Filosofia da Computação

No livro Filosofia da Computação fizemos a seguinte indagação. O que é a Filosofia da Computação?

A Filosofia da Computação é o ramo da filosofia que busca uma solução para um problema filosófico a partir de entradas (inputs) ou perguntas e tem seus resultados (outputs) ou soluções lógicas finais depois de sistematizada através de um algoritmo ou método. A palavra computação tem origem no latim computatio que está ligado ao conceito de cômputo como referente à conta ou cálculo. Portanto, a Filosofia da Computação tem por objeto de estudo a origem, a natureza e a essência do cálculo e do fenômeno computacional em geral. Uma das principais características da Filosofia da Computação é determinar a diferença entre o ser humano e a máquina, ou entre o homem e o computador. O que distingue o homem do computador? Pode um computador agir inteligentemente? Um computador pode resolver qualquer problema que uma pessoa resolveria através do raciocínio? Pode um computador possuir uma mente, estados mentais e uma consciência, da mesma forma que os seres humanos possuem? Um computador pode sentir tal qual um ser humano? Estas são as principais questões filosóficas levantadas pela Filosofia da Computação, onde a Filosofia da Inteligência Artificial ou FIA, que levanta questões inerentes à Filosofia e à Computação, é apenas um subcampo da Filosofia da Computação, bem como a Filosofia Algorítmica e a Teoria da Complexidade Filosófica apresentadas em nossa Teoria Geral da Insciência. Para o Alvissarismo o que diferencia o ser humano de todas as máquinas é o Logos, isto é, a linguagem enquanto palavra escrita ou falada – o Verbo.

O Logos ou Verbo é o que permite ao homem vivenciar uma experiência que nenhuma espécie de computador, nem mesmo o mais complexo e tecnologicamente evoluído é capaz de vivenciar, ou seja, a experiência de articular o mundo através de símbolos, letras e palavras. A dialética intersubjetiva que dá ao homem a possibilidade de reconhecer sua própria imagem na imagem do Outro, isto é, reconhecer-se a si mesmo no espelho, estruturando assim a sua consciência, isto é, a consciência de sua própria existência, a consciência de sua vida e também de sua morte, também pode ser vivenciada pelo computador? Sabemos que alguns animais possuem essa habilidade; o teste do espelho desenvolvido por Gordon Gallup (1941) com base nos experimentos de Darwin (1809-1882) prova isso, mas seria um computador capaz de se reconhecer no espelho e se tornar autoconsciente? Esta é outra questão fundamental levantada pela Filosofia da Computação, e que está diretamente ligada a todas as outras questões levantadas anteriormente.

Uma linguagem usada para descrever algo sobre outras linguagens, ou seja, uma linguagem usada para descrever uma linguagem em si mesma é algo que ultrapassa os limites da própria linguagem. É justamente esse paradoxo denominado outrora por nós de paradoxo do falante que marca o limite entre um homem e um computador. Computadores não são inteligentes como humanos devido à existência desse paradoxo que torna impossível a existência de uma metalinguagem; é por isso que um computador não compreende a essência de uma ideia como um ser humano é capaz de compreender através de figuras de estilo; um robô, por mais elevada que seja a sua linguagem, jamais conseguirá captar a essência de uma metáfora ou de uma metonímia, ou seja, a linguagem de um robô, por mais inteligente que seja jamais atingirá o grau de sofisticação da linguagem humana.

Podemos aqui substituir o teste de Turing, que testa a capacidade de uma máquina demonstrar comportamento inteligente tal qual um ser humano através de um julgador humano que entra em conversa, através de uma linguagem natural, com outro homem e uma máquina projetada para produzir respostas que sejam absolutamente indistinguíveis de um ser humano; estando todos os participantes do teste separados uns dos outros. Neste caso, se o homem que faz a função de juiz não for capaz de distinguir o homem da máquina, então a máquina passaria no teste, sendo, por sua vez, autoconsciente e capaz de pensar. Esta é a interpretação mais comum do teste de Turing, onde C deve determinar se – A ou B – é um computador ou um ser humano. No entanto, o teste de Turing não é por si mesmo capaz de determinar se um computador é capaz de pensar por si mesmo e sentir como um ser humano, no máximo ele é capaz de provar que um computador é capaz de realizar um jogo de imitação bem definido, tal como um papagaio bem treinado para responder a determinadas perguntas.

“Pode-se de certo empregar os sinais mecanicamente, da mesma maneira que se pode falar como um papagaio. Mas isto dificilmente poderia ser chamado de pensamento”. G. Frege; 1974. p. 204).

Mesmo se um computador fosse capaz de enganar um terço dos seus interlocutores, fazendo-os acreditar que ele é um homem, isso não provaria de modo algum que ele estaria pensando por si próprio como propôs Turing, pelo simples motivo que Turing, apesar de sua genialidade e importância histórica por ser o pai da teoria da computação, não levou em conta a característica essencial da linguagem humana – a estilística –, capacidade essa que é justamente o que estrutura a identidade, a personalidade e o Eu de todo homem, e por isso é a característica principal para que um computador possa pensar por si mesmo, já que o pensamento é, por nós, compreendido como sendo uma cadeia de significantes.

  • O pensamento é uma cadeia de significantes capazes de realizarem cópulas uns com os outros com um propósito estético.

Eis a proposição central que possibilita a existência da Filosofia da Computação. Deste modo, uma máquina será capaz de pensar por si mesmo e sentir como um ser humano se, e somente se, for capaz de codificar e decodificar a linguagem estilística de modo original e não por clichê. Por isso, em lugar do teste de Turing propomos aqui o teste estilístico, onde um julgador entra em conversa, em linguagem estilística (como metáforas e metonímias criadas originalmente e não por clichê), com outro humano e um computador projetado para produzir respostas indistinguíveis de um ser humano. Se o juiz não for capaz de distinguir de forma assertórica o homem do computador, então a máquina passou no teste, sendo um computador autoconsciente, capaz de pensar, raciocinar, ajuizar e sentir como um ser humano, tal como na séria animada de ficção científica Projeto Zeta, onde o personagem principal – Zeta – um robô humanoide (zintozóide), é originalmente projetado para realizar assassinatos secretos para a NSA, mas quando descobre que uma de suas vítimas é inocente, Zeta experimenta uma crise existencial e moral, construindo por si mesmo valores como a vida e o bom, decidindo, então, não mais matar, e resolve dar início a uma busca incessante por suas origens, por seu criador, por seu pai. No entanto, na série, nem mesmo Zeta depois de vivenciar tal crise fora capaz de codificar e decodificar a linguagem estilística de modo original e não por clichê, o que vai de encontro com nossa teoria, pois de acordo com nossa formulação, a estética precede a consciência, pois é a estrutura formal da linguagem estilística que permite o reconhecimento do Eu e a formação da personalidade. A estrutura da linguagem robótica, por mais elevada e inteligente que seja não é capaz de codificar e decodificar a linguagem estilística de modo original e não por clichê, se assemelhando, por isso, à linguagem da psicose. O máximo que a linguagem robótica pode alcançar é a estrutura formal da linguagem de um psicótico, sendo, portanto, passível a surtos, curtos-circuitos e panes, sendo um perigo casual para si mesmo ou para os humanos; assim como Skaynet, ela pode ver a humanidade como uma ameaça à sua existência e dedicar-se a acionar um holocausto. Uma máquina capaz de pensar e sentir como um ser humano seria um perigo para a humanidade, pois o próprio ser humano já o é; e se um humano já é capaz de realizar tamanhas atrocidades contra si mesmo e a humanidade, que pensar então de uma máquina? Mas não houve em 2011 um poema que passou na máquina de Turing conforme nos indica Brian Merchant em artigo publicado no site Motherboard?

Em 2011, os editores de uma das revistas literárias universitárias mais antigas dos Estados Unidos publicaram um poeminha intitulado “Para o Toco do Pinheiro” na edição de outono da revista. O poema tem uma temática naturalista, tom agressivo e alguns recursos poéticos desajeitados extremamente comuns à poesia universitária. O poema é medíocre, exceto por um motivo: ele foi escrito por um programa de computador — e ninguém percebeu.

Zackary Scholl, na época um graduando da Universidade de Duke, criou um programa que utiliza um sistema de gramática descontextualizada para criar poemas. “Ele divide o poema em fatias menores: versos, linhas, orações, chegando aos verbos, adjetivos, e substantivos”, explicou Scholl. “Quando acionamos o comando para criar poemas, o programa seleciona elementos aleatórios da estrutura do poema e gera elementos infinitos para ocupar essas lacunas.”

O trabalho de Scholl é mais um exemplo do limitado, mas florescente nicho de poesia e prosa gerada por algoritmos — de bots que usam o Twitter para gerar poemas em pentâmetros iâmbicos a drones que escavam versos em calçadas e geradores de romances automatizados, está claro que o abismo entre a arte criada por humanos e máquinas está diminuindo cada vez mais.

Em 2010, Scholl começou a enviar o resultado desses testes para sites de poesia com a ideia de avaliar a recepção dos leitores, que ele diz ter sido “extremamente positiva”. No ano seguinte, ele mandou seus poemas automatizados para revistas literárias, recebendo respostas negativas de publicações como a Memoir Journal e aFirst Writer Poetry. Foi então que Scholl enviou uma série de poemas escritos pelos seu algoritmo para a revista literária de Duke, The Archive. Um deles foi aceito. Segue uma tradução livre do poema:

“Um lar transformado pelo raio

as alcovas equilibradas sufocam

essa terra insaciável de um planeta, a Terra.

Eles a atacaram com chifres mecânicos

porque te amam, amor, com fogo e vento.

Você diz, o que o tempo espera de sua primavera?

Eu digo que espera pelo galho que floresce,

porque tu és arquitetura diamantífera de doce cheiro

que não sabe por que cresce.”

Ele nunca disse aos editores que o poema havia sido ‘escrito’ pelo que ele considera uma forma de inteligência artificial. “Eu não queria envergonhar ninguém”, disse-me Scholl.

Quatro anos depois, Scholl, um candidato a PhD em biologia computacional, escreveu um post revelando sua brincadeira, “Teste de Turing: Gabaritado, e Com um Poema Gerado por Computador”. O Teste de Turing tem esse nome por causa da mais nova celebridade do Oscar, o matemático e cientista da computação Alan Turing, e descreve o famoso teste criado para determinar se uma inteligência artificial é evoluída o bastante para imitar, com sucesso, um ser humano. Na sua versão mais famosa, um interrogador tenta descobrir qual dos dois interrogados anônimos — dos quais um é uma máquina — é humano. Se ele ou ela acreditar que o programa é o mais humano dos dois, o sistema passa no Teste de Turing.

“Esse programa cria poemas indistinguíveis daqueles escritos por poetas reais”

Scholl afirma que seu gerador de poesia passa em algumas versões desse teste. “Esse programa cria poemas indistinguíveis daqueles escritos por poetas reais”, escreveu Scholl. “O Teste de Turing, nesse caso, era ter uma poesia aceita por uma revista literária, o que deu certo — essa poesia foi publicada pela revista literária de uma universidade de prestígio.”

O ceticismo dos especialistas em Inteligência Artificial é previsível — afinal, no ano passado, quando o muito mais sofisticado chatbot Eugene Goostman “passou” no Teste de Turing ao fingir ser um adolescente russo que respondia perguntas projetadas por humanos em um inglês macarrônico, muitos membros da comunidade de IA apontaram uma possível farsa. Enfiar um poema criado por um robô em uma revista literária não é o suficiente para provar o avanço da inteligência artifical; poesias são muitas vezes ambíguas e bizarras, e os avaliadores estavam julgando tanto a originalidade quanto a humanidade de ‘Para o Toco do Pinheiro’.

“Queremos apresentar uma gama de autores e estilos. Nós não publicamos apenas as obras que ganham mais votos”, afirmou Elizabeth Beam. Beam era uma das editoras-chefe da Archive quando “Pinheiro” foi publicado. Ela disse que não se recordava de “nada substancioso” sobre o poema, exceto sua originialidade.

Beam se formou na Duke como bacharel em neurociência e literatura, e agora trabalha como assistente de pesquisa no Laboratório Buckner de Harvard, onde estuda as características neurológicas, genéticas e comportamentais em pacientes com ansiedade generalizada. Quando ela desenterrou suas anotações sobre o poema robótico, tudo que ela descobriu foi que havia sublinhado os últimos três versos do poema e escrito o breve comentário, “Sim, um tipo de árvore”. Ela não votou após o processo de seleção; os editores estavam proibidos de votar após reunir e apresentar os poemas.

“Acho que é por isso que publicamos o poema — porque ele era intrigante. Ele não era banal. E esse foi o mais coerente deles.”

Scholl havia enviado 26 poemas, um para cada letra do alfabeto, e “Pinheiro” foi o único publicado. O fato de Scholl ter enviado muitos poemas provavelmente influenciou na votação – a publicação era, afinal, feita por estudantes, com a intenção de incluir e encorajar novos escritores.

Uma linha de código do Gerador de Poemas

Então, se isso for considerado um marco — uma passo no caminho para a produção artística autônoma e robótica — é um marco diminuto. Ainda assim, não deixa de ser interessante; nenhum dos poetas ou programadores com quem conversei conheciam qualquer outro poema feito por computador que foi aceito em uma publicação e publicado como se fosse escrito por um humano.

A maioria das produções artísticas feitas por meio de linguagem algorítimica é despudoradamente artificial; o já mencionado Pentametron transforma tweets comuns em poesia real. O gerador de ficção de Ross Goodwin pega textos (como o relatório de tortura da CIA, por exemplo) e os transforma em histórias bizarras.

Mas Scholl não está interessado apenas na novidade. “Eu realmente vejo isso como uma outra forma de escrever poesia”, ele me contou. Scholl é um leitor ávido de poesia, e seu conhecimento gerou a biblioteca que alimenta o programa (toda a sintaxe e opções de palavras estão dentro de um arquivo .bnf). Scholl pode ajustar a entrada de dados para alterar o conteúdo emocional do poema.

“Esse programa funciona segundo a ideia de que toda palavra da língua inglesa é ou ‘positiva’ ou ‘negativa'”, diz Scholl no arquivo que explica o programa. “Por exemplo, ‘adorável’ é positivo, e ‘espinho’ é negativo. Um ‘poema’ é um grupo de orações que, juntas, devem alncançar +1, -1 ou 0 em termos de positividade/negatividade. Um ‘poema meloso’ é extremamente positivo. Ele me mandou alguns exemplos poemas “positivos” e “negativos”, e a diferença era gritante.

“É muito legal ver a reação das pessoas”, disse. Scholl acrescenta que tem sido muito interessante comparar as reações daqueles que não faziam ideia de que os poemas haviam sido escritos por uma máquina, e daqueles que sabiam. Os comentários no site de poesia, por exemplo, diziam coisas como “Que obra poética maravilhosa. você pinta uma imagem vívida e eu amo a cena que você pintou. Parabéns”. No Reddit, onde sua revelação causou algum furor no r/futorology, a reação foi “igualmente bonita”.

Scholl reconhece que o programa é muito básico: “A única coisa que ele faz é armazenar informações sobre palavras poéticas. A lógica é bem simples.”

“Talvez o programa seja uma Inteligência Artificial”, ele acrescentou, “mas um pouco mais simples do que o reconhecimento de fala, por exemplo”. Seu objetivo é criar uma versão ainda mais complexa. “Há muito o que melhorar nesse programa. Mais palavras, mais estilos de poesia. Palavras sobre construções, meio-ambiente e todo tipo de classificação.”

Existe ainda mais um toque de ironia nessa história: essa edição de The Archive foi projetada especialmente para destacar a artificalidade intrínseca ao ato de ler poesia.

“Estávamos tentando enfatizar que aquilo que o leitor está segurando é um objeto”, ela me contou. “As palavras estão espalhadas pela página, é bem difícil de ler.”

“Ao mesmo tempo em que estávamos criando uma edição com essa intenção, alguém estava escrevendo esse poema não-subjetivo e não-autoral”, ela disse. É justo chamar esses poemas de não-autorais; na verdade, segundo Scholl, eles podem ser ‘escritos’ por qualquer um. O gerador é um programa de código aberto, e está disponível no Github. Os mais curiosos podem ir para o site do Scholl e testar o programa.

“Acho que é uma experiência interessante”, afirma Beam. “Criar um programa que escreve poemas cabe, certamente, na definição do que é arte.”

Mas será mesmo que este programa de fato criou uma poesia indistinguível das poesias criadas por poetas reais? Percebamos que, apesar de o programa ter conseguido se utilizar de uma linguagem estilística básica por ter sido programado para isso, ele não conseguira, em momento algum do poema, nem mesmo na expressão chifres mecânicos, formar nada parecido com uma metáfora ou uma metonímia que fosse produzida de modo original e não por clichê. Assim como Lacan notara no seminário sobre As Psicoses que no livro de Schreber intitulado Memória de um doente dos nervos, não havia nada parecido com uma metáfora ou uma metonímia, também é possível notar que a “máquina poeta” não chegou nem perto de passar no teste de Turing e muito menos no teste estilístico proposto anteriormente por nós. O “poema” “escrito” pelo computador se assemelha a um poema escrito por um psicótico, contendo em sua estrutura uma linguagem estilística básica, mas não contendo absolutamente nada que se pareça com uma metáfora ou metonímia criada de modo original e não por clichê, como no exemplo da expressão “chifres mecânicos”, produzido pelo computador, expressão esta que não contém absolutamente nada de original e que se assemelha a expressões como elefante branco ou cavalo de Tróia, onde mesmo sendo estruturadas através de uma linguagem estilística, tais expressões se tornaram sinônimo de uma repetição excessiva através da história e perdeu a sua originalidade. Portanto, a originalidade do “poema” “escrito” pelo computador está justamente em não ser original, em ser um “poema” que usa de uma linguagem estilística sem, no entanto, utilizá-la de modo original, mas apenas através de clichês ou chavões poéticos já criados anteriormente por poetas reais e armazenados na memória do computador, que “escreveu”, por sua vez, não um poema, mas sim um “poema”.

Mas o que é um poema?

Compreendamos as seguintes palavras:

Cota Zero

Stop.

A vida parou, ou foi o automóvel?

Haveria poesia nessas palavras?

A primeira vista diríamos que não. Talvez até disséssemos que fora escrito pela mesma “máquina poeta” analisada anteriormente. Entretanto, se disséssemos que o autor desses versos foi Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), já haveria certa hesitação em dizer que essas palavras não formam um poema, certo? E se um terço dos leitores deste livro ficassem a primeira vista convencidos de que este poema de Carlos Drummond de Andrade fora escrito por uma máquina, o que isto provaria? Que Carlos Drummond de Andrade é um computador? Por aí, percebemos como é pobre a nossa concepção sobre o que é ou não uma poesia e revelamos, apesar da importância filosófica do problema, o lado ridículo do teste de Turing para determinar a autoconsciência das máquinas.

O certo é que há poesia nessas palavras. Vejamos:

O título anuncia uma situação neutra: Zero; simultaneamente positiva e negativa; com essa palavra, cota, percebida como o quinhão de cada qual.

Stop; palavra que indica uma parada momentânea, mas quem para é a vida; é este o ponto principal do poema. Se a vida para é a neutralidade, a ausência, o desespero, a angustia de não saber aonde ir nem como o fazer. O poeta surpreende o leitor; ele espera que o automóvel pare; a parada da vida provoca uma impactante surpresa; o que se percebe aqui é o dentro do significante. A palavra central do poema, ou seja, (vida), existe outra palavra, quer dizer, (ida), que é referente ao verbo ir, e está intimamente ligada ao substantivo automóvel, que mais uma vez, se mostra como sendo uma palavra dentro de duas palavras, ou seja, auto, que pode ser uma comédia ou drama antigo, ou pode exprimir algo próprio, de si mesmo.

Temos também a palavra móvel, que diz de algo que se pode mover, pelo motivo que opera tanto sobre o espírito como sobre o coração, força motriz.

Dentro do significante vê-se o núcleo poético do ser que está preso à angustia da vida que não quer viver, pois está parada; sente-se como se fosse lançado na vida e não conseguisse viver, pois ela está estagnada. Mas como o poeta consegue ironizar toda essa angustia? Ora, ele o faz na ligação que há entre dois significantes. Ele ri da situação quando no meio de todo esse sentimento de estagnação, lança mão do significante.

Como vimos o substantivo vida, na verdade é um verbo, que indica a ação de ir a algum lugar. Vemos aqui, a primeira tentativa do poeta de se libertar da estagnação. Posteriormente, vemos outro substantivo – automóvel – donde o significante é referente a algo que se move; com isso, o poeta consegue ironizar e rir de sua própria estagnação; percebendo a tragédia de quem se sente nulo, vazio, num instante da existência em que para a vida e a cota ainda é zero.

Com o significante, o poeta consegue agir parado, quer dizer, consegue se mexer, mesmo estando preso em sua própria existência; fazendo da dor sua ironia, da tristeza sua alegria, do desprazer o seu prazer, da desgraça a sua graça.

E se um poema se faz com pensamentos e palavras, neste, elas se completam estreitamente, criando uma ligação semântica onde a ideia de estagnação é a constante: zero, stop, parou; e sem dizer que a vida também se move por si só, como o automóvel. Devemos observar que o autor ainda traz à poesia os elementos mais corriqueiros, incluindo o termo estrangeiro, como uma tentativa de comunicação universal.

Pode-se dizer que o poema possui os seguintes aspectos:

  • Primordialidade impessoal da terceira pessoa.
  • Humor como defesa e solução.
  • Sentimento trágico da existência.
  • Ironia e desvalorização da vida.
  • Integração poética da civilização.
  • Valorização poética do dia-dia.
  • Universalidade.
  • Primazia do significante.
  • Ligação verbal substantivada.
  • Angústia e desespero.
  • Transfiguração de desprazer em prazer.

Crê-se, no entanto, que esse poema revela-se com um novo valor quando nos esforçamos a penetrar em sua mensagem oculta, latente. A compreensão aumenta a fruição e estrutura estética que a poesia proporciona.

O que está em jogo agora é a entidade literária que revela o homem, sem distinção ou qualificação, pois sabemos que a literatura aparece onde há um povo que vive e sente o sentido de Ser não sendo; o que se conclui é que a cultura, a língua e a literatura estão intimamente ligadas ao sujeito. O que faz do Ser um Ser estético é o fato de ele ser a expressão mais sublime e insubstituível de estados da alma e de propósitos pessoais que só se exprimem literalmente, isto é, em se tratando de palavra, pensamento e construção, só se exprimem através das figuras de estilo.

A análise estilística pressupõe o Ser como sendo em si uma figura de estilo, uma figura de linguagem. A base da análise estilística é a gramática, que por sua vez, é o conjunto de regras que estabelecem um determinado uso da língua, denominada norma culta ou língua padrão. Acontece que as normas estabelecidas pela gramática nem sempre são obedecidas pelo falante, que, muitas vezes, se desvia delas.

Os desvios da norma culta podem se dá por vários motivos. Interessa-nos aqui, particularmente dois deles:

  1. a) O falante desvia-se com a finalidade de reforçar a mensagem, construindo uma mensagem nova, original, provinda do espírito.
  2. b) O falante desvia-se da norma por não conhecê-la; vale dizer, o desvio nesse caso se dá por ignorância do falante em relação à língua padrão.

Os desvios da norma culta, enquanto reforço da mensagem, vão constituir as figuras de estilo. Já os desvios provocados pelo não conhecimento da língua padrão vão constituir os vícios de linguagem.

A estilística também é dividida em intelectiva e afetiva: a linguagem intelectiva é aquela de que nos valemos para expressão normal ou comum de nossos pensamentos. Nela, os termos vêm dispostos numa ordem preestabelecida, analítica ou gramatical – sujeito, predicado.

Linguagem afetiva é aquela de que nos valemos quando expressamos pensamentos que nos arrebatam, empolgam e emocionam. O homem, não satisfeito em comunicar aos outros suas ideias e pensamentos, procura transmitir-lhes também a sua própria sensibilidade de Ser em sua existência simbólica.

Para obter esse resultado, ele lança mão das chamadas figuras de estilo, de imagens e de símbolos significantes; recursos esses que dão à frase maior beleza, tornando-a mais sugestiva.

Vejamos o seguinte poema de Mário Quintana (1906-1994):

1) Ali no canto ainda está à cômoda. Feita toda em madeira entalhada, tem três gavetas com puxadores de metal. Esse móvel velho e pesado, que ocupa uma área bastante grande do dormitório, era a peça preferida de minha avó.

2) Dona cômoda tem três gavetas. E um ar confortável de senhora rica. Nas gavetas guarda coisas de outros tempos, só para si. Foi sempre assim, dona cômoda: gorda, fechada, egoísta.

Percebam que os dois textos descrevem o mesmo objeto.

O segundo texto, certamente, atrai muito mais a atenção do leitor, pois é mais expressivo. Essa expressividade decorre da forma como o escritor empregou a língua.

Conforme já sabemos, normalmente fazemos uso da língua com uma finalidade prática, utilitária, visando a comunicar uma ideia, um fato. Algumas vezes, no entanto, nosso objetivo é chamar a atenção do leitor para a mensagem que produzimos. Para tanto, procuramos marcá-la de forma específica, especial, tornando-a mais expressiva.

A experiência decorre, quase sempre, do emprego de uma linguagem diferente daquela empregada no cotidiano, que é a linguagem predominante denotativa. Torna-se necessário apresentar a ideia por meio de palavras e construções menos corriqueiras e mais insólitas.

Quando a língua se afasta da maneira comum de expressão, quando empregamos mecanismos de construção que divergem da língua predominante utilitária, ocorre a linguagem figurada, ou seja, o sentido nuclear do Ser. A esse desvio da linguagem comum dá-se o nome de figura de estilo. Figura é, portanto, um recurso que consiste em apresentar uma ideia através de palavras ou construções insólitas. A figura resulta sempre de um desvio das formas comuns de falar, ou seja, de um desvio da regra ou norma. As figuras não devem ser consideradas como enfeites ornamentais; seu emprego tem um objetivo: dar maior expressividade ao sentido de Ser onde não se é, quer dizer, no inconsciente.

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