram qualquer possibilidade de seu corpo ser encontrado, pois eles pensaram que os líderes Judeus pensariam que eles não seriam tolos o bastante para sepultar o corpo do Mestre justamente na casa daquele que pedira seu corpo a Pilatos; primeiro porque sepultar um corpo em casa era algo impensável naquela época, segundo a lei mosaica, o cadáver era encarado como tornando impuros por sete dias aqueles que o tocassem; aqueles que deixassem de observar os procedimentos de purificação prescritos na Lei de Moisés estavam sujeitos à pena de morte (Números; 19: 11 a 20) e (Deuteronômio; 21: 22 a 23). Há registros históricos de que, mais tarde José de Arimatéia fora preso pelos judeus e romanos que o acusaram de ter roubado o corpo de Jesus, já que foi ele quem pediu o corpo a Pilatos, já que o corpo, por ter sido sepultado em uma casa e não eu um sepulcro, nunca fora encontrado, e de qualquer forma alguém teria que ser tomado de bode expiatório para que o desaparecimento do corpo de Jesus fosse configurado como roubo e fundamentasse assim o crime. Se o corpo desapareceu, alguém o roubou. Se alguém o roubou, esse alguém tem de pagar pelo crime. Mas quem foi esse alguém? Ora, aquele mesmo que pedira o corpo de Cristo a Pilatos. Os judeus e os romanos não poderiam acusar outra pessoa senão José de Arimatéia, porém jamais encontraram o corpo pelo simples fato de que o corpo nunca fora sepultado em um sepulcro, mas sim na própria casa de José em Arimatéia. Não é nada improvável que os seguidores de Jesus tenham roubado o seu corpo, pois eles eram os únicos interessados em fazer isso, não só para proteger o corpo do Mestre de uma depravação e posterior humilhação como também para veicular a mensagem da vida após a morte, que era a mensagem central de Jesus, só que ele não poderia falar de uma vida após a morte através da ideia Platônica da imortalidade da alma, pois se assim o fizesse seria completamente rejeitado pelo povo, já que essa era uma concepção escatológica de índole estritamente grega e não tinha nada a ver com a escatologia hebraica daquele povo. É obvio que essa tese Alvissarista de que o corpo de Jesus fora roubado pelos próprios discípulos não é nem um pouco original, ela já se espalhara no dia mesmo da ressurreição de Jesus pelos judeus e pelos romanos, a novidade introduzida pelo Alvissarismo são os detalhes sobre esse acontecimento e a tese especulativa de onde poderia estar enterrado o corpo de Cristo. A hipótese Alvissarista de que o corpo de Jesus fora roubado pelos próprios discípulos é a única hipótese capaz de explicar de forma lógica e racional o desaparecimento do corpo de Jesus. Não é nada improvável, como propõe o Alvissarismo, que os seguidores de Jesus tenham roubado o corpo do Mestre com dois guardas romanos protegendo o túmulo, já que, como é narrado em (Mateus; 28: 11), os guardas por diversas vezes durante a noite dormiam tranquilamente, e que justamente uma dessas dormidelas é que deu a oportunidade para que os seguidores de Jesus pudessem rolar a pedra do sepulcro e retirar o corpo de Jesus de lá de dentro; e nem adianta alguns críticos desavisados dizerem que a pedra era pesada de mais para ser rolada, pois se conseguiram rolá-la para fechar o sepulcro, por que então não conseguiriam rolá-la para abrir o mesmo sepulcro? Esse é um argumento infantil de pessoas que querem a todo custo sustentar a ideia absurda e fantasiosa da ressurreição da carne. O Evangelho narra que os discípulos tiveram a ajuda de anjos para manter os guardas desacordados, e nesse estado, muito facilmente os discípulos retirariam o corpo de Jesus de dentro do sepulcro. Vejam bem, ao afirmarmos que os discípulos de Jesus roubaram o corpo dele do sepulcro, nós não estamos dizendo que eles sejam desonestos ou que tenham um mau caráter, muito pelo contrário, eles fizeram o que tinha que ser feito. O objetivo desse roubo era o seguinte: evitar que o corpo do Mestre fosse depredado e humilhado em público e sustentar a ideia escatológica da vida após a morte sem ter de aderir à concepção Platônica da imortalidade da alma. Se o roubo do corpo de Cristo não tivesse acontecido e se seu sepulcro não tivesse sido encontrado vazio a obra de Jesus teria morrido na cruz, e o povo estaria até hoje sem saber que existe uma vida após a morte e um reino do céu. Desse modo, quando os apóstolos apregoaram para o resto de suas vidas a ressurreição de Jesus, eles não apregoaram uma mentira, mas sim a verdade da imortalidade da alma. Os apóstolos só foram capazes de se sacrificar tanto e até morrerem pela mensagem da ressurreição porque ela era verdadeira, porém se tratava não de uma ressurreição da carne, mas sim de uma ressurreição da alma. Eles foram absolutamente verdadeiros e leais ao Mestre e ao povo, pois ao falarem que Jesus estava vivo e que lhes aparecia, eles estavam falando a verdade, pois o espírito do Mestre realmente lhes apareceu durante quarenta dias justamente para confirmar a existência da imortalidade da alma. O espírito do Mestre lhes aparecia da mesma forma como diversos espíritos apareciam a Chico Xavier e assim como os espíritos dos Santos e de Nossa Senhora aparecem ao Pedro Siqueira. Trata-se, portanto, de aparições em espírito e não em corpo. Um corpo não pode atravessar paredes como fazia Jesus ressurreto, só um espírito tem capacidade para realizar essa façanha. Os apóstolos só aceitaram ser presos, apedrejados e mortos porque a mensagem da ressurreição era verdadeira, apesar do corpo de Jesus ter sido retirado do túmulo por eles, o espírito do Mestre lhes aparecia, o que lhes dava prova sobre a imortalidade da alma e a vida após a morte, reforçando assim a missão dos apóstolos de apregoar ao povo que Jesus havia ressuscitado. Dentre todos os apóstolos, Paulo de Tarso foi o que mais compreendeu essa situação, ou seja, de que as aparições de Jesus foram dadas em um corpo espiritual e não em um corpo carnal, pois foi assim que Jesus lhe apareceu na estrada de Damasco. Foi graças às cartas de Paulo que séculos mais tarde Santo Agostinho conseguiu sincretizar o Cristianismo ao Platonismo, introduzindo no pensamento Cristão a ideia Platônica da imortalidade da alma.

Desse modo, é preciso deixar claro que o Alvissarismo não nega a ressurreição de Cristo, o que nós negamos é a ressurreição da carne. Em contraposição à ideia da ressurreição da carne nós afirmamos a ideia da ressurreição da alma, isto é, a ideia de que as aparições de Cristo post-mortem foram dadas em espírito e não em corpo. Para nós, imaginar que um sujeito como Jesus, que apregoou durante três anos a vida do espírito e a renúncia aos desejos carnais, iria se dar ao trabalho de, depois de morto, levar a tralha do próprio corpo para o reino do céu, é ir contra toda a sua pregação, ou seja, a ideia da ressurreição da carne não faz o menor sentido. A ressurreição de Jesus é um fato histórico inegável, pois possui mais de quinhentas testemunhas, não se trata, portanto, de uma alucinação coletiva ou de um simples mito, mas de um fato real que confirma a imortalidade da alma e a existência de uma vida após a morte. Apesar de todas as contradições que existem sobre o relato da ressurreição de Jesus, se interpretarmos esse fato histórico como uma manifestação da imortalidade da alma, todas essas contradições caem por terra, pois o fato se torna mais racional e lógico, porém ainda continua a ser uma questão de fé, mas tratar-se-á de uma fé racional. A ideia Islâmica de que Jesus não havia morrido na cruz, mas apenas desmaiado e depois se recuperou de suas feridas é, talvez, mais fantasiosa do que a própria ideia da ressurreição da carne, ninguém jamais sobreviveria a tamanho martírio. Desse modo, fica esclarecido que, dentre todas as hipóteses existentes para explicar o desaparecimento do corpo de Cristo e as suas aparições post-mortem, a hipótese Alvissarista é a mais provável, isto é, a mais lógica e racional.

O inconsciente coletivo é a estrutura racial herdada de todos os seres humanos. Sobre ele estão arquitetados o ego, o inconsciente individual e todas as aquisições culturais. O inconsciente coletivo é o depósito de traços de memória herdados do passado ancestral da humanidade, um passado que inclui não apenas a história racial do homem ou de uma espécie a parte, mas também seus ancestrais pré-humanos e animais. O inconsciente coletivo é o resto e a causa psíquica do desenvolvimento evolutivo da humanidade, um resíduo gerado na origem do Logos através do roubo do fogo, um resíduo que se acumulou em virtude de experiências repetidas durante várias gerações (por exemplo: a presença e ausência do fogo na origem do Logos e a presença e ausência do fogo nos jogos olímpicos). Como podemos perceber memórias ou representações sociais não são herdadas como tais, o que a humanidade herda é o significante erigido como uma Lei gramatical e hereditária, que determina as possibilidades e impossibilidades da humanidade reviver experiências de gerações passadas. Um exemplo clássico desse fenômeno e que corrobora nossa teoria do roubo do corpo de Cristo é o Dia do furto tradicional descrito por Câmara Cascudo no Dicionário do Folclore Brasileiro.

Na noite da sexta-feira da Paixão para o sábado de aleluia ou deste para o domingo da ressurreição havia em todo o Brasil a tradição de furto de aves domésticas para um grande almoço no dia imediato. A tradição ainda não desapareceu de todo, e estava espalhada por toda a América espanhola. Na Bolívia denominava-se kjespichee. No interior de São Paulo é o ‘Dia da Malvadeza’ na quinta-feira santa . Reuniam-se as alegres irresponsabilidades populares numa espécie de reminiscência das festas romanas, as Lupercais em fevereiro, as Hilárias em abril e as Santurnálias em dezembro, de que o carnaval é sobrevivência típica. Na África e Ásia resiste a mesma tradição ligada a outros ciclos religiosos e possivelmente de fundo cultural agrário. Uma explicação é pensar o povo que a morte de Jesus Cristo elimina o direito de autoridade, de propriedade, de posse, dando às coisas o domínio geral. Em Roma o povo saqueava o palácio imperial, quando do falecimento do imperador. Esse hábito é um dos elementos constantes na psicologia popular, considerando sem dono o que pertenceu ao morto. Bem de defunto é de toda gente, afirmavam. O Papa João IX, no concílio de Ravena em 898, proibiu, sob pena de excomunhão, o assalto e furto dos bens dos cardeais, arcebispos e bispos, pela multidão, quando da morte desses prelados”. (Câmara cascudo).

A Filosofia Alvissarista como Filosofia Rapisódica não se define apenas por seu caráter popular, mas também por seu caráter erudito, mas a relação que ela mantém entre a Filosofia e o Folclore é primordial. No nosso entendimento, é sobretudo por seu caráter erudito e popular no mesmo sentido e, ao mesmo tempo que o Alvissarismo enquanto Filosofia Rapsódica tornar-se-á imortal e passará pela peneira do tempo, perdurando vivamente pelos séculos dos séculos até o fim dos tempos.

“O folclore sendo uma cultura do povo é uma cultura viva, útil, diária, natural. (…) Como o povo tem senso utilitário em nível muito alto, as coisas que vão sendo substituídas por outras mais eficientes e cômodas passam a circular mais lentamente, sem que de todo morram.”

Joana Cavalcante de Abreu, citando cascudo, assim nos explica sua análise da obra:

Cascudo explicita assim a relação entre folclore, elemento popular e continuidade. Em Folclore do Brasil, enfatiza constantemente a continuidade de tradições, chegando a afirmar que nós “somos, em alta percentagem, uma continuidade com raras mutações”. A continuidade temporal representa o principal enfoque a partir do qual Cascudo analisa os temas folclóricos, buscando suas origens e traçando o roteiro que eles percorreram no tempo e no espaço. Logo adiante Cascudo explicita outra relação envolvida no folclore. Além das noções de elemento popular e continuidade, emergem agora as noções de autenticidade e nacionalidade. Ao explicar o processo de incorporação de um motivo pelo folclore, de “reajustamento para o folclórico”, Cascudo escreve:“…somente o tempo, dando-lhe a pátina da autenticidade a fará folclórica. A autenticidade é o resumo constante e sutil das colaborações anônimas e concorrentes para sua integração na psicologia coletiva nacional”.

Com relação ao vínculo entre o folclore e o nacional vale ainda ressaltar a seguinte passagem:

“Por isso o folclore é um fator preponderante na unidade emocional brasileira, incessante e poderoso na força de aproximação, intimidade, sentimento, fusão psicológica, ternura lírica, vibração moral. O idioma não é um vínculo permanente de coesão. Exemplo irrespondível nos povos de língua árabe, alemã, castelhana, aqueles na África e Europa, estes na América. Nem os próprios elementos étnicos, partindo, para nós, do indígena, que o jesuíta afirmava ser o animal mais raro e inconstruível que Deus criou. Um fundamento de constante coesão é a cultura tradicional, legítima, radicular, sentida, vivida pelo povo.” (Joana Cavalcante de Abreu).

Por ser ao mesmo tempo erudito e popular o Alvissarismo conservar-se-á no tempo e no espaço na medida do possível por possuir um valor histórico inestimável para o povo brasileiro, revelando a continuidade moderna de costumes ancestrais, fundamentando assim uma unidade emocional e racional brasileira, construindo assim a identidade filosófico-religiosa do Brasil, revelando quem nós somos, nossas origens e filiações indígenas, portuguesas e negras, sem, no entanto, que uma se sobreponha a outra. O brasileiro é a pureza da mistura entre o índio, o branco e o negro. O Alvissarismo realiza uma reelaboração original do mito das três raças que caracteriza a identidade do Brasil e do mundo.

O Alvissarismo mostrou que os homens primitivos começaram a raciocinar mesclando o real e a realidade, e que a mutação genética que produziu a transformação do macaco em homem teve sua origem no espanto proveniente do roubo do fogo, que promoveu a encarnação do Verbo e o nascimento da linguagem que estruturou o desenvolvimento de tudo àquilo que é próprio aos seres humanos, ou seja, Filosofia, Política, Economia, Moral, Ética, Pedagogia, Direito, Estética e Religião, separando o homem e o mundo, a civilização e a natureza; um acontecimento histórico que envolveu o sincretismo comportamental de três gêneros homo: 1°- O Homem de Trinil (Oceania). 2°- O Homem de Pequim (Ásia) e 3°- O Homem de Neandertal (Europa), e que fundamentou as bases comportamentais do homo sapiens. A Antropologia Alvissarista concebe a raça humana como uma mescla entre o Homem de Trinil, o Homem de Pequim e o Homem de Neandertal. Para o Alvissarismo o nascimento da civilização provém de um acontecimento primordial (o roubo do fogo) que gerou a linguagem que fundamentou a transformação do animal irracional em um animal racional e estruturou a raça humana através de um sincretismo entre esses três gêneros homo.

Desse modo nos explica Joana Cavalcante de Abreu a ligação entre o particular e o universal citar Cascudo:

A cultura popular é assim uma aquisição comum e primeira à qual aos poucos acrescenta-se a cultura letrada, diferenciadora. A cultura popular constitui então um fundo comum não só no interior de um mesmo povo, mas também entre diferentes culturas. Daí a universalidade que Cascudo atribui a muitos de seus aspectos, como, por exemplo, os mitos de assombração: “As diferenciações da cultura, entre os homens isolados e os grupos coletivos, estão no derradeiro grau, no mais alto nível da pirâmide. Descendo, ampliando-se a base demográfica, até alcançar o alicerce basáltico dos sedimentos primários do homem, todos os povos têm, mais ou menos, as mesmas reações em face aos idênticos motivos provocadores.”

Assim como para Cascudo a cultura é formada pelo popular e pelo letrado, para nós o Alvissarismo é formado pelo Folclore e pela Filosofia; os dois lados do Alvissarismo, longe de se oporem, se complementam e se casam numa síntese de opostos binários, definindo a razão do Brasil.

“Nascemos e vivemos mergulhados na cultura da nossa família. Dos amigos, das relações mais contínuas e íntimas, do nosso mundo afetuoso. O outro lado da cultura (cultura, fórmula aquisitiva de técnicas, e não sinônimo de civilização) é a escola, a universidade, bibliotecas, especializações, o currículo profissional, contatos com os grupos e entidades eruditas e que determinam vocabulário e exercício mental diversos do vivido habitualmente. Vivem, numa coexistência harmônica e permanente, as duas forças de nossa vida mental. Non adversa, sed diversa. Potências de incalculável projeção em nós mesmos, o folclore e acultura letrada, oficial, indispensável, espécie de língua geral para o intercâmbio natural dos níveis da necessidade social”. (Câmara Cascudo)

O Alvissarismo é uma Filosofia original porque teve a audácia de ir até as origens do Brasil para explicar as origens da linguagem, do homem e do mundo, encontrando assim as condições de uma Filosofia Brasileira, mas ainda não Tupiniquim, pois uma Filosofia Tupiniquim não necessitaria de se utilizar do recurso da antropofagia como necessitou o Alvissarismo para erguer o seu sistema. O Alvissarismo é, portanto, inegavelmente uma Filosofia Brasileira, mas não uma Filosofia Tupiniquim, pois esta, para ser autêntica, demandaria ser composta não em português, mas sim em tupi-guarani. Faço minhas as palavras de Policarpo Quaresma. Os portugueses roubaram a nossa alma assim como o Homem de Trinil roubou o fogo do Homem de Pequim. O nosso propósito é, portanto, recuperar a nossa alma-língua roubada pelos portugueses, levando cada fonema tupi de mão e mão até chegar com a nossa língua original de volta à aldeia.

Dito que o Alvissarismo é de fato uma Filosofia Brasileira, mas não uma Filosofia Tupiniquim, pois uma Filosofia Tupiniquim não necessitaria de se utilizar do recurso da antropofagia como necessitou o Alvissarismo para erguer o seu sistema, e que uma Filosofia Tupiniquim, para ser de fato autêntica, deveria ser escrita não em português, mas sim em tupi-guarani; peço licença ao povo brasileiro para compor pelo menos a primeira fase da sistematização de uma Filosofia Tupiniquim ainda em português, isto é, compor uma Filosofia Tupiniquim por não conter nesta sistematização o recurso da antropofagia, mas tão somente a auto antropofagia. Quanto à segunda fase da Filosofia Tupiniquim – a de ser escrita em tupi-guarani – tenho o sonho e a esperança que um dia alguém mais capacitado do que eu possa vir a executar esta façanha. Se no livro Alvissarismo: Filosofia Brasileira nós idealizamos o projeto da passagem de uma Filosofia Brasileira para uma Filosofia Tupiniquim, neste presente trabalho pedimos ao leitor licença para que possamos de fato construir a primeira ponte que erguerá a existência concreta de uma Filosofia Tupiniquim, ou seja, a auto antropofagia, a inversão especular do modernismo brasileiro através da prática da deglutição de si mesmo ou auto antropofagia do folclore brasileiro, como num processo metafórico em que o brasileiro se mata através de um suicídio narcísico, para posteriormente renascer das cinzas como a Fênix.  A Filosofia da Auto Antropofagia pretende que, ao invés de deglutirmos culturalmente o Outro externo, como a Europa e a América do Norte, devemos deglutir culturalmente o Outro interno, caracterizado pelo folclore do Brasil (e da América-Latina), onde está sintetizado a alma do povo brasileiro através do seu sincretismo original entre brancos, negros e índios. Isso quer dizer que não se deve negar ou menosprezar a cultura estrangeira, muito menos copiá-la ou imitá-la; o que devemos fazer é deglutir a nossa própria cultura – o Outro interno -, e não mais a cultura do Outro externo. Na Filosofia da Auto Antropofagia só me interessa o que é meu; só me interessa o que é brasileiro e latino-americano. Essa é a nova Lei que vos deixo: a Lei da Auto Antropofagia. No entanto, esta Lei não deve ser interpretada como xenofobia intelectual, mas tão somente como ferramenta simbólica para se alcançar uma Filosofia Nacional, livre de qualquer influência estrangeira, mas tão somente sistematizada pela pureza da mistura das três raças que formaram o povo brasileiro: índios, brancos e negros.

Para realizarmos tal façanha filosófica, deglutiremos a síntese da alma do povo brasileiro – Dicionário do Folclore Brasileiro – de Câmara Cascudo, e construiremos a primeira parte de uma Filosofia Tupiniquim. Todo o nosso sistema filosófico a partir de agora terá como referência única e exclusivamente a obra de Câmara Cascudo – o homem que sintetizou em um dicionário a alma do povo brasileiro –. Convido o nobre leitor para que devoremos juntos à mesa uma comida tipicamente brasileira chamada Câmara Cascudo, a fim de que possamos demonstrar que o Dicionário do Folclore Brasileiro é o instrumento que permitirá o Alvissarismo realizar a metamorfose de uma Filosofia Brasileira para uma Filosofia Tupiniquim, através da auto antropofagia e da identificação entre o Folclore Brasileiro e a Filosofia Alvissarista.

Transcende do simples ato de alimentar-se a significação da comida. É ainda hora semi-sagrada de silêncio, compostura, severidade. Manda-se respeitar a mesa. Não se come trazendo armas, chapéu na cabeça ou despido. Um banquete, comida coletiva, é a maior homenagem social. Certos alimentos determinam o regresso ou fixam quem lhes provou o sabor no local de origem […] Os romanos ofereciam aos deuses uma refeição solene e pública. O Lectisternio, nos dias de calamidade. O ato mais importante no matrimônio em Roma era a Confarreatio, onde a noiva comia um pedaço do panis ferreus, correspondente ao bolo, pão, fruto seco, na Grécia. Origem do ‘Bolo de Noiva’, primeiro gesto da esposa, dividindo as rações no novo lar. Comer junto é aliar-se. Comer o pão ou o sal é irmana-se. Ainda noséculo XIV, em Florença, no tempo de Dante Alighieri, o assassino que conseguisse tomar uma sopa de pão e vinho sobre o túmulo do assassinado não podia mais ser perseguido pela família do morto […] Para os janízaros, o símbolo da união sagrada, era a grande panela, Kazan. Transmitia-se força, energia, valor, manducando-se carne, cérebro, medula, do vencido ou do parente (endocanibalismo). Integra-se a divindade no fiel pela absorção de seu corpo: teofagia. A hora de alimentar-se é sagrada. Evita-se a palavra suja e o gesto obsceno. Se cai um pedaço é porque algum parente sofre necessidade . Não se deixa o pão no solo. A tradição milenar da mulher cozer a refeição afastava-a da comida com os homens, hábito espalhado pelo mundo inteiro. Em várias regiões (Ásia, Africa, Melanésia e América do Sul) não se olha quem está comendo. Como um ato de purificação (herança de Roma), lava-se a mão antes de comer. Ora-se antes e depois de alimentar-se. Silêncio nas refeições conventuais Deo Gratia. Na Inglaterra, até o toast ao Rei. Os romanos beijavam a mesa. […] Jesus Cristo ou anjo da guarda assistem a refeição. Lugar de honra. . Presidir a comida. Servir-se em primeiro lugar. Não se recusa esmola quando se come. Intervenção religiosa nos tabus alimentares, carne com peixe, frutas com leite, comidas quentes e frias, bebidas durante ou depois da refeição”. (Câmara Cascudo)

Um ato de auto antropofagia que sintetizado Alvissarismo que sintetiza Folclore e Filosofia/Religião está em seu sincretismo original. O Alvissarismo mostrou que os homens primitivos começaram a raciocinar mesclando o real e a realidade, e que a mutação genética que produziu a transformação do macaco em homem teve sua origem no espanto proveniente do roubo do fogo, que promoveu a encarnação do Verbo e o nascimento da linguagem que estruturou o desenvolvimento de tudo aquilo que é próprio aos seres humanos, ou seja, Filosofia, Política, Economia, Moral, Ética, Pedagogia, Direito, Estética e Religião, separando o homem e o mundo, a civilização e a natureza; um acontecimento histórico que envolveu o sincretismo comportamental de três gêneros homos: 1°- O Homem de Trinil (Oceania). 2°- O Homem de Pequim (Ásia) e 3°- O Homem de Neandertal (Europa), e que fundamentou as bases comportamentais do homo sapiens. A Antropologia Alvissarista concebe a raça humana como uma mescla entre o Homem de Trinil, o Homem de Pequim e o Homem de Neandertal. Para o Alvissarismo o nascimento da civilização provém de um acontecimento primordial (o roubo do fogo) que gerou a linguagem que fundamentou a transformação do animal irracional em um animal racional e estruturou a raça humana através de um sincretismo entre esses três gêneros homo. O Alvissarismo apresenta diversos tipos de sincretismo, constituindo-se como uma doutrina cuja estrutura genealógica está baseada na fusão de diferentes filosofias, culturas e religiões, com uma reinterpretação original de seus elementos fundamentais. Desse modo, o Alvissarismo, enquanto sistema de Filosofia, nasce da conciliação entre o pensamento de cinco filósofos: Kant, Lacan, Wittgenstein, Platão e Kardec. Como psicologia, o Alvissarismo nasce da conciliação entre o pensamento de Freud, Jung, Lacan e Kardec. Como Política, o Alvissarismo nasce da conciliação entre a Direita e a Esquerda. Como economia, o Alvissarismo nasce da conciliação entre a capitalismo e o comunismo. E, por fim, como Religião, o Alvissarismo nasce da conciliação entre as diversas revelações de Deus aos homens desde Adão, Noé, Abraão, Moisés, Jesus e Kardec, constituindo-se como uma doutrina sincrética que unifica de forma homogênea o Judaísmo, o Cristianismo e o Espiritismo em uma única religião: o Alvissarismo; que promove  um notório e original sincretismo cultural e religioso entre os mais diversos mitos e lendas do folclore brasileiro e o Cristianismo, unificando os santos e beatos católicos com os mais importantes personagens da Mitologia Brasileira, arquitetando assim a cristianização do folclore brasileiro e a identidade da Religião Alvissarista.

Segundo Antônio Braz Teixeira em apresentação do livro As Filosofias Nacionais do historiador da Filosofia Brasileira Antônio Paim:

“Em sua radicalidade, o problema da filosofia nacional é o problema da filosofia.

Universal no seu anseio e destino, como busca plural e convergente da verdade, sempre e a cada momento recomeçada e posta em causa, interrogação cuja resposta não esgota nem capta de uma vez por todas o perene sentido do existente e suas razões, a filosofia, enquanto tal, isto é, enquanto pensar no homem e do homem, participa da sua própria condição de ser situado no mundo, numa pátria, numa língua, numa cultura, num culto. Individual e nacional no seu ponto de partida e em sua raiz, múltiplo na aventurosa variedade dos caminhos especulativos que se lhe abrem, o filosofar é também e simultaneamente, universal no sentido último da sua indagação e finalidade. Deste modo, contrapor abusivamente ao caráter nacional da filosofia a sua universalidade seria o mesmo que negar à ave o voar só por ter pernas, na feliz imagem de um pensador contemporâneo”.

Se a Filosofia é uma atividade universal, então como poderíamos falar em uma Filosofia Nacional? A identidade nacional da Filosofia Brasileira é uma criação original do Alvissarismo. Antes do Alvissarismo não se podia falar em uma identidade da Filosofia Brasileira propriamente dita.

Uma Filosofia Nacional é estruturada através de uma “cultura do popular, tornada normativa pela tradição. Compreende técnicas e processos utilitários que se valorizam numa ampliação emocional, além do ângulo do funcionamento racional”. (Câmara Cascudo)

A nacionalidade de uma Filosofia é, portanto, uma identidade que o Alvissarismo instituiu através da síntese entre o Folclore e a Filosofia. A Filosofia Nacional nasce, pois, de um postulado e de uma invenção original que institui a razão brasileira dentro de uma identidade nacional. O Alvissarismo é a alma filosófica nacional elaborada pela síntese entre o Folclore e a Filosofia. O Alvissarismo apresenta um conjunto de elementos filosóficos simbólicos e materiais: uma história, uma mitologia, que estabelece uma união com os nossos ancestrais brasileiros; nossos heróis, modelos de virtudes nacionais através do sincretismo original entre os santos e beatos católicos com os principais personagens do folclore brasileiro; através da língua tupi-guarani e do português brasileiro tal como apresentado pelo modernismo.

Os nossos grandes filósofos do Brasil e principalmente o primeiro Filósofo brasileiro da história deste país – Oswald de Andrade – devem possuir pelos quatro cantos do país monumentos culturais em seus nomes, como esculturas, bustos e propagandas incessantes em todos os meios de comunicação, para que sejam aclamados e reconhecidos mundialmente, incentivando o surgimento de novos grandes pensadores, para que façamos do Brasil a nova Grécia. Os pensadores brasileiros não são menores do que os pensadores gregos, franceses, britânicos, americanos ou alemães. Diz-se que o Brasil não tem Filósofos não porque eles não existam, mas sim porque ainda não foram ressuscitados de suas tumbas pelo governo e pelas universidades. As nossas universidades devem ensinar de frente para o nosso próprio país, e não de costas para ele, e aprender a reconhecer nossos grandes pensadores sem que antes eles precisem ser reconhecidos na América ou na Europa – como é o caso de Newton da Costa – e resolvermos essa fixação ideológica e colonialismo edipiano que o Brasil tem com os Estados Unidos e a Europa. Eis a proposta original do Alvissarismo: a independência da Filosofia Brasileira e a sistematização de uma Filosofia nacional.

A identidade nacional da Filosofia Brasileira é um discurso que deve ser estruturado como um sistema formal consistente. Mas como determinar a consistência de uma filosofia nacional se a filosofia é uma atividade universal?

Com base no paradoxo de Russel. Considere o conjunto de filosofias f como sendo “o conjunto de todos os conjuntos que não se contêm a si próprios como membros”. Formalmente: a filosofia representada pela letra f é elemento filosófico do sistema universal representado pela letra U se e só se U não é elemento de U. Em outras palavras, a filosofia é elemento filosófico de  um sistema universal se e só se a filosofia não é elemento de um sistema universal.

                                                                                         U = {f / f Ɇ f}

No sistema filosófico universal, U é um conjunto bem definido de filosofias. A questão a ser resolvida aqui é a seguinte: será que U se contém a si mesmo? Se sim, não é membro de U de acordo com a definição. Por outro lado, supondo que U não se contém a si mesmo, tem de ser membro de U, de acordo com a definição de U. Desse modo, as afirmações “U é membro de U” e “U não é membro de U” conduzem ambas a contradições, levando-nos ao teorema da incompletude de Gödel como sendo o fundamento da questão fundamental da existência ou não de uma Filosofia Nacional.

Deste modo, fica definido que qualquer filosofia não pode ser ao mesmo tempo, universal e nacional. Ou seja, sempre há em um sistema filosófico universal proposições verdadeiras que não podem ser universal nem nacional, já que uma filosofia universal pode provar sua própria universalidade se, e somente se, for nacional. Em outras palavras: uma filosofia pode provar sua nacionalidade se, e somente se, for universal.

O Alvissarismo representou na história da filosofia no Brasil a primeira experiência de um sistema filosófico universal por ser nacional. No Alvissarismo a nação brasileira é vista como uma família com o propósito de se regenerar e se religar a Deus, acima das classes, regiões e raças. O Alvissarismo fez com que o Brasil adquirisse uma consciência de unidade e identidade através da síntese entre a Filosofia e o Folclore, tendo, ao mesmo tempo, consciência explícita da sua diferença em relação às outras filosofias, possuindo assim uma alteridade filosófica própria. O grande Outro (no sentido lacaniano) da criação da identidade filosófica brasileira ou sua nacionalidade é a Europa ou pensamento filosófico europeu: Kant, Lacan, Wittgenestein, Platão e Kardec. Se por um lado a constituição da nação brasileira possui o problema de ter tido sua independência declarada por um príncipe português, isto é, um estrangeiro, por outro lado a constituição da razão brasileira não possui este problema, pois sua independência declarada no dia 04 de julho de 2015, através do Manifesto Alvissarista, não possui este problema, pois fora declarada por um brasileiro nato, um brasileiríssimo, um mineiro que diz “uai” e “banzerá”, e principalmente, por um “Filósofo Autodidata”, sem qualquer vínculo com a academia brasileira de filosofia e nem universidades, provocando uma ruptura revolucionária na história da Filosofia no Brasil, construindo, pela primeira vez, não só uma Filosofia Brasileira, mas também uma Filosofia Tupiniquim.  

No trabalho de constituição de uma Filosofia Nacional como uma Filosofia Brasileira e Tupiniquim, Oswald de Andrade teve um papel fundamental. Tupi or not Tupi? Esta é a questão existencial levantada por Oswald de Andrade que provocou uma completa ruptura na história da Filosofia no Brasil, fazendo surgir, pela primeira vez na história, o princípio vital de uma Filosofia Brasileira, e não mais uma Filosofia no Brasil. Assim como Deus soprou o fôlego da vida nas narinas de Adão, Oswald de Andrade soprou o fôlego da razão nas narinas do Brasil, e o Alvissarismo mostrou que o primeiro espírito a encarnar na terra foi Jesus Cristo, que é o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, o primeiro espírito a encarnar na terra no corpo do Pai primevo de Pequim, que é o próprio Adão, o primeiro homem ou o primeiro macaco a se tornar homem com a aquisição da linguagem promovida pelo roubo do fogo.

 

 

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