Minha Internação

Meu nome é Thiago de Paiva Campos. Bem, agora eu vou contar para vocês um pouco da minha história pessoal e da minha primeira e última internação em uma das mais caras e “melhores” clínicas de recuperação de álcool e drogas de todo o Brasil, e como essa experiência modificou completamente a minha visão sobre o problema da adicção e gerou em meu espírito uma revolta tão grande que me fez despertar para o problema da adicção e suas formas de tratamento, fazendo como que eu tomasse para mim a missão de sistematizar a ideologia de uma narcorreforma, tal como propusemos no livro Narcorreforma.

Eu venho de uma família com um grande número de problemas com depressão, alcoolismo e drogadicção; herdei de meus ancestrais familiares o gene dominante tanto da depressão como da drogadicção. Como eu costumo dizer, se eu passasse pela vida sem sofrer de depressão e drogadicção seria um milagre devido ao fato de eu carregar em meu DNA uma carga genética dominante de depressão e drogadicção. Minha depressão é conhecida como distimia, que é um tipo de depressão leve, porém crônica; eu a carrego na alma desde a mais tenra infância, e na adolescência, ao ter contato com as drogas, consegui com elas aliviar a tristeza mórbida que sentia nas profundezas de meu espírito. Portanto, a minha drogadicção era realizada exclusivamente com a finalidade de suportar minha depressão. Não vou entrar em detalhes aqui sobre quais eram minhas drogas de escolha ou preferência porque isso não tem a menor importância para o propósito deste trabalho. Minha função aqui por à luz a experiência da minha internação e o que me levou a despertar para a missão de dedicar-me a propor uma narcorreforma.

Minha internação foi absolutamente voluntária; na verdade eu nunca tive grandes problemas com drogas, mas nos últimos tempos de minha vida minha depressão aumentou exponencialmente, e eu acabei por recorrer mais intensamente às drogas de minha preferência para suportá-la e não sucumbir ao suicídio. Quando pedi ajuda à minha família, em especial ao meu irmão Heriquissandro de Paiva Campos para me acolher e me ajudar a me tratar, o meu maior desafio era conseguir me manter vivo, pois meu quadro depressivo chegou a tal estágio que eu só conseguia dormir, e levantar da cama para abrir a geladeira e escolher algo para comer era mais difícil do que se eu tivesse que pular de um avião. Resolvi então procurar uma clínica especializada em depressão e drogadicção. Não vou citar aqui o nome da clínica porque o objetivo deste trabalho é promover a idealização de uma narcorreforma, e não o de fazer uma denúncia direta à clínica (já que eu sei que isso será feito por outros internos e ex-internos mais cedo ou mais tarde), que, na verdade, apesar de todos os defeitos, é um paraíso perto da maioria das clínicas de recuperação do Brasil.

Existem dois tipos de clínicas de reabilitação para dependentes químicos (as abertas e as fechadas), esta clínica em especial era uma clínica “aberta”, no entanto, seu dono (o qual não citarei o nome porque o objetivo desse trabalho não é de denuncia, mas sim de reforma, como disse anteriormente) tinha uma filial fechada numa cidade próxima, e esta filial era temida por todos os internos da clínica “aberta”, já que esta não passava de uma fachada para a primeira, onde ocorriam os maus-tratos e os atos de desumanidade mais cruéis e abomináveis já imaginados, dos quais não falarei os detalhes ouvidos de testemunhas que por lá passaram por respeito ao leitor e para não promover em ti – caro leitor – ânsia de vômito e pesadelo. A crueldade e os maus tratos ocorridos dentro de clínicas de recuperação para dependentes químicos é o segundo ponto crítico que levaram o presente autor a sistematizar uma narcorreforma. Dentro de clínicas abertas é mais raro acontecer crueldade e maus-tratos aos internos. No caso desta clínica em especial, os maus-tratos eram ocorridos na filial que era uma clínica fechada. Eu pessoalmente consegui sair da clínica “aberta” antes que me levassem para a clínica fechada, já que, quando percebi como a coisa funcionava, não me calei e expus as falhas da diretoria, dos monitores, terapeutas e do dono a todos os internos, tornando-me assim um alvo para os diretores e odiado por todos da diretoria, com exceção de um terapeuta – que não era o meu terapeuta pessoal da clínica – mas que de fato se tornou um grande amigo e muito me ajudou lá dentro. O meu terapeuta pessoal da clínica, durante os dez dias em que estive internado (já que eu consegui sair da clínica antes dos três meses programados no contrato de admissão por medo de ser levado para a clínica fechada e sofrer maus tratos como vi outros colegas sofrerem e testemunharem o mesmo depois de voltarem da clínica fechada), em nenhum momento sentou para conversar comigo. Vocês conseguem conceber um terapeuta que, apesar de muito educado, sequer senta para conversar com seu paciente que sofre de uma depressão crônica e tem a drogadicção como comorbidade proveniente da depressão?

Apesar de a clínica ser aberta e na entrada os diretores dizerem que quem quiser pode ir embora, se algum interno fugir ou causar algum alvoroço lá dentro, das duas uma: ou ele é capturado pelos brutamontes da clínica e posteriormente levado para a clínica fechada para sofrer horrores e maus tratos (durante o período de dez dias que estive internado nesta clínica “aberta” dois internos fugiram), ou ele fica na clínica “aberta”, mas é obrigado a tomar um “Danoninho”. Acaso algum de vocês sabe o que é um “danoninho”? Bem, um “danoninho” é um coquetel de drogas fortíssimas que fazem com que o sujeito fique apagado por muitas horas, às vezes um dia inteiro ou até dois dependendo da dose. Eu mesmo não cheguei a experimentar o “danoninho” porque durante todo o tempo que permaneci na clínica agi como um cordeirinho e joguei as regras do jogo para não ser mandado para a clínica fechada e sofrer maus-tratos, mas o meu colega de quarto, que além de ser adicto era também esquizofrênico, só de pensar em fugir, fora obrigado a tomar um “danoninho” durante dois dias seguidos. O coquetel de drogas era tão forte, promovendo um completo relaxamento muscular, que ele acordou horas depois com o colchão encharcado de urina, e ainda deu sorte de não ter defecado, o que em geral acontece. O que ele fez? Totalmente grogue tirou o colchão do quarto, levou para fora para secar e voltou para a cama para dormir mais horas e horas, porém agora no estrado puro, sem colchão nem coberta, porque ambos estavam fedendo a urina.

Quando eu fui para clínica, acabei esquecendo o meu travesseiro; durante alguns dias dormi fazendo meu cobertor de travesseiro, mas isso me causou muitas dores nas costas. No meio desse tempo, um dos meus amigos internos resolveu me doar um travesseiro para que eu pudesse parar de sofrer com as dores nas costas; ele assim o fez por havia comprado dois travesseiros novos quando voltou da clínica fechada para onde fora levado depois de ter um surto psicótico dentro da clínica “aberta”, já que o seu travesseiro estava todo manchado de sangue, posto que tivesse levado pauladas na cabeça. Este mesmo sujeito recebeu nesta clínica a visita do dono da clínica, que é um adicto em recuperação que diz estar limpo há oito anos e que se diz cristão. O que o dono da clínica fez segundo o testemunho deste companheiro? Absolutamente nada, não demitiu seus jagunços, que em geral, em clínicas fechadas, são ex-policiais, seguranças ou carcereiros fazendo bico para sobreviver e sustentar suas famílias e não técnicos em dependência química preparados para lidar e recuperar os internos que sofrem na miséria da adicção, e nem sequer pediu perdão, apenas esperou que os hematomas diminuíssem para depois levar o companheiro novamente para a clínica “aberta” para receber a visita dos familiares.

O mesmo dono da clínica depois de todos esses acontecimentos dera uma palestra na clínica “aberta”, fazendo-se o mais disponível, o mais filantropo e o mais “cristão” de todos os homens, dizendo que é contra maus-tratos e internações de longo prazo, bem como os monitores que trabalham para ele, se dizem “cristãos”, mas vendem a alma ao diabo compactuando com toda essa falsidade, hipocrisia, crueldade e falsa cristandade, tornando-se verdadeiros fariseus. As internações de longo prazo dentro de clínicas de recuperação para dependentes químicos é o terceiro ponto crítico que levaram o presente autor a sistematizar uma narcorreforma, pois tais internações promovem um fenômeno psicossocial denominado de institucionalização. A narcorreforma inclui centros de atenção psicossocial (CAPS), deve instruir o adicto e seus familiares sobre a doença, promovendo um melhor entendimento da patologia do adicto e dos laços familiares, primeiro porque é impossível lutar contra uma doença que não se conhece, e segundo porque, dentro desta clínica percebi que o adicto é apenas um sintoma de uma família emocionalmente desestruturada; é raríssimo encontrar um adicto cuja família é bem estruturada emocionalmente, pois a adicção não escolhe raça, credo ou situação financeira ou social, ela existe por conta da prevalência do gene da adicção que se manifesta de forma dominante em alguns e de forma recessiva em outros. Se o sujeito herda de seus pais, avós e bisavós o gene dominante da adicção e não o gene recessivo, e vive num ambiente familiar emocionalmente desestruturado, a probabilidade de ele não se tornar um dependente químico é praticamente nula. Para vocês terem ideia de como a existência de centros de atenção psicossocial (CAPS), é de suma importância para o adicto e seus familiares, na clínica que permaneci internado conheci algumas pessoas cujos próprios genitores iam até a “biqueira” para comprar a droga de escolha para o filho adicto, permitindo que ele usasse a droga somente em casa e não permitindo que fosse por conta própria até a “biqueira” por medo de que o filho tivesse algum problema com a polícia, vindo a ser detido ou preso por portar drogas, ou por medo de que o filho se envolvesse com o crime organizado ou tivesse alguma desavença com o traficante ou algum outro usuário. A própria mãe ia até a “biqueira” comprar a droga para o filho. Vocês conseguem imaginar isso?

A institucionalização é o termo que nós utilizaremos para descrever os prejuízos causados aos adictos internados por logos prazos em clínicas de recuperação para dependentes químicos. Dentro desta clínica eu conheci pessoas que tinham três, sete, doze, dezenove, cinquenta e, pasmem; até mesmo cento e oitenta internações em uma vida toda; pessoas que vivem saindo de uma clínica para outra, ou pessoas que, quando saem, em menos de uma semana ou um mês pedem para voltar porque já estão internadas há tanto tempo, três meses (que eles julgam ser o básico), seis meses (que eles chamam de intensivo), e outro por anos a fio, simplesmente por se acostumaram com aquela situação de confinamento que não conseguem mais viver em sociedade, e outro, talvez a maioria, estão simplesmente tirando férias, já que a clínica possui área de lazer, comida, bebida (não alcóolica), piscina, campos e quadras de futebol, ou seja, muitos dos internos estão ali simplesmente tirando umas férias num grande hotel fazenda, pois esta clínica em especial era um hotel fazenda que foi adaptado para clínica de reabilitação em álcool e drogas, mas a questão é que ela continua sendo um hotel fazenda, onde não há a menor estrutura fundamental e básica para uma verdadeira recuperação da doença da adicção; pois, imagine uma clínica com quase noventa internos onde só existem duas psicólogas, que por melhores que poderiam ser jamais dariam conta de tratar adequadamente a todos os internos; um psiquiatra arrogante e prepotente que aparece de quinze em quinze dias e dá uma consulta ridícula no meio de outras pessoas dentro de uma enfermaria e não faz mais do que simplesmente receitar outras drogas, sem qualquer estrutura para que se possa dar um diagnóstico correto da patologia para receitar tal droga, podendo facilmente trocar gato por lebre, receitando medicamentos que não são adequados à patologia do adicto. Muitos dos internos institucionalizados fazem das clínicas de recuperação para dependentes químicos uma incubadora onde se mantém em posição fetal, escondendo-se do mundo e sendo incapazes de retornar à vida em sociedade; outro se mantém internados mesmo já tendo cumprido seu tempo de programação inicial por medo de recaírem nas drogas, preferindo assim pagarem para trabalhar nas clínicas e se manterem internados porque assim continuam se mantendo limpos. Outros internos moram dentro da clínica e trabalham para o dono para pagarem sua internação, e outros internos moram na clínica e recebem do dono porque ele os socorreu, pois tais pessoas já perderam absolutamente tudo para as drogas, em especial o crack, se tornaram mendigos, trecheiros, não tem o que comer nem aonde habitar, então ficam morando dentro da clínica e trabalhando para o dono, tornam-se limpos das drogas, mas se mantém escravos do dono por uma questão de dívida moral, fazendo assim o que o dono manda e compactuando com os maus-tratos e as crueldades ocorridas na clínica fechada. A institucionalização de adictos em clínicas de reabilitação para dependentes químicos é, portanto, uma aplicação opressiva e corrupta de um sistema de controle mental e social que estão ligadas às chamadas instituições totais descritas por Erving Goffman em seu livro Manicômios, Prisões e Conventos, donde podemos afirmar que as clínicas de reabilitação para dependentes químicos controlam ou buscam controlar a vida do adicto a ela submetido voluntaria ou involuntariamente destruindo todas as possibilidades de integração e interação social com o mundo externo, optando, por conta própria de um mecanismo de sobrevivência, se encasular dentro da clínica ao invés de enfrentar o mundo lá fora, por medo de recair nas drogas ou por estar, dentro da clínica, na sua zona de conforto, da sua incubadora ou útero materno, reduzindo-se a um processo psíquico interno de regressão à infantilidade, a uma condição existencial pré-natal.

Eu me baseio em minha experiência própria de internação em uma clínica de reabilitação para dependentes de álcool e outras drogas; internação esta que acabou servindo-me de trabalho de campo. Nesta obra, eu desenvolvo, a partir da análise in loco, uma interpretação do conceito de instituição total trazido pelo  cientista socialantropólogo, sociólogo e escritor canadense Erving Goffman com o propósito de chegar a uma visão sociológica da estrutura formal da personalidade, da identidade e do Eu.

O que é uma instituição total segundo Gofman? Uma clínica de reabilitação em álcool e drogas é uma instituição total? No primeiro ensaio do livro Manicômios, Prisões e Conventos (o qual eu tive acesso pela primeira vez quando ainda era um estudante de psicologia por um jovem professor muito querido chamado Alex Fernandez), Gofman nos aponta o fato de que todas as instituições totais tem tendência de “fechamento”, tomando tempo e interesses dos internos. Mas aí vocês irão perguntar: mas e as clínicas para dependentes químicos que são abertas? Ora, com a minha experiência in loco pude facilmente perceber que, mesmo as clínicas chamadas de “abertas” não deixam de ser fechadas, pois qualquer pessoa que tentar fugir será resgatada e isolada novamente, ou qualquer pedido de saída da clínica será imediatamente negado. O meu caso foi um caso particular porque eu acabei me tornando um problema para o dono e a diretoria da clínica, de modo que eles perceberam que era melhor para eles que eu saísse de uma vez de lá antes que eles fossem obrigados a me enviar para a clínica fechada por promover a reflexão dos internos no que se refere a todas as mazelas do “tratamento” proposto pela clínica.

Uma clínica para dependentes químicos, seja ela “aberta” ou fechada, é uma instituição total porque nas clínicas, o fechamento e a exclusão social são extremos, ou seja, o sujeito é totalmente privado das relações com o mundo externo, havendo regras, proibições e barreiras, físicas, psicológicas e sociológicas, impedindo a saída dos internos ou restringindo, no caso de clínicas “abertas”, sua saída por sua livre e espontânea vontade.

Gofman divide as instituições totais em cinco tipos: instituições para cuidar de pessoas inofensivas (asilos, casas para órfãos, etc.); instituições para cuidar de pessoas que não são capazes de cuidar de si mesmas e que também são uma ameaça à comunidade, ainda que não intencionalmente (sanatórios para tuberculosos, leprosos e doentes mentais); instituições para proteger a comunidade de perigos intencionais (cadeias, penitenciárias, campos de prisioneiros de guerra); instituições voltadas para a realização de algum trabalho de forma mais profícua (quartéis, navios, campos de trabalho, escolas internas); e, por fim, instituições voltadas para servir de refúgio do mundo (abadias, mosteiros). Mas e as clínicas de reabilitação para alcoólatras e dependentes químicos, se enquadram em qual dos cinco tipos de instituições totais descritos por Gofman? Bem, segundo minha experiência in loco, pude perceber que as clínicas para dependentes de álcool e outras drogas são uma mistura ou síntese de instituições para cuidar de pessoas que não são capazes de cuidar de si mesmas e que também é uma ameaça à comunidade, ainda que não intencionalmente, e instituições voltadas para servir de refúgio do mundo, resumindo-se a uma comunidade ou organização formal que se assemelham à incubadoras ou úteros maternos para mudar a personalidade, a identidade e o Eu do ser humano interno, tendo seu Ser mortificado e alterado através do conflito entre o mundo interno e o mundo externo, buscando o completo rompimento com o mundo externo, construindo no sujeito uma nova identidade através da degradação moral, castigos ou mutilações físicas, morais ou psicológicas promovida pelas diversas autoridades da clínica, como a diretoria, a monitoria e o proprietário, para que se deva respeitar a disciplina, aumentando a possibilidade de castigos, diferindo-se do mundo externo, onde em geral há uma única autoridade a ser seguida, seja o pai, no caso da família, o chefe, no caso do trabalhou ou o prefeito, governador ou presidente, no caso da política e da vida social, onde as outras autoridades não estão constantemente presentes.

Posteriormente à mortificação da personalidade, da identidade e do Eu, a clínica promove uma sistemática reorganização do interno, composta por regras da clínica acerca da conduta do interno, privilégios ou recompensas por obediência do interno às regras da clínica, e castigos aplicados aos internos que desobedecem as regras da clínica. Deste modo, o recém-chegado busca, para se adaptar à sua nova situação no mundo, o afastamento de conflitos entre os internos, a intransigência e a conversão às regras da clínica, buscando ter um comportamento exemplar ou agir como um cordeirinho, tornando-se assim colonizado pelo poder da clínica, que acaba fazendo com que o sujeito pense que o mundo interno é melhor do que o mundo externo, dando a ele a falsa noção de pertencimento ou irmanação a um grupo do qual ele se identifica. Isto é um fato que eu constatei in loco, onde muitos internos que já cumpriram seu tempo de tratamento acabam ou trabalhando de modo formal para o dono da clínica, ou pagando para continuar na clínica, trabalhando ou não, ou saem do que eles chamam de “ressô”, que é uma ressocialização, onde o interno sai da clínica e depois de alguns dias volta para ela; outros, mesmo sem estar de “ressô”, saem, ficam alguns dias e voltam implorando a diretoria para continuar dentro da clínica por não conseguirem mais viver no mundo externo ou por medo de recair nas drogas no mundo externo. Pagando ou trabalhando de graça, que dono de clínica irá ser contrário a isso? Para a grande maioria deles o que fato importa é o dinheiro como já vos disse anteriormente, por mais que se moldem em uma capa de santidade e filantropia, a verdade que a grande maioria dos donos de clínicas para dependentes químicos são verdadeiros lobos em pele de cordeiros, fariseus hipócritas que se alimentam da doença do Outro.

O que a minha experiência prova é que muitos internos em clínicas para dependentes químicos, ao saírem da clínica, possuem extremas dificuldades em se readaptar ao mundo externo, além de se tornarem sujeitos marcados para o resto de suas vidas pelo estigma da drogadicção. Gofman nos diz que o sujeito “pode descobrir que a liberação significa passar do topo de um pequeno mundo para o ponto mais baixo de um mundo grande.” (p. 68). Eis porque muitos internos saem e voltam para as clínicas, fazendo delas suas moradas na terra. Na clínica onde fiquei internado somente por dez dias (graças a Deus), havia uma caso bizarro de um ex interno que pagava para ficar na clínica todos os fins de semana, ou seja, ele levava sua vida normalmente fora da clínica, mas na sexta feira ia para lá e ficava até no domingo, onde depois voltava para o mundo exterior para na segunda feira dar continuidade à sua vida no mundo externo.

Muitas clínicas para dependentes químicos (não era o caso desta em especial, que parecia mais uma colônia de férias) se caracterizam por aquilo que Gofman nos diz: “Quase sempre, muitas instituições totais parecem funcionar apenas como depósitos de internados, mas, usualmente se apresentam ao público como organizações racionais, conscientemente planejadas como máquinas eficientes para atingir determinadas finalidade socialmente confessadas e aprovadas. O objetivo oficial é a reforma dos internados na direção de algum padrão ideal. Esta contradição entre o que a instituição realmente faz e aquilo que oficialmente deve dizer que faz, constitui o contexto básico da atividade diária da equipe dirigente.” (p. 69).

Por fim, o que minha experiência prova é que as clínicas para dependentes químicos possuem uma justificação social para sua existência, mas na verdade a relação interno-clínica é camuflada numa relação fornecedor-consumidor, sendo as sanções promovidas pela clínica nada mais do que formas de reparação da personalidade, da identidade e do Eu, não sendo as reclamações dos internos levadas à diretoria encaradas de forma legítimas, mas tão somente como formas de sintoma ou desajuste ao tratamento. Para vocês terem ideia, quando chegou o dia de eu poder ligar para minha família, havia ao meu lado para ouvir toda a ligação uma psicóloga e um dos monitores, para monitorar tudo o que eu falava sobre minha situação na clínica. A forma que eu arranjei para poder pedir ao meu irmão para me tirar de lá o quanto antes porque não achava a clínica adequada para tratar minha depressão e drogadicção por diversas defasagens no modelo de tratamento da clínica foi dizer a ele: faça as perguntas certas para que eu possa responder com sim ou não; então através desse código binário eu lhe disse tudo o que estava acontecendo e expus o fato de a clínica ser mais uma colônia de férias do que um lugar de reabilitação para dependentes químicos, e que minha depressão, que era a fonte da minha drogadicção, estava aumentando e não sendo tratada em momento algum.

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