Da Filosofia Brasileira à Filosofia Tupiniquim: uma Ruptura Revolucionária na História da Filosofia no Brasil

No Livro Alvissarismo: Filosofia Brasileira, Eu, Thiago de Paiva Campos, vosso irmão de labuta intelectual na busca pela construção de uma Filosofia Brasileira, peço-vos perdão (ó povo brasileiro) por não ter arquitetado o meu sistema filosófico-político-econômico-religioso (o Alvissarismo) na língua tupi, mas sim na língua portuguesa, que, pelo famigerado decreto de Marques de Pombal em 1758, assassinou a língua tupi para colocar em seu lugar a língua portuguesa, tornando o tupi uma língua morta. É, no entanto, necessário dizer, que o fiz não por gosto, mas por imposição da minha condição de brasileiro colonizado por portugueses. A minha língua mátria não é o português, mas sim o tupi. Escrevo-vos, portanto, na condição de um homem que estava perdido se encontrou e que estava morto e voltou à vida, que anseia pela independência do meu povo, do meu país, da minha nação, da minha língua, da minha razão.

Depois de ter lido o majestoso livro do filósofo e escritor Roberto Gomes intitulado Crítica da Razão Tupiniquim, senti-me culpado por não ter erigido minha Filosofia na língua tupi e por tê-la erigido a partir de uma interpretação sincrética de alguns pressupostos da Filosofia de Kant, Lacan, Wittgenstein, Platão e Kardec, ao invés de ter partido de uma interpretação sincrética da lenda de Boitatá, Capelobo, Cobra-Grande, Corpo-Seco, Boto, Cuca, Curupira, Lobisomem, Lara, Mandioca, Mapinguari, Mula sem Cabeça, Negrinho do Pastoreio, Saci Pererê e Vitória Régia, pois o folclore brasileiro representa a identidade cultural do povo brasileiro, sendo a parte da cultura do Brasil que sintetiza a alma do povo brasileiro. Somente uma Filosofia baseada no folclore brasileiro poderá um dia ser universalmente reconhecida como uma Filosofia Tupiniquim, erguendo assim a identidade da Razão Brasileira. Roberto Gomes despertou-me do meu sono europeu, e quando acordei, me vi obrigado a responder à seguinte indagação: O Alvissarismo possui em seu corpo sistêmico uma identidade brasileira? O Alvissarismo constitui-se como um sistema de Filosofia Brasileira? O Alvissarismo é uma Filosofia Tupiniquim, isto é, uma Filosofia originalmente brasileira? Para tal empreitada será necessário submeter o Alvissarismo a uma Crítica da Razão Tupiniquim, a fim de que possamos com maior firmeza afirmar ou negar a condição do Alvissarismo como uma Filosofia originalmente brasileira. A Crítica da Razão Tupiniquim é o tribunal da Filosofia Brasileira, é a balança da justiça que medeia o que é e o que não é uma Filosofia Tupiniquim.

Será o Alvissarismo a síntese de uma Filosofia Tupiniquim adormecida e agora acordada ou será o Alvissarismo apenas uma piada filosófica, e eu, Thiago de Paiva Campos, apenas um piadista? A primeira questão do Alvissarismo a ser posta na balança da Crítica da Razão Tupiniquim é a questão da seriedade da Cultura Brasileira apresentada por Roberto Gomes, onde ele diz:

Embora tenhamos uma imensa mitologia construída em cima de nosso jeito piadístico, no momento de pensar não admitimos piada. Queremos a coisa séria. Frases na ordem inversa, palavras raras, citações latinas e é impossível qualquer piada em latim, creio. Isto criou situações constrangedoras, como as fúteis críticas sérias a Oswald de Andrade, acusado de mero piadista. Estranha gente, esta. Gaba seu inimitável jeito piadístico, mas na hora das coisas “culturais” mergulha num escafandro greco-romano […] Mergulhado num escafandro greco-romano – embora não seja nem grego nem romano -, o brasileiro foge de sua identidade. Tem sido na Filosofia que o espírito humano tem buscado sua auto-revelação. Porém, autocomplacente e conformista, sujeito sério, o brasileiro ainda não produziu Filosofia. Assim, é necessário advertir que um pensamento brasileiro jamais esteve lá onde tem sido procurado: teses universitárias, cursos de graduação e pós-graduação, revistas especializadas – e logo se verá por quê. No bolor de nosso “pensamento oficial” não se encontra qualquer sinal de uma atitude que assuma o Brasil e pretenda pensá-lo em nossos termos. Além do palavrório aridamente técnico e estéril, das idéias gerais, das teses que antecipadamente sabemos como vão concluir, das idéias bem pensantes, nada encontramos que possa denunciar a presença de um pensamento brasileiro entre nossos “filósofos oficiais”, vítimas de um discurso que não pensa, delira. Este livro inviável começa, pois, com uma série de advertências. A questão de um pensamento brasileiro deverá brotar de uma realidade brasileira – não do “pensamento” e da “realidade” oficiais. Deve inventar seus temas, ritmo, linguagem. E inventar seus pontos de vista. Obras como as de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Machado de Assis, Lima Barreto, Sérgio Buarque de Holanda, Noel, Chico Buarque, além daquilo que se tem feito no campo das ciências humanas nos últimos anos, têm mais a nos dizer do que as maçantes teses universitárias nas quais a Filosofia se mascara no Brasil. O mesmo se diga do torcedor de futebol, da porta-estandarte e do homem da rua em geral. (Gomes. R. 1994. P. 6 a 8)

Terá o Alvissarismo mergulhado no escafandro greco-romano apontado por Roberto Gomes ou terá ele mantido a sua raiz humorística brasileira? O Alvissarismo admitiu em seu sistema filosófico o jeito piadístico do brasileiro ou erigiu-se como um sistema de Filosofia sério, no sentido ao qual lhe dá Roberto Gomes? Serei eu, Thiago de Paiva Campos, acusado de mero piadista como o foi Oswald de Andrade ou serei considerado um filósofo sério, com frases na ordem inversa, palavras raras e citações em latim, a fim de parecer sábio? Prefiro ser lembrado como um piadista por ter criado um sistema de Filosofia Brasileiro do que ser lembrado como um filósofo sério por ter criado um sistema de Filosofia Brasileiro-Europeu.

O Alvissarismo, de certo modo, mergulhou-se no escafandro greco-romano, embora o escafandro do Alvissarismo seja mais grego do que romano, e isto parece ter feito o Alvissarismo perder a sua identidade brasileira, se não toda, ao menos em parte. O Alvissarismo não buscou somente na Filosofia a sua auto revelação, mas foi buscar na mitologia e na religião a epifania de sua identidade brasileira, produzindo assim uma Filosofia Brasileira cuja origem está enraizada na mitologia indígena, onde eu me inspirei para criar a teoria do roubo do fogo, que é baseada no mito do fogo dos índios do Brasil Central, que é um clássico da literatura mitológica dos índios de língua jê, aparecendo entre os gaviões, os canelas, os krikatis, os krahós, os apinajés, os caiapós, os xerentes, os xavantes e os bororos.

Som e silencio à nossa volta. No céu e na terra as cores do crepúsculo, em tons fortes e escuros, propiciam uma estranha luminosidade. É quase noite, faz frio. Um velho índio, ao pé do fogo no pátio da aldeia, em alguma mata perdida na vastidão do Brasil central, se ergue lentamente. Nosso olhar acompanha o rosto de bronze e para além dele o horizonte. Estamos calmos, sentados, aquecidos e felizes. Num gesto vigoroso e preciso, rápido demais para sua idade, o índio pega um galho incandescente da fogueira. Nosso olhar o acompanha num ritmo magnético. Do fogo ao sol poente tudo se confunde. Sua voz soa nítida, mais forte que todas as cores.

Houve um tempo em que os homens não possuíam o fogo; era um tempo difícil, para não comer carne totalmente crua, ela era torrada ao calor do sol, sobre uma laje de pedra. Aí um homem descobriu uma ninhada de araras no alto de um paredão de pedra-a-pique. Ele levou seu cunhado ainda menino pequeno para tirar os filhotes. Cortou uma árvore e encostou-a no paredão, fazendo uma escada para o menino subir. Quando o menino, porém, foi agarrar os filhotes, eles gritaram tanto que ele teve medo de tocá-los. O homem insistiu muito para que o menino jogasse logo os filhotes lá para baixo. Como este hesitasse e ainda demonstrasse medo, o homem zangou-se e atirou a árvore para o lado voltando sozinho para casa. O menino ficou preso.

Como sem a árvore não podia descer, o pequeno ficou sentado ao lado do ninho. Ele ficou com muita sede, quase morreu. As araras velhas, voando em cima, defecavam na sua cabeça a ponto de ele criar verme. Os filhotes, no entanto, pouco tempo depois perderam o medo. Nisso uma onça passou perto do paredão. Viu a sombra do menino e tentou agarrá-lo quando ele moveu um braço. Aí o menino cuspiu para baixo.

A onça levantou a cabeça e vendo-o, perguntou: o que você está fazendo aí em cima? Ao que o menino respondeu: meu cunhado me mandou pegar os filhotes das araras, e como eu não tive coragem de pegá-los, ele ficou zangado e derrubou a escada por onde eu tinha subido.

A onça então mandou que ele atirasse os filhotes. Quando o menino finalmente obedeceu, a onça apanhou e devorou todos eles. Agora solta você também, ordenou a onça. O menino não quis fazer o que ela mandava com medo de ser devorado pela onça também. Não, eu não comerei você. Salta logo que eu vou aparar a sua queda, sossegou-o a onça.

Finalmente, o menino decidiu saltar. Atirou-se lá do alto e a onça conseguiu apanhá-lo no ar entre as patas dianteiras. Levou-o para junto de um ribeirão, fez com que ele bebesse água, lavou-o e levou-o para casa. Na casa da onça havia um grande moquém com muita carne. Debaixo dele, um enorme tronco de jatobá em brasa. A onça deu ao menino um bom pedaço do moqueado. Deixou-o em companhia de sua mulher e foi para o mato caçar. Como a onça fêmea não suportava o menor ruído, se enfureceu muito quando o menino estalou entre os dentes um pedaço do moqueado bem tostadinho. Meu neto! Ela gritou, ameaçando com as unhas e rosnando para ele.

O menino, muito assustado, fez queixa a onça quando ela voltou. A onça lhe fez um arco e flechas. Explicou que se a onça fêmea outra vez se enfurecesse com ele era para o menino atirar na palma da mão dela. Depois era para fugir pelo caminho que ela ensinou que ia de volta à aldeia.

Quando a onça partiu outra vez para caçar o menino teve fome de novo. Tirou um pedaço do moqueado e comeu. Imediatamente a onça fêmea se irritou com o ruído de mastigar e furiosa mostrou as unhas. Na terceira vez que ela repetiu este gesto o menino flechou-lhe a mão e fugiu. A onça fêmea não pode persegui-lo porque estava grávida.

Seguindo o caminho que a onça ensinara, o menino foi parar na aldeia. Ali contou ao seu pai tudo o que havia acontecido. Contou que na casa da onça havia fogo e como era gostoso o moqueado. O pai foi ao pátio, reuniu os chefes e o conselho, e relatou tudo. Eles resolveram logo que iam buscar o fogo para aldeia.

Colocaram vários homens espalhados em todo o caminho da aldeia até a casa da onça. O melhor corredor de todos ia entrar na casa com o sapo. A onça não estava em casa e o homem agarrou rápido o tronco de jatobá aceso e correu com ele.

A onça fêmea pediu que lhe deixasse ao menos um tição. Mas nada ficou, pois o sapo cuspiu em tudo, apagando todas as brasas que ainda se achavam pelo chão em volta.

O homem como tronco de jatobá aceso correu muito até chegar ao primeiro estafeta que lhe tomou a carga dos ombros. Este correu muito até o segundo e assim sucessivamente até que todos chegaram com o fogo de volta à aldeia.

A teoria do roubo do fogo é a teoria de inspiração indígena apresentada pelo Alvissarismo no segundo selo do primeiro tomo de Alvíssara. Esta teoria é a origem, a fonte, a matriz de todo o sistema filosófico, político, econômico e religioso do Alvissarismo, e que consiste na tese de que, na era glacial, no período paleolítico inferior (500.000 a. C – 30.000 a. C), na Ilha de Java, o Homem de Trinil roubou o fogo do Homem de Pequim, e que este ato criminoso gerou o espanto necessário para produzir no Homem de Pequim uma mutação em seu DNA, isto é, uma alteração no código genético da célula, cuja causa fora a perda primordial da radiação eletromagnética provocada pela presença do fogo. Essa mutação gênica possibilitou o surgimento de novos genes e, por isso, novas características foram incorporadas ao patrimônio genético da população primitiva, aumentando a sua variabilidade genética. A mutação genética causada pelo roubo do fogo deu origem ao homo sapiens; ou seja, o roubo do fogo gerou o espanto necessário para o surgimento de uma mutação genética no homem primitivo de Pequim, dando-lhe a partir desse instante o gene da linguagem (Fox p2), isto é, o Verbo, que, por sua vez, fez com que o macaco se tornasse homem; através da especiação que essa mutação genética causou, o animal irracional se tornou um animal racional devido a aquisição da linguagem, isto é, da encarnação do Verbo. A Filosofia Alvissarista afirma que o Simbólico surge com o advento da linguagem (Logos) promovida pelo espanto gerado no homem primitivo de Pequim através do roubo do fogo, e é construída aos poucos através do jogo da presença e ausência da radiação do fogo (For! Da!) jogado pelo homem primitivo de Pequim quando, na estratégia de recuperação do fogo roubado pelo homem primitivo de Trinil, transpassara o fogo de mão em mão entre os homens primitivos até chegar com este de volta à aldeia. O mesmo processo que hoje em dia pode ser visto na cultura através dos jogos olímpicos, onde a tocha é passada de mão em mão até chegar ao seu destino final; ou na política, onde a faixa presidencial e a coroa são passadas de presidente a presidente ou de rei a rei; ou na economia, onde o dinheiro como moeda de troca é passado de mão em mão; ou na moral, onde os costumes são passados pelos pais aos seus filhos de geração em geração.

Com a teoria do roubo do fogo de inspiração notoriamente indígena, pela primeira vez na história da filosofia no Brasil tornou-se possível ver uma atitude filosófica que assumisse o Brasil pretendendo não somente pensá-lo em seus próprios termos como propôs Roberto Gomes, mas também em pensar o mundo em termos brasileiros, e é possível notar isso não somente através da teoria do roubo do fogo, mas também através da teoria do Complexo de Abraão, que denuncia o infanticídio indígena no Brasil. O Complexo de Abraão é o fenômeno psíquico de origem edipiana manifesto através da ambivalência de sentimentos do pai para com o filho recém-nascido, devido ao fato de este, ao nascer, roubar terminantemente a atenção da mãe, deixando o pai a ver navios, produzindo em sua alma de forma inconsciente o desejo pela morte do filho na tentativa de ter a atenção da mulher toda de volta para si. Esta fase é vivenciada mais ou menos a partir do sétimo mês de vida da criança, onde o pai, já desgastado com o fato de o nascimento do filho ter representado de uma certa forma a perda da atenção da mulher, que antes do nascimento do filho era toda do marido, começa a produzir uma ambivalência de sentimentos em relação ao filho através de sonhos, fantasias, atos-falhos, esquecimentos e chistes. Não é raro, neste período, haver por parte do pai uma procura maior por outras mulheres fora do casamento ou da relação monogâmica, recorrendo ao adultério na tentativa de recompensar a falta de atenção da mulher, que agora só tem olhos para o filho recém-nascido, e o sexo há muito não se pratica. No entanto, o fenômeno psíquico do Complexo de Abraão não tem um formato único, sendo vivenciado de formas diferentes em contextos diferentes, de modo que o pai aqui representa a figura paterna, que pode ser qualquer substantivo e não necessariamente o pai biológico, podendo este fenômeno ser também vivenciado pela mãe, onde em geral se manifesta como depressão pós-parto, que é menos frequente no pai, mas onde o desejo infanticida mal ab-reagido, isto é, mal resolvido em uma catarse simbólica e/ou imaginária, retorna para dentro como suicídio. O Complexo de Abraão também pode ter um formato puramente cultural e não necessariamente psíquico, um exemplo clássico do formato cultural deste fenômeno é o infanticídio evidenciado entre algumas tribos indígenas do Brasil central, onde muitas vezes para não realizar a exigência do infanticídio promovido pela tribo, um dos pais ou ambos os pais cometem suicídio, dando a sua vida em troca da vida do filho. O termo Complexo de Abraão é usado pelo Alvissarismo como uma referência ao profeta Abraão, que, segundo conta a história, teria, a pedido de Deus, orquestrado a morte do próprio filho em um infanticídio.

A teoria do roubo do fogo e a teoria do Complexo de Abraão marcam uma ruptura revolucionária na história da Filosofia no Brasil, denunciando a presença de um pensamento originalmente brasileiro, nascido ironicamente não de um “Filósofo Oficial”, mas sim de um “Filósofo Autodidata” que tem total consciência das limitações do autodidatismo. O pensamento brasileiro, deste modo, nasceu de uma realidade brasileira, indígena, e não de uma realidade oficial, acadêmica. O Alvissarismo como sistema de Filosofia Brasileira nasceu inventando o seu próprio tema, ritmo e linguagem, que, apesar de ser técnica, densa, opaca e em alguns momentos misteriosa e oracular, não se perdeu no discurso vazio e delirante da Academia Brasileira, mostrando assim um ponto de vista originalmente brasileiro. O folclore brasileiro tem muito mais a nos dizer do que todo o discurso vazio da Academia Brasileira de Filosofia, que parece ainda não ter entendido o que de fato é Filosofia, querendo transformar um modo de ser, estar e pensar o mundo numa medíocre profissão. A Filosofia nunca foi nem jamais será uma profissão. Se perguntássemos a Sócrates o que é que ele fazia ele iria dizer: eu apenas conversava com as pessoas. Para ser filósofo é preciso mais do que diploma, polimatia e status acadêmico; em verdade, para ser filósofo é preciso ser original, ter coragem, humildade e ousadia para filosofar. Diploma não faz filósofo, diploma no máximo faz professor de Filosofia. A prova disso é que a quase totalidade da Filosofia produzida no mundo e principalmente no Brasil fora construída fora do ambiente acadêmico, como é o caso de Matias Aires, Mário Ferreira dos Santos, Vicente Ferreira da Silva, Luiz Caramaschi, Miguel Reale e Olavo de Carvalho, com exceção do brilhante Newton da Costa, que inventou quase que sozinho na Unicamp a lógica paraconsistente, mas que só obteve reconhecimento no meio acadêmico brasileiro pela sua notória invenção depois que seu trabalho começou a ser publicado na França, o que corrobora a tese de Roberto Gomes sobre a dependência intelectual e a relação incestuosa da academia brasileira com relação à Europa. O filósofo autêntico possui a Filosofia no coração e não na mente, ama o saber, não é apaixonado por ele, a paixão filosófica designa uma doença, a doença que em geral tomou conta da alma dos acadêmicos. Para ser filósofo é preciso ter personalidade de filósofo, que é justamente aquele tipo que tropeça nas pedras que há em seu caminho por estar muito preocupado com uma questão filosófica importante. O filósofo autêntico vive para a Filosofia e não da Filosofia. Filósofos não se casam e nem têm filhos, eis o exemplo de Platão, Kant, Espinoza, Kierkegaard, Schopenhauer e Nietzsche, mas quando raramente isso acontece, são péssimos maridos e péssimos pais, eis o exemplo de Sócrates, Rousseau e Marx; e quando mais raramente ainda acontece de um Filósofo ser bom pai e bom marido, é porque ele não é somente Filósofo, possuindo em seu espírito outros talentos além da Filosofia, como é o caso de Oswald de Andrade, que além de Filósofo era escritor e poeta, e Newton da Costa, que além de Filósofo é lógico e matemático, ou então Mario Ferreira dos Santos, que além de Filósofo era empreendedor, o que é de fato bem estranho e inédito na história da Filosofia, a existência de um Filósofo empreendedor, mas que em momento algum fora um vendedor de Filosofia, vivendo para a Filosofia e não da Filosofia, não que alguém que viva da Filosofia necessariamente não possa ser um Filósofo, mas um Filósofo que vive da Filosofia será um Filósofo e não um professor de Filosofia se, e somente se, viver também para a Filosofia, eis o exemplo de Kant. Mais a relação comum entre quase todos eles (com a estranha exceção de Mario Ferreira dos Santos) é o completo desajuste em relação às coisas mais práticas da vida neste mundo devido à originalidade de uma razão especulativa radical. O Filósofo é aquele que produz um saber próprio e original. O Professor de Filosofia é aquele que reproduz o saber próprio e original produzido pelo Filósofo. O Filósofo é aquele que dedica a sua vida a Filosofia para produzir um saber próprio e original. O Professor de Filosofia é aquele que dedica a sua vida a Filosofia não para produzir um saber próprio e original, mas sim para ganhar a vida através do ensino da Filosofia. O Filósofo é aquele que faz da Filosofia um estilo de vida. O Professor de Filosofia é aquele que, infelizmente, faz da Filosofia uma profissão. O Filósofo é aquele que, ao produzir um saber próprio e original, deixa a sua marca na história da Filosofia. O Professor de Filosofia é aquele que não se preocupa em deixar a sua marca na história da Filosofia, mas se preocupa apenas em dar as suas aulas para poder ganhar a vida. O Filósofo é aquele que contribui para a história da Filosofia através da produção de um saber próprio e original. O Professor de Filosofia é aquele que não dá a menor contribuição para a história da Filosofia, mas contribui enormemente com o seu ensino e transmissão. O Filósofo é aquele que, ao produzir um saber próprio e original, causa espanto e modifica a forma de pensar de toda uma sociedade. O Professor de Filosofia é aquele que fica espantado com o saber produzido pelo Filósofo e o transmite a sociedade, ensinando uma nova forma de se pensar. O Filósofo é aquele que cria um sistema próprio de pensamento e ação, e o pratica. O professor de Filosofia é aquele que segue o sistema de pensamento e ação criado pelo Filósofo, e tenta praticá-lo. O Filósofo é aquele que, por estar tão preocupado com as questões da existência, acaba por tropeçar nas pedras que há em seu caminho. O Professor de Filosofia é aquele que, antes de pensar nas questões da existência, preocupa-se em retirar as pedras que há em seu caminho. O Filósofo é aquele que não se preocupa em obter e ostentar títulos de mestre ou doutor, mas sim aquele que só não pensa em Filosofia na hora em que está dormindo. O Professor de Filosofia é aquele que, antes de tudo, pensa em obter e ostentar títulos de mestre ou doutor, e só pensa em Filosofia na sala de aula quando está a ensiná-la. O Filósofo é aquele que quer transformar a forma de se pensar o mundo e, consequentemente, transformar o próprio mundo. O Professor de Filosofia é aquele que não tem a menor preocupação em transformar a forma de se pensar o mundo e consequentemente o próprio mundo, mas preocupa-se apenas em dar as suas aulas para ganhar a vida. O Filósofo é aquele que produz Filosofia. O Professor de Filosofia é aquele que ensina a Filosofia produzida pelo Filósofo. O Filósofo é aquele que cura as doenças da alma. O Professor de Filosofia é aquele que ensina como curar as doenças da alma. O Filósofo é aquele que trata das doenças da alma. O Professor de Filosofia é aquele que ensina como tratar das doenças da alma. O Filósofo é mestre de sua própria existência. O Professor de Filosofia é escravo de sua própria existência. O Filósofo é um pensador. O Professor de Filosofia é um ensinador. O Filósofo é misterioso, sombrio, solitário e melancólico por natureza. O Professor de Filosofia é claro, resplandecente, sociável e feliz por natureza. O Filósofo surpreende a sociedade. O Professor de Filosofia é surpreendido pela sociedade. O Filósofo é estranho à sociedade. O Professor de Filosofia é familiar à sociedade. O Filósofo não se casa nem tem filhos, mas quando raramente isso acontece não consegue ser nem bom marido nem bom pai. O Professor de Filosofia se casa e tem filhos, e raramente não consegue ser bom marido e bom pai. O Filósofo não entende de negócios, pois se entender, com certeza não é Filósofo. O Professor de Filosofia é um negociador. O Filósofo é um compositor do saber. O Professor de Filosofia é um admirador e transmissor da composição do saber. O Filósofo é um amigo do saber. O Professor de Filosofia é um colega do saber. O Filósofo ama o saber. O Professor de Filosofia é apaixonado pelo o saber. O Filósofo é um criador de Filosofia. O Professor de Filosofia é um especialista em Filosofia. No entanto, não há nada no mundo que impeça o Filósofo de ser um Professor de Filosofia nem o Professor de Filosofia de ser um Filósofo.

O verdadeiro Filósofo se caracteriza por não ser mais do que uma tartaruga de cabeça para baixo, que vive e morre tentado se virar, e que de seu fracasso se orgulha, pois é nele que está a sua assinatura de Filósofo. Mas como uma regra será universal se, e somente se, não for universal, tal como esclarecemos no Direito Alvissarista, Mario Ferreira dos Santos fora, até agora, a única tartaruga que conseguira se virar, não morrendo de cabeça para baixo como todas as outras; é que seu espírito de empresário o salvou do completo desajuste no mundo devido a radicalidade original de sua razão especulativa, como fora o caso de todos os grandes vultos filosóficos da humanidade, pois o Filósofo segue a ética do aventureiro e não a ética do trabalhador, conforme conceituado por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil.

“Nas formas de vida coletiva podem assinalar-se dois princípios que se combatem e regulam diversamente as atividades do homens. Esses dois princípios encarnam-se nos tipos do aventureiro e do trabalhador. Já nas sociedades rudimentares manifestam-se eles, segundo sua predominância, na distinção fundamental entre os povos caçadores ou coletores e os povos lavradores. Para uns, o objeto final, a mira de todo esforço, o ponto de chegada, assume relevância tão capital, que chega a dispensar, por secundários, quase supérfluos, todos os processos intermediários. Seu ideal será colher o fruto sem plantar a árvore. Esse tipo humano ignora as fronteiras. No mundo tudo se apresenta a ele em generosa amplitude e , onde quer que se erija um obstáculo a seus propósitos ambiciosos, sabe transformar esse obstáculo em trampolim. Vive dos espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes. O trabalhador, ao contrário, é aquele que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar. O esforço lento, pouco compensador e persistente, que, no entanto, mede todas as possibilidades de esperdício e sabe tirar o máximo proveito do insignificante, tem sentido bem nítido para ele. Seu campo visual é naturalmente restrito. A parte maior do que o todo. Existe uma ética do trabalho, como existe uma ética da aventura. Assim, o indivíduo do tipo trabalhador só atribuirá valor moral positivo às ações que sente ânimo de praticar, e, inversamente, terá por imorais e detestáveis as qualidades próprias do aventureiro – audácia, imprevidência, irresponsabilidade, instabilidade, vagabundagem – tudo, enfim, quanto se relacione com a concepção espaçosa do mundo, característica desse tipo. Por outro lado, as energias e esforços que se dirigem a uma recompensa imediata são enaltecidos pelos aventureiros; as energias que visam à estabilidade, à paz, à segurança pessoal e os esforços sem perspectiva de rápido proveito material passam, ao contrário, por viciosos e desprezíveis para eles. Nada lhes parece mais estúpido e mesquinho do que o ideal do trabalhador. Entre esses dois tipos não há, em verdade, tanto uma oposição absoluta como uma incompreensão radical. Ambos participam, em maior ou menor grau, de múltiplas combinações e é claro que, em estado puro, nem o aventureiro, nem o trabalhador possuem existência real fora do mundo das ideias. Mas também não há dúvida que os dois conceitos nos ajudam a situar e a melhor ordenar nosso conhecimento dos homens e dos conjuntos sociais. E é precisamente nessa extensão superindividual que eles assumem importância inestimável para o estudo da formação e evolução das sociedades. Na obra da conquista e colonização dos novos mundos coube ao “trabalhador”, no sentido aqui compreendido, papel muito limitado, quase nulo. A época predispunha aos gestos e façanhas audaciosos, galardoando bem os homens de grandes voos. E não foi fortuita a circunstância de se terem encontrado neste continente [Brasil e Américas], emprenhadas nessa obra, principalmente as nações onde o tipo do trabalhador, tal como acaba de ser discriminado, encontrou ambiente menos propício.” (Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, pág.44, 26 ed., Cia das Letras)

O Alvissarismo, apesar de ter-se erigido como um sistema sério de Filosofia, não deixou de admitir em seu corpo o jeito piadístico de ser do brasileiro, primeiro através de seu mito da criação, onde é notória a existência de um humor criativo e delicado que envolve a tragédia da Mitologia Alvissarista, onde se dá através da passagem do fogo de mão em mão pelo homem primitivo de Pequim, a criação das sete notas musicais, das sete artes, dos sete pecados capitais e, por fim, das sete cores do arco-íris, tal como exemplificado na seguinte passagem da Mitologia Alvissarista.

Ao encontrar o terceiro Homem de Pequim, o segundo, tomado pela inveja, negou-se a entregar o fogo, e simbolizou essa negação pelo ato de andar para trás, na tentativa de não entregar o fogo ao terceiro estafeta.

Nascia então a segunda nota musical – ré.

Por fim, o terceiro Homem de Pequim tomou o fogo das mãos do segundo e seguiu sua caminhada ao quarto estafeta.

No entanto, no meio do caminho o terceiro Homem de Pequim, com a posse do fogo, resolveu representar-se como um pássaro a fim de cantar como eles.

A cada fonema e a cada frase do canto de um pássaro, o Homem de Pequim os encenava de forma repetida.

Nascia então a terceira arte – o teatro.

Todavia, o Pai primevo de Pequim era o quarto estafeta, e esperava ansioso pelo fogo. Mas ao se entreter com o teatro no canto dos pássaros, o terceiro estafeta muito se atrasou, e o Pai primevo de Pequim, muito ansioso para ver a luz, sentiu-se furioso.

Nesse momento apareceu ao Pai primevo de Pequim o filho invejoso, e lhe disse que o irmão havia roubado o fogo e fugido com ele, mesmo sabendo que isso não era verdade, mas o filho invejoso o caluniou pela maledicência.

Assim o Pai primevo de Pequim e o filho invejoso saíram à procura do terceiro estafeta – o primogênito –.

Nascia então o terceiro pecado capital – a ira.

Ao se encontrarem no alvorecer, o Pai primevo de Pequim sentiu-se furioso com a espera e resolveu, com a ajuda do filho invejoso, esquartejar o primogênito – o terceiro estafeta que fora assassinado pelo próprio pai com a ajuda do irmão invejoso.

O pai assassinou o próprio filho por pura impaciência, por não querer esperar para ver a luz.

Na verdade, por causa do filho invejoso, o Pai primevo de Pequim pensou que ele havia roubado o fogo. Inundado de ira, o pai, ao encontrar o filho com o fogo, não hesitou e o esquartejou imediatamente.

Posteriormente ao infanticídio, o Pai primevo de Pequim disse pela primeira vez o EU. E ao dizê-lo gritou a primeira Lei do universo: Não roubarás!

Ao dizê-lo, a luz se fez novamente.

Nascia então a terceira cor – o amarelo.

Que, acompanhado do sol nascente, trazia com ele o terceiro dia – a terça-feira.

Por ter dito o EU pela primeira vez, o Pai primevo de Pequim impôs a Lei primeva dizendo: Não roubarás, pois o fogo é pra mi.

Nascia então a terceira nota musical – o mi.

Desta forma o pai primevo seguiu o seu caminhar até o próximo estafeta. No caminhar, o pai primevo de Pequim, com a cabeça do primogênito nas mãos, seguiu a estrada a nomear as coisas do mundo. (Alvíssara 1; 6: 235 a 254)

Esta passagem do Mito Alvissarista da Criação mostra claramente a existência de um tipo de humor ou jeito piadístico de ser que é próprio do brasileiro, onde é possível rir da própria tragédia, onde é possível arrancar do leitor uma catarse humorística frente ao nascimento do pecado e o trágico infanticídio. Esse jeito piadístico percorre toda a Mitologia Alvissarista, que não escamoteia o pecado, mas o revela em tom humorístico num jeitinho bem brasileiro de ser, tal como é possível notar na seguinte passagem do Mito Alvissarista da Criação.

O Céu sentiu ira da Montanha, mas ele já havia matado o Trovão e não queria perder outro filho.

Desta forma eles seguiram rumo ao sexto estafeta e o encontraram. O sexto homem seguiu seu caminho com o fogo nas mãos. Foi então que resolveu utilizar o pincel de pedra para escrever os símbolos da aventura da recuperação do fogo nas paredes das cavernas por onde passava.

Mas as figuras eram despedaçadas, pois ele sabia da utilidade do fogo, mas não sabia criá-lo.

Foi então que no meio do caminho o Homem de Pequim viu ao longe outra luz que faiscava. Ao chegar mais perto da luz, o Homem de Pequim viu por entre as árvores um tipo diferente de seu semelhante.

O tipo era um Neandertalense, que estava ali a tentar criar o fogo no meio daquelas árvores enormes.

O Homem de Pequim observava de longe; foi quando o Neandertalense conseguira criar pela primeira vez o fogo.

Ao ver aquilo de longe, o Homem de Pequim ficara extasiado, e passara o dia a tentar criar o fogo como havia feito o Neandertalense.

Depois de muito tentar, a Montanha conseguira criar o fogo; a partir daí a Montanha passou a criar figuras simbólicas nas paredes das cavernas.

Nascia então a sexta arte – a escrita.

Depois de ter aprendido a criar o fogo com o Neandertalense, a Montanha seguiu o seu caminho ao sétimo estafeta.

Mas como que num instante primordial, a Montanha ficara tomada pelo orgulho de possuir a criação do fogo.

Foi então que criou vários fogos para si e deu ao sétimo estafeta apenas um fogo; e não o ensinou a criá-lo.

Nascia então o sexto pecado capital – a avareza.

O fogo acumulado pela Montanha assumiu uma chama ardente e anilada.

Nascia então a sexta cor – o anil.

Que ao brilhar da alvorada fez surgir o sexto dia – a sexta-feira.

Mas, a Montanha tomada pela avareza, acabou se perdendo do caminho que deveria seguir para chegar até o sétimo estafeta.

Foi quando ela perguntou ao pássaro Fogo – apagou:

– Para onde devo ir para chegar à minha irmã?

Daí o pássaro respondeu:

– Pra lá.

Nascia então a sexta nota musical – lá.

Depois de dar apenas um fogo para a sua irmã Sol, a Montanha ficou parada no caminho para se vangloriar dos vários fogos que possuía; e assim permanece até hoje. (Alvíssara 1; 6: 285 a 305)

Mas o Alvissarismo não é apenas um sistema sério de Filosofia, tal como reconhecemos a pouco, ele é também uma Filosofia levada a sério, no sentido ao qual lhe dá Roberto Gomes. Mas qual é a exata diferença de uma Filosofia séria e uma Filosofia leva a sério? Vejamos o que o próprio Roberto Gomes tem a nos dizer sobre esta diferenciação tão importante.

Prestando atenção, vemos que há vários empregos possíveis para a palavra “sério” e, consequentemente, vários sentidos para a “seriedade”. Creio que isso fique claro se considerarmos estas duas ocorrências: “Fulano de Tal é um homem sério” e “Fulano de Tal leva a sério seu trabalho”.

Entre os dois empregos não há apenas o acréscimo de uma letra, mas uma mudança de perspectiva e de acentuação. Mudou o caráter da seriedade em questão. No primeiro caso queremos dizer que Fulano de Tal é um homem que zela pela seriedade das aparências. É respeitador das normas e convenções sociais. Seria incapaz de “sair da linha”. Dele não se esperam coisas que fujam ao normal estatístico. Isto vale dizer: Fulano de Tal é um homem respeitador e respeitável.

Na segunda ocorrência, a seriedade em questão remete-se a outra gama de significações. Levar a sério, seja um trabalho, lugar ou um amor, não consiste no zelo pela vigência de normas sociais. Ao contrário. O acento faz com que toda carga significativa recaia sobre o aspecto interno e virtualmente negador do socialmente admitido. Se levo a sério, isto é algo que sai de mim em ao objeto da seriedade. Se sou sério, me coisifico como objeto de seriedade. Aí está a diferença entre o que é dinâmico – eternamente em questão -, encontrado no a sério, e o caráter de acabada e estéril da seriedade do sujeito objetificado. A sério, revigoro o mundo com uma quantidade imensa de significações. Sério, reduzo-me a objeto morto, caricato, de existir centrado externo.

Ao levar a sério, estou profundamente interessado em alguma coisa, a ponto de voltar todas as minhas energias no sentido de sua realização – outro não sendo o princípio de erotização do agir. Mesmo quando isso exige “sair da linha”. Só aqui poderemos encontrar o germe revolucionário indispensável à criatividade […] Antes de mais nada, é óbvio que o sério está a serviço de uma máscara social – é uma persona que assumo. Ou: que me assume. Casca normativa que nos vem do exterior e que nos dita o que convém, esta a essência de tal seriedade. A partir disso, pouco ou nada importam as intuições que procedam do interior, ficando nossa expressão mais pessoal e crítica eliminada. Eis como existem coisas que um professor faz e outras que não faz. Usar óculos, ser carrancudo e empertigado. Afogar-se e suar desesperadamente num terno e gravata. Falar num jargão convencional e altamente “erudito” – coisas que cabem, que convêm. Outras, nem tanto.

O mesmo se dá com aqueles que praticam a Filosofia entre nós, a imensa maioria composta por professores. Existem coisas sérias, consagradas pelo uso acadêmico, de bom tom e alta ilustração. São coisas que vêm sendo discutidas na Sorbonne, em Oxford, publicadas em Paris ou Berlim, apresentadas em congressos. Constituiu a Filosofia, desta forma, seus próprios temas e maneiras de tratá-los aqueles que convêm. Quer dizer, seus sufocantes ternos e gravatas. E o triunfo do homem sério é atingido quando se chega à completa ritualização. Quando já não importa o dito, mas a maneira de dizer dentro de padrões previamente consagrados. Assim, uma comunicação a um congresso pode ser absolutamente vazia e soberbamente tola – mas, cumprido o ritual, o aspecto “sacrossanto” da cultura é preservado. Eis aí coisas convenientes, perfeitamente sérias.

Quero com isto dizer – não principalmente e não só – que o tema providenciado para este título exigiria sair do sério. Parece evidente que Filosofia brasileira só existirá a partir do momento que vier a ser, como a piada, uma investigação do avesso da seriedade vigente. Obras sérias são feitas com arquivos, notas ao pé da página e num jargão que me aborrece. É esta máscara séria que vem sufocando o pensamento brasileiro, onde ela mais profundamente aderiu ao rosto. A ritualização, triunfo do sério, consiste exatamente nisto: fala-se agora sobre temas adequados, pouco importando se importam. Vale dizer: mesmo que se trate de especulações sem qualquer raiz na realidade que nos circunda. Assim, perdeu-se a ligação e a referência crítica à realidade, que sempre foi a pretensão básica da Filosofia quando soube ser fiel à sua missão marginal. (Gomes. R. 1994. P. 10 a 13)

O Alvissarismo não é uma piada, mas sim um sistema de Filosofia que deve ser levado a sério. Mas terá o Alvissarismo levado a Filosofia a sério ou será o Alvissarismo apenas um sistema sério de Filosofia?

Bem, se por um lado o Alvissarismo zelou pela seriedade das aparências da academia, erguendo-se em teses densas e complexas que só podem ser compreendidas por pessoas versadas no assunto em questão, respeitando as normas e convenções sociais da academia, por outro lado o Alvissarismo saiu da linha, pois foi criado por um “Filósofo Autodidata” sem nenhum vínculo com a academia, fugindo assim do circulo intelectual do academicismo, tornando-se algo não respeitável aos acadêmicos por não fazer parte da sua panelinha. Neste ponto o Alvissarismo não zelou pelas aparências e convenções sociais da academia, pelo contrário, tornou-se algo marginal, mau visto pela academia, assim como o Espiritismo de Alan Kardec, a quem os acadêmicos sequer consideram filósofo, ou Matias Aires, a quem os acadêmicos sequer fazem ideia de quem sejam, e os poucos que conhecem esse nome só o sabem devido ao fato de este ser o nome de uma das ruas de São Paulo, onde algum estimado professor de Filosofia da USP mora, ou então Mario Ferreira dos Santos, a qual os poucos acadêmicos que o conhecem sequer o citam dentro de sala de aula, ou Vicente Ferreira da Silva, do qual os acadêmicos mesmo tendo consciência de seu brilho e existência, preferem fingir que ele não existe, isso para não dizer de Luiz Caramaschi, do qual, mesmo depois de mais de vinte anos de sua morte, ninguém na academia sequer sabe de sua existência, e por fim, Olavo de Carvalho, a quem os acadêmicos preferem considerar apenas um astrólogo, já que a Filosofia de Olavo denuncia a mediocridade intelectual e moral da academia brasileira, ferindo assim o narcisismo da academia. Ariano Suassuna tinha toda razão quando dizia que as universidades brasileiras ensinam de costas para o próprio país.

Ao levar a Filosofia a sério, o Alvissarismo mostrou estar profundamente interessado em uma dada questão que deu origem ao seu próprio sistema: qual a origem primitiva da linguagem? Levando a resposta dada a esta questão até as últimas consequências, não estando o Alvissarismo a serviço de uma máscara social promovida pela academia, não se adaptando às normas sociais que esta impõe, o Alvissarismo tornou-se um sistema de Filosofia levado a sério, e não um sistema sério de Filosofia, pois não vestiu a máscara normativa da academia, sendo constituída, como praticamente toda a história da Filosofia no Brasil, fora do ambiente acadêmico, e isso é o que faz da Filosofia Alvissarista não um sistema sério de Filosofia, mas sim um sistema de Filosofia levado a sério.

A Filosofia Alvissarista é uma Filosofia Brasileira porque veio a ser como uma piada para a academia e formou-se pelo avesso desta, sendo criada fora dela. Mesmo tendo sido escrito com um jargão acadêmico, a Filosofia Alvissarista rompeu com a seriedade da academia no momento em que foi criada por um “Filósofo Autodidata”, mas que é capaz de falar a língua dos acadêmicos, vestindo assim uma certa máscara séria mas sem deixar de filosofar a sério. A Filosofia Alvissarista, mesmo tendo um escopo de Filosofia séria, que se mostra apenas no seu linguajar densamente técnico, não deixou essa seriedade triunfar em si mesma, não falando sobre um tema exatamente adequado à academia, mas sim um tema que consumiu durante anos o seu criador, um tema que o preocupava seriamente e que circundava a sua realidade, desenhando-se como uma Filosofia essencialmente crítica, tendo sido criada por um Zé ninguém, que, até o último suspiro de sua vida, foi fiel à marginalidade original do autêntico filósofo e da autêntica Filosofia, que parece ter sido capaz de enxergar a realidade primitiva do próprio país, isto é, capaz de, como diz Roberto Gomes, enxergar um palmo diante do nariz.

Se deslocarmos a acentuação do externo para o interno, encontraremos condições de pensar o que está diante de nosso nariz. E o que é Filosofia? É a tentativa, penso, de enxergar um palmo diante do nariz – o que não é tão fácil nem tão inútil quanto muitos pensam. Afinal, o peixe é quem menos sabe da água. (Gomes. R. 1994. p. 15)

Eis o motivo pelo qual podemos considerar o Alvissarismo como um sistema original de Filosofia. Mas no que consiste a originalidade de um sistema filosófico?

O vital é reconhecermos que um pensamento é original não por superar sua posição – o que é impossível -, mas precisamente por dar forma e consistência a este tempo e apresentar uma revisão crítica das questões de sua época, aí tendo origem. O pensamento é superior não a despeito de ser situado, mas justamente por situar-se. (Gomes. R. 1994. p. 21)

O Alvissarismo, embora tenha a pretensão de ser uma Filosofia atemporal e universal, busca essa possibilidade justamente no fato de ser uma Filosofia de seu tempo e espaço, buscando no solo brasileiro e no século XXI as respostas para suas indagações, não aguardando que caia do céu, ou melhor, da Europa ou dos Estados Unidos da América, a solução ideal para os problemas do Brasil neste século. Deste modo, a Filosofia Alvissarista não é de modo algum uma Filosofia estranha ao povo brasileiro, pois as soluções encontradas por ela aos fenômenos essenciais do mundo estão enraizadas no Brasil, tal como prova a teoria do roubo do fogo e a teoria do Complexo de Abraão. E isso é justamente o que faz com que a Filosofia Alvissarista seja uma Filosofia genuinamente brasileira, isto é, uma Filosofia originalmente nossa, cuja raiz está plantada no solo tupiniquim. O Alvissarismo não é apenas uma nova Filosofia, mas também uma Filosofia original, estando diretamente vinculada às origens do povo brasileiro, e mais, utilizando desta raiz brasileira para explicar as origens da humanidade. O Alvissarismo não apenas pensa o Brasil com olhos brasileiros, o Alvissarismo pensa o mundo com o olhar do Brasil. A Filosofia Alvissarista é, portanto, absolutamente original porque é o oposto do estranho e da mera novidade, tendo suas raízes plantadas na alma do povo Brasileiro, no espírito indígena desse povo.

A originalidade da Filosofia consiste em descobrir-se em determinada posição, assumindo-a reflexivamente. Além disso: se sua pretensão básica é a verdade, vale lembrar que esta só faz sentido quando é minha. Mesmo a verdade de um outro só poderá ser verdade para mim se dela me apropriar, antropofagicamente. E não se poderia objetar, do ponto de vista de um pensamento rudimentar, que a verdade em si já se encontrava lá. Por um motivo simples: verdade em si não faz sentido algum. (Gomes. R. 1994.p. 22 a 23)

Eis porque o Alvissarismo é uma Filosofia Brasileira, porque foi capaz de se descobrir a si mesma no solo brasileiro. A Filosofia Alvissarista não é uma Filosofia estranha ao Brasil, dopada pela verdade estrangeira, e a verdade estrangeira que nela há (e de fato há), subsiste apenas como verdade devorada antropofagicamente. Eu, Thiago de Paiva Campos, não vos apresentei a verdade de Kant, Lacan, Wittgenstein, Platão e Kardec, ao contrário, eu devorei Kant, Lacan, Wittgenstein, Platão e Kardec para vos apresentar a minha própria verdade, a verdade da minha alma, da minha língua, do meu país.

A Filosofia Alvissarista despiu a Razão do Brasil, revelando ao mundo o seu modo próprio de ser e pensar a humanidade através das características próprias do caráter da cultura e do povo brasileiro. O Alvissarismo encontrou por debaixo do terno e gravata europeu, a tanga que cobre a nudez do índio que deu origem ao povo brasileiro. O desafio agora é despir-se de vez e ter orgulho da própria nudez, para passarmos de uma Filosofia Brasileira para uma Filosofia Tupiniquim. A diferença básica entre uma e outra é que a Filosofia Brasileira usufrui do recurso antropofágico para se moldar, um recurso que, apesar de válido, é absolutamente artificial, enquanto que a Filosofia Tupiniquim, quando ela vier a existir, não mais precisará desse recurso, pois devorará a si mesma, sendo uma Filosofia absolutamente natural, despida de qualquer saber estrangeiro, mas sem qualquer hostilidade para com ele, pois a hostilidade para com o Outro seria o avesso de uma mesma coisa.

Tanto é infantil o filho que necessita da asa protetora da mãe quanto aquele que a hostiliza – possuem em comum a patologia de um mesmo traço: a dependência. (Gomes. R. 1994. p. 61)

Para alcançarmos a independência da Filosofia Tupiniquim, é necessário que passemos para a segunda fase da Filosofia Brasileira iniciada pelo brilhantismo varonil de Oswald de Andrade e sua antropofagia, que marca a gênese histórica de uma relação especular entre o Brasil e a Mãe Europa. A Filosofia de Oswald de Andrade dá início ao fenômeno social da identificação do povo brasileiro, isto é, da mutação social produzida na sociedade brasileira quando pela primeira vez na história o Brasil assumiu de fato uma imagem, uma razão, uma Filosofia. Oswald de Andrade dá início ao Estádio do Espelho na sociedade brasileira através de sua Filosofia da Antropofagia, caracterizada pela representação da unidade filosófica brasileira e pela sua primordial identificação com a imagem do Outro promovido pelo canibalismo simbólico e cultural. A antropofagia marca um período na história do Brasil onde este ainda possui dificuldades para se apropriar de uma Filosofia Brasileira. A Europa foi o precursor do espelho do desenvolvimento de uma Filosofia Brasileira, pois quando Oswald de Andrade comeu Marx, Freud ou Rousseau em seu manifesto, o que ele comeu foi a si próprio, dando início à sistematização de uma Filosofia Tupiniquim. A imagem da Europa funciona como um tipo de espelho pelo qual nasce a identidade do pensamento brasileiro, iniciando com a antropofagia as primeiras trocas filosóficas do Brasil com o mundo. A antropofagia de Oswald de Andrade marca o período da história do Brasil em que este se questiona sobre a imagem que vê no espelho da Mãe Europa, buscando nela a sua própria imagem. Desse modo, a Filosofia no Brasil, por questões históricas e culturais, fez confusão entre si e a Filosofia da Europa. Passando por um período histórico de uma Filosofia fragmentada, promovida pelo Modernismo, marcada pela Filosofia da Antropofagia, para galgar a formação de uma Filosofia unificada, promovida pelo Alvissarismo, marcado pela inversão especular da antropofagia, que se caracteriza pela auto antropofagia, onde o pensamento brasileiro se liberta da angústia de uma Filosofia despedaçada outrora anunciada pelo modernismo. A identificação entre o Folclore e a Filosofia gerou uma Filosofia Brasileira, onde pela primeira vez o pensamento brasileiro assumiu uma identidade.

Além da raiz indígena, no que consiste a originalidade da Filosofia Alvissarista? A originalidade da Filosofia Alvissarista está justamente na sua audácia, coragem e ousadia de se opor ao próprio espírito de época em que emergiu.

A Filosofia não pode prescindir de sua missão primeira: destruir um mundo. Efetivamente, o que é Filosofia? A mim parece ser isto: dizer o contrário.

Esta, a lição primária que uma história do pensamento deveria sempre ressaltar. Os grandes momentos do pensamento surgem no auge de uma curva, dando consistência e definição a um momento do processo histórico. E condensam isto numa intuição potencialmente criadora. Imediatamente após o período de criação, surge a cristalização e a esterilidade – e aí encontramos os pretensos seguidores. É quando aquela intuição originária se perde nalguma escolástica. Só mais tarde surgirá o verdadeiro sucessor: aquele que disser o contrário, respondendo à intuição envelhecida em conceito com uma nova intuição. E o processo segue. (Gomes. R. 1994. P. 30)

O Alvissarismo assume a posição de uma Filosofia antitética quando assume a vanguarda que anuncia o fenômeno do Complexo de Fausto que explica a morte da ciência e a ressurreição de Deus, cuja origem, como veremos, surgira no Brasil, designando um fenômeno sociológico que nos parece ser genuinamente brasileiro, mas que tem possibilidades de se expandir por todo o mundo, mostrando assim, mais uma vez, a brasilidade natural da Filosofia Alvissarista, que não pensa o Brasil através do mundo, mas sim o mundo através do Brasil.

O Complexo de Fausto é uma referência ao poema trágico de Goethe, onde o personagem Fausto – o favorito de Deus -, um erudito que se depara com as limitações do conhecimento científico/humanista, passa a recorrer à magia para chegar ao conhecimento ilimitado. Esse processo vivenciado por Fausto simboliza em um poema trágico a metanoia de um espírito de época que historicamente foi revelado pioneiramente na filosofia de Vicente Ferreira da Silva. Assim como Fausto, Da Silva era um erudito que se deparou com os limites do positivismo lógico, da lógica matemática, do existencialismo e da fenomenologia, passando a recorrer à poesia, ao mito e ao rito para explicar as coisas do homem e do mundo não pelo olhar do próprio homem, mas sim pelo olhar de Deus. A metanoia vivenciada por Da Silva simboliza a metanoia de uma época. Comte e toda a geração positivista desconsiderava a introspecção como meio de se obter conhecimento sobre o homem e o mundo, insistindo na objetividade do conhecimento científico em detrimento do conhecimento teológico, metafísico e religioso, impossibilitando todo tipo de conhecimento não observável, descartando todo tipo de pesquisa cosmológica, considerando a metafísica inútil e inacessível à ciência. No entanto, esta posição foi desconstruída radicalmente através de avanços na química e na física, particularmente através dos trabalhos de Boltzmann e Max Planck, que comprovaram a existência de partículas não observáveis diretamente, confiando na intuição como forma de produzir conhecimento, se assemelhando ao que Charles Sanders Peirce denominou de abdução. O sonho de Nietzsche de um mundo sem Deus caiu por terra, pois o determinismo científico sucumbiu com o experimento imaginário do gato de Schörodinger, o princípio da incerteza de Heisenberg e o teorema da incompletude de Gödel. O trabalho exuberante desses três grandes cientistas marcou o princípio do fim do período nietzschiano da civilização ocidental e sua insistência dogmática e fanática em desprezar a metafísica, a teologia e a religião. A Filosofia de Da Silva sintetiza a vanguarda do espírito de uma época em que a humanidade se depara inexoravelmente com os limites da ciência e passa a recorrer à metafísica, a teologia e a religião para explicar os mistérios do homem e do mundo, anunciando assim, ainda no parto, a morte da ciência e a ressurreição de Deus.

O Alvissarismo assume corajosamente e porque não dizer, profeticamente, a missão de anunciar um novo espírito de época cuja semente nos parece ter sido plantado no Brasil. Isto envolve a necessidade não só de uma oposição sociológica, mas também uma oposição epistemológica que possa dar vazão a essa transformação de uma sociedade em outra. Eis porque o Alvissarismo inventa o simbolismo.

O simbolismo ou idealismo simbólico é a vertente epistemológica adotada pelo Alvissarismo e apresentada no livro Alvíssara, e que consiste na tese de que todo o conhecimento seja ele a priori (racional) ou a posteriori (empírico) tem origem na linguagem, ou seja, o simbolismo ou idealismo simbólico advoga a ideia de que o Logos é a origem, a fonte, a matriz de todo conhecimento possível, sendo este limitado à origem do Logos. O simbolismo é uma corrente filosófica baseada no idealismo, uma vez que a posição central da subjetividade é fundamental. É muito fácil resumir o pensamento simbolista, uma vez que ele é estruturado como um idealismo simbólico. No simbolismo deve-se considerar o primado do EU subjetivo como central em todo o idealismo, o que significa reduzir a realidade ao simbólico e a possibilidade do conhecimento da realidade a capacidade humana de simbolizar. Assim, na Filosofia simbolista, o postulado básico não é o “Eu sou Eu”, mas sim o “Eu sou o Outro”, no sentido de que é a imagem do Outro que forma o Eu. Ou seja, a velha oposição entre sujeito e objeto, entre ser e pensar se revela no idealismo simbólico como um processo dialético do conhecimento que parte do concreto para o abstrato e depois do abstrato para o concreto, isto é, do objeto para o sujeito e depois do sujeito para o objeto, e não somente do sujeito para o objeto e nem somente do objeto para o sujeito. O simbolismo estrutura-se como uma dialética dividida em dois tempos, no primeiro tempo o conhecimento vai do objeto para o sujeito e, num segundo tempo, esta relação se inverte, indo do sujeito para o objeto. O simbolismo é uma teoria filosófica que parte do princípio de que todo o conhecimento da realidade depende exclusivamente da capacidade humana de se inserir no universo simbólico, ou seja, para o simbolismo o conhecimento do real só é possível através do simbólico. Os objetos do mundo só são conhecidos pelo homem porque este está inserido na ordem simbólica, caso não estivesse (como os animais, por exemplo) ele nada conheceria sobre o mundo a não ser aquilo que está para a ordem do puro instinto e do condicionamento. Para o simbolismo o mundo material, objetivo, exterior, existe de fato, porém, só pode ser compreendido plenamente a partir de sua verdade simbólica, espiritual, mental e subjetiva. A realidade material, objetiva, externa, ao contrário do que prega o realismo filosófico, não é nem pode ser independente do sujeito no que se refere ao seu conhecimento, mas apenas no que se refere a sua existência, de modo que o mundo continuaria a existir sem o homem sobre a face da terra, mas sem o homem o mundo não seria conhecido. Todo conhecimento do homem sobre o mundo passa pelo filtro da subjetividade. Todo conhecimento do homem sobre a realidade depende da sua capacidade de simbolizar o real. Sem o instrumento da linguagem (Logos) o homem jamais poderia conhecer os objetos da realidade, na medida em que é a própria linguagem que estrutura a realidade. O simbolismo, no sentido ontológico, é a doutrina filosófica segundo a qual o real não é a realidade, sendo o real de natureza espiritual e a realidade de natureza material, sendo a matéria uma manifestação ilusória, aparente, limitada, incompleta, e mera cópia imperfeita de uma matriz de origem espiritual. O simbolismo, no sentido gnosiológico, considera o sentido e a inteligibilidade de um objeto completamente dependente do sujeito que o compreende através da ordem simbólica, que estrutura tanto a razão quanto a experiência, o que torna a realidade cognoscível limitada e incompleta, e necessariamente redutível à capacidade do sujeito de simbolizar o mundo real. Contra o realismo, a Filosofia Alvissarista reafirma a existência de um mundo físico, independente da mente humana, que contém uma série de objetos individualizados, porém, a estrutura formal do conhecimento de todos os objetos do mundo depende exclusivamente da linguagem, isto é, para o Alvissarismo existe um mundo físico independente do sujeito, mas o conhecimento deste mundo físico depende integralmente da capacidade linguística do ser humano de simbolizar os objetos do mundo real. Isto é o que nós chamamos anteriormente de simbolismo ou idealismo simbólico, onde não se duvida da existência de um mundo exterior e da pluralidade de coisas nele presente. Mas aceitar isso não significa que se possa conhecer os objetos do mundo exterior fora da sua relação com o sujeito cognoscente, como pretende o realismo, pois isto seria um absurdo, posto que todo conhecimento do mundo passa pelo homem, já que sem o homem o mundo pode existir, mas não pode ser conhecido. O simbolismo ou idealismo simbólico é uma vertente epistemológica sistematizada de forma a se opor e sintetizar o idealismo e o realismo através da tese de que “Todo o conhecimento tem origem na linguagem, que possibilita a racionalidade e a significação da experiência sensível”. Ou seja, no simbolismo a origem do conhecimento não é mais a razão como no racionalismo e nem mesmo a experiência sensível como no empirismo, mas sim a linguagem, pois é esta que possibilita a racionalidade e a significação da experiência. A completa independência da realidade em relação a nossos esquemas conceptuais, crenças e pontos de vista, tal como prega o realismo filosófico, só é verdadeira no que se refere à existência do mundo físico, mas não ao seu conhecimento, ou seja, esta independência é apenas ontológica, e não gnoseológica, e é aqui que entra o idealismo, onde os fenômenos da realidade objetiva, externa ao sujeito, são incapazes de se mostrar ao homem em sua essência tais como são em si mesmos, mas apenas como representações subjetivas arquitetadas pela faculdade linguística do sujeito, como se houvesse um véu de Maya entre o homem e o mundo; mas aí então o realista metafísico questionará, dizendo: “Mas se é verdade que existe um véu entre o homem e o mundo, por que então este mesmo véu não existe entre o pensamento e a subjetividade?” Ora, esta pergunta está atrasada pelo menos há mais de um século e meio, pois a resposta a essa indagação foi descoberta por Freud e se chama inconsciente, este é o véu que existe entre o pensamento e a subjetividade e divide o sujeito entre Ser e Pensar e entre Saber e Verdade; no entanto, a impossibilidade de se conhecer a coisa em si não impossibilita também a sua experiência, e é isso o que garante a sua existência, pois se é impossível conhecer a coisa em si, então como é possível saber que ela existe? Este foi, portanto, o grande erro de Kant do qual o Alvissarismo não compactua, posto que para a Filosofia Alvissarista a coisa em si é incognoscível, porém experienciável através da prática moral, de mitos, ritos, hierofanias, experiências místicas e paradoxos lógicos na linguagem, tais como os apresentados pela lógica paraconsistente.

O simbolismo como vertente epistemológica adotada pelo Alvissarismo nos leva à lei do Indizível e ao conceito de insciência cuja originalidade e importância estão justamente na oposição radical à ciência e a pseudociência.

A Lei do Indizível é a Lei de Deus que revelou a encarnação primeva do Logos, o Verbo divino que se fez carne e habitou entre nós, e que é o princípio e o fim de todo conhecimento, o alfa e o ômega. A Lei do Indizível é a Lei de Deus que limita o conhecimento do homem à origem do Logos, que é a fonte e a matriz de todo conhecimento possível. Sendo todos os eventos ocorridos antes da origem do Logos acontecimentos de ordem Indizível, pois ultrapassam os limites da origem do próprio conhecimento, não sendo acessível à Ciência quando essa transgride os limites da origem da linguagem (Logos), e acessível à Filosofia e à Religião apenas de forma hipotética e problemática. A Lei do Indizível é a Lei de Deus que diz que todo conhecimento que ultrapassa a barreira da linguagem, fincada historicamente em sua própria origem primitiva, é um conhecimento hipotético e problemático, jamais um conhecimento assertórico e apodítico, sendo a Ciência categoricamente limitada à origem do Logos.

No Alvissarismo não existe a pretensão à cientificidade de seus postulados; o Alvissarismo considera-se uma Insciência e não uma Ciência, sendo essa pretensão Kardecista à cientificidade enxergada pelo Alvissarismo como pseudocientífica, ingênua, arrogante, dogmática, fanática e sem qualquer base epistemológica crítica. A diferença entre a pseudociência sustentada pelo Kardecismo e a insciência sustentada pelo Alvissarismo é que a pseudociência Kardecista julga a si mesma como uma ciência (isto é, pretende ser uma ciência mesmo não sendo), enquanto que a insciência Alvissarista julga a si mesma como uma não-ciência (isto é, reconhece ser apenas uma filosofia e/ou religião); ou seja, a diferença entre a pseudociência e a insciência é que a primeira, por sua presunção, pretende ser uma ciência mesmo não resultando da aplicação do método científico válido, enquanto a segunda, por sua humildade, reconhece não ser uma ciência, resultando em um sistema de pensamento de origem filosófica, divina e inspirada, e por isso não é considerado uma pseudociência, já que não reivindica para si o status de ciência.

O conceito de Insciência foi apresentado pelo Alvissarismo no terceiro selo do primeiro tomo de Alvíssara, onde demonstramos que a Ciência não tem a explicação para tudo, o seu raciocínio lógico não consegue abarcar a totalidade das coisas, dos fatos e dos significantes. Em verdade, a parte das coisas, dos fatos e dos significantes que a Ciência tem acesso é apenas a ponta do iceberg. A parte submersa é então a Insciência, isto é, o conjunto de coisas, fatos e significantes aos quais a Ciência não tem acesso por estarem além dos limites da origem do Logos. Nisto consiste a descoberta epistemológica do Alvissarismo que revela a existência da Insciência, que é um termo epistemológico com dois significados distintos. Em um sentido amplo, mais genérico, é o conjunto do conhecimento cujo qual a Ciência não tem acesso. O segundo significado, mais específico, provém da Filosofia Alvissarista e designa uma forma específica de como esse conjunto de conhecimentos cujo qual a Ciência não tem acesso funciona e pode ser acessado. A Insciência define um complexo de coisas, fatos e significantes de natureza praticamente insondável, misteriosa, obscura, como a origem do universo, do homem, das paixões, do medo, da criatividade, da vida e da morte, que só podem ser acessados através de analogias e paradoxos lógicos na linguagem; através do mito, do rito, da ficção, da arte, do sonho e da hierofania. Ao dirigir-se à Ciência, a Insciência demanda que ela produza saber e depois tenta invalidar suas teorias. Do ponto de vista teórico, a Insciência representa a força motriz do conhecimento. A Insciência não parte para explicar tudo, com o saber que já possui, este é o trabalho da Ciência, nem mesmo dá por certo que todas as questões da existência serão respondidas algum dia, esta é a pretensão e a presunção da Ciência. Na Insciência, a impossibilidade e o limite aparecem como sendo a própria Verdade do Saber; isto significa que a Verdade da Insciência, sua força motriz, é o real, isto é, o mistério. A Insciência se distingue da Pseudociência por não ter a pretensão de ser uma Ciência, isto é, a Insciência não é uma Pseudociência porque não reivindica para si o status de Ciência, reconhecendo ser apenas um pensamento de origem filosófica, divina ou inspirada que não se adequa ao método científico válido. A Insciência não deve cuidadosamente reconciliar os paradoxos lógicos e as contradições existenciais, pelo contrário, ela deve procurar revelar a existência desses paradoxos e dessas contradições, demonstrando, do ponto de vista estrutural, que o seu objeto (existência, conhecimento, verdade, valor, estética, mente e linguagem) não pode ser conhecido em sua totalidade, pois há algo em seu objeto que é impossível conhecermos. A Função da Insciência é, pois, desvelar os seus próprios limites, é por isso que toda Insciência verdadeira é essencialmente crítica. O que caracteriza a Insciência é o limite, a incompletude, a incerteza e o paradoxo. Historicamente a Insciência nasceu com Sócrates, sendo posteriormente sistematizada na filosofia de Kant e Wittgenstein, na psicologia de Freud, Jung e Lacan, na física de Heisenberg e Schrödinger, e na matemática de Gödel e Russel, tendo sua constituição final revelada pela lógica paraconsistente de Newton da Costa e pela Epistemologia Alvissarista: o simbolismo e a tese original de que o Logos é a origem de todo conhecimento, seja ele a priori ou a posteriori.

Portanto, o Alvissarismo não assume a posição filosófica a qual Roberto Gomes chama de “mito da imparcialidade”; posição essa que é típica da intelectualidade brasileira.

Entre nós, porém, encontramos atitude oposta, que chamarei de “mito da imparcialidade”. Queremos estar acima das oposições. Não no sentido de assumi-las e então resolvê-las. Mas no sentido de evitá-las e então dissolvê-las. Aguando, como diria Oswald de Andrade.

E fato constante nossa tendência a evitar o choque de ideias e as tomadas de posição. Encontramos sempre um meio-termo entre, digamos, idealismo e realismo, subjetivismo e objetivismo, e houve mesmo quem entre nós encontrasse um meio-termo entre positivismo e marxismo, disparate que me intriga. Tudo isto poderia consistir em empresa louvável, mas não do modo como a conduzimos: dissolvendo oposições. Cabe, a propósito, alertar que no meio não está a virtude, como muitos pensam. No meio está o medíocre.

Eis por que, não assumindo uma posição nossa, um pensar brasileiro torna-se impossível – impossibilitado de criar por não aceitar destruir o passado que nos impuseram -, recusando assumir sua condição básica: que seja nosso, negador do alheio. (Gomes, R. 1994. p. 33)

O Alvissarismo assume a negação de seu próprio espírito de época através do Complexo de Fausto, que anuncia a morte da Ciência e a ressurreição de Deus; assume a negação de seu próprio espírito de época através do simbolismo, que sintetiza e se opõe tanto ao racionalismo quanto ao empirismo através de uma posição singular do idealismo; assume a negação de seu espírito de época através da Lei do indizível, que impõe uma ferida narcísica à Ciência; e, por fim, assume a negação de seu espírito de época através do originalíssimo conceito de Insciência, que se opõe tanto à Ciência quanto à Pseudociência. Portanto, o Alvissarismo não pretende estar acima das oposições, pelo contrário, pretende coloca-las no centro da investigação filosófica, assumindo a posição de meio-termo apenas como princípio regulador da sua prática moral.

O princípio regulador da prática moral do Alvissarismo é o método do meio-termo, que pode se estruturar em todos os formatos da existência humana: A prática moral e existencial de não extremismo: um caminho de moderação, equilíbrio e harmonia entre os opostos. O meio-termo entre as visões filosóficas, políticas, econômicas e religiosas; ou seja, entre a Esquerda e a Direita, o Alvissarismo representa o Caminho do Meio. Isso, no entanto, não faz do Alvissarismo, de modo algum, um sistema de Filosofia medíocre, mas sim um sistema de Filosofia que busca o equilíbrio dos opostos, porém, sem, no entanto, querer suplantar a oposição e a contradição, que é o princípio regulador do movimento e da transformação. O meio-termo adotado pelo Alvissarismo é algo diferente do meio-termo apontado por Roberto Gomes como uma posição medíocre, pois o Alvissarismo não pretende, de forma alguma, evitar o choque de ideias ou o conflito e a oposição, pelo contrário, a contradição e o paradoxo são a fonte e a matriz de toda a Filosofia Alvissarista. Não confundamos, portanto, alhos com bugalhos.

O Alvissarismo não assume, portanto, um espírito de imparcialidade, criando uma posição filosófica própria (o simbolismo), demonstrando assim uma maturidade intelectual que não caiu no ecletismo ingênuo e enlouquecido, que busca fugir e dissolver as oposições, as contradições e paradoxos, pelo contrário, o Alvissarismo enfrenta as oposições e as resolve. Eis a atitude filosófica que rompe de uma vez por todas com o débil ecletismo brasileiro, que buscando ser tudo ao mesmo tempo, acabou não sendo, portanto, nada.  Apesar de sincretizar o pensamento de Kant, Lacan, Wittgenstein, Platão e Kardec, o Alvissarismo foi capaz de produzir uma síntese original do pensamento desses cinco filósofos, manifestando em seu sistema uma ruptura com cada um deles em nome de um pensamento próprio e genuinamente brasileiro, caracterizando-se, portanto, como uma Filosofia necessariamente sincrética, porém absolutamente original e independente tal como a Umbanda e o Santo Daime, assumindo assim a existência de uma Razão Brasileira, rompendo, de uma vez por todas, com a sua tradição eclética.

Este gesto nos faltou: apostar. Lembremos que assumir uma posição não é fechar-se ao real, mas condição de realidade. Assumir uma posição não significa embotamento. É, ao contrário, condição de existência, o momento em que passamos a conviver com a dúvida. O contrário é a despersonalização na qual nos encontramos, atados a nosso dogma peculiar: a ingênua imparcialidade.

Todo pensamento é parcial. A partir do momento em que se põe. É delírio pretender um conhecimento absoluto, imutável. E aqui emerge outra de nossas contradições: de célicos, nos revelamos dogmáticos. Nosso ecletismo surgiu por não admitirmos limitações – querendo de tudo o “melhor”, o saber completo -, pelo fato de sonharmos com a ilimitação. Ora, Platão é o ponto de vista de Platão – nem poderia ser de modo diverso. Esta, a tragédia e a força de todo pensamento criador.

O dilema não é assumirmos ou não uma posição, mas assumi-la com espírito crítico. O espírito da dúvida, que sempre foi, quando a Filosofia soube ser fiel a si mesma, a essência do pensamento. (Gomes. R. 1994. p. 39 a 40)

Eis a grande revolução promovida pelo Alvissarismo dentro da história da Filosofia no Brasil: a dúvida, a incerteza, o limite, a incompletude. Faz-se Filosofia toda vez que se pensa radicalmente, ou seja, tudo o que a academia brasileira vem há séculos tentando evitar, e por isso a existência de uma Crítica da Razão Tupiniquim.

Desse modo, graças à descoberta da origem do Logos, a humanidade estará para todo sempre condenada à dúvida sobre sua origem, e este é o fator que faz com que possamos estabelecer as correlações existentes entre o homem e a sociedade. (Alvíssara 5; 1: 18)

O Alvissarismo é uma Filosofia original porque teve a audácia de ir até as origens do Brasil para explicar as origens da linguagem, do homem e do mundo, encontrando assim as condições de uma Filosofia Brasileira, mas ainda não Tupiniquim, pois uma Filosofia Tupiniquim não necessitaria de se utilizar do recurso da antropofagia como necessitou o Alvissarismo para erguer o seu sistema. O Alvissarismo é, portanto, inegavelmente uma Filosofia Brasileira, mas não uma Filosofia Tupiniquim, pois esta, para ser autêntica, demandaria ser composta não em português, mas sim em tupi-guarani. Faço minhas as palavras de Policarpo Quaresma. Os portugueses roubaram a nossa alma assim como o Homem de Trinil roubou o fogo do Homem de Pequim. O nosso propósito é, portanto, recuperar a nossa alma-língua roubada pelos portugueses, levando cada fonema tupi de mão e mão até chegar com a nossa língua original de volta à aldeia.

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