Filosofia Pau Brasil: a Alma do Povo Brasileiro

No livro Metodologia Alvissarista: Filosofia Pau Brasil analisamos o mito indígena do fogo. Mas como fica o mito do fogo? O que ele revela sobre a alma do povo brasileiro? Lévi-Strauss nos ensinou que o mito pode ser dividido em unidades (mitemas); ensinou-nos que existe uma dupla dimensão de leitura do mito, uma linear, consciente e diacrônica e outra não linear, inconsciente e sincrônica; e por fim, nos ensinou que o mito está referenciado tanto a outros mitos quanto à sociedade como um todo. Partindo destes três princípios básicos, analisemos o seguinte quadro, onde cada uma das diversas lendas do folclore brasileiro distribuídas equivale a um mitema. Este é o mito do fogo dividido em unidades, em mitemas. Mas como veremos, existem alguns desses mitemas que não fazem parte do mito do fogo. A razão para colocarmos diversos tipos de mitemas referentes às dezenas de lendas distintas do folclore brasileiro está ligada à ideia de Lévi-Strauss de que o mito está referenciado tanto a outros mitos quanto à sociedade como um todo, vendo o mito do fogo com um olho na sociedade brasileira que o produziu e outro olho nos demais mitos do folclore brasileiro. Feito isto, bastará apenas lermos o mito do fogo tanto na diacronia quanto na sincronia para revelarmos a alma do povo brasileiro expressa em seu folclore.

                                                                                       Quadro 1

Mito do fogo = O índio rouba o fogo do outro índio.

Lenda da Cuca = A Cuca rouba as criancinhas.

Lenda do Boitatá = Cobra de fogo, cega durante o dia e vidente durante a noite; certa noite a lua e as estrelas desapareceram, erguendo-se um breu total, ficando tudo na escuridão durante vários dias.

Lenda do Curupira: Menino de cabelos vermelhos e com os pés virados para trás, para despistar quem quiser segui-lo. Ele é tão rápido que muitas vezes ao passar pela mata, parece um vento forte. Ao entrar numa mata deve-se levar uma oferenda para o Curupira, assim ao agradá-lo não se perderá na mata.

Lenda do Saci-Pererê = A carapuça vermelha o deixa invisível. Ele é bom, mas bagunceiro. Some com objetos. E adora bagunçar no fogão.

Lenda da Lara ou Mãe D’Água: A outra metade peixe (da cintura pra baixo).

Lenda do Lobisomem: As noites de Quinta para Sexta-feira são as noites da transformação, há pessoas que dizem que a transformação só ocorre nas noites de lua cheia. Ele retorna à forma humana antes do dia clarear.

Lenda da Mula sem Cabeça: Nas noites em que ela aparece é possível se escutar seus relinchos e seu galope, parece um cavalo enfurecido.  Se alguém corajoso conseguir arrancar os freios da sua boca a maldição é quebrada para sempre e ela vira mulher novamente.

Lenda da Vitória Régia: De tão fascinada que ficou com aquela luz mágica, atirou-se nas águas e desapareceu para sempre.

Lenda do Neguinho do Pastoreio: Ao entardecer quando o menino voltou com os cavalos o fazendeiro reclamou que faltava um, um cavalo baio. Como castigo chicoteou o menino até sangrar e mandou o menino procurar o cavalo. Apavorado o menino foi à procura do cavalo baio. Quando finalmente o encontrou não conseguiu prendê-lo.

Lenda do Boto: Diz a lenda que ao anoitecer o Boto se transforma em um belo rapaz, alto e forte e sai a procura de diversão, festas e uma namorada. Vai a várias festas, dança muito, costuma beber bastante também. Antes do amanhecer ele tem que voltar para o rio, pois senão transforma-se em boto novamente. Algumas pessoas relatam que o boto se transforma em um rapaz elegante, bem vestido e que sempre usa chapéu (para esconder um orifício que possui na cabeça). Nas festas ele geralmente seduz alguma mulher bonita, casada ou não, a convida para dançar e depois saem da festa para namorar.

Lenda da Mandioca: Mani então, com pouco mais de um ano de repente morreu. Todos estranharam o triste fato, pois não havia ficado doente e nenhuma coisa diferente havia acontecido. A menina simplesmente deitou fechou os olhos e morreu. Toda a tribo ficou muito triste. Mani foi enterrada dentro da própria oca onde sempre morou. Todos os dias sua mãe, a jovem índia regava o local da sepultura de Mani, como era tradição do seu povo.

Lenda do Bicho Papão: Dizem que o bicho papão é um monstro que persegue as crianças travessas. O Bicho-papão aparece realmente para levar consigo as crianças desobedientes, que falam palavrões.

Lenda do Véu da Noiva: Quando começou a celebração, o grande- chefe iniciou a cerimônia, ordenando que trouxessem a noiva. Houve demora, até que vieram avisar que ela não se encontrava na oca. Imediatamente, os índios saíram para procurá-la. Todos desconfiavam que Itaerê a tinha raptado.

Lenda do Uirapuru
: Diz a lenda que um jovem guerreiro apaixonou-se pela esposa do grande cacique. Por se tratar de um amor proibido não poderia se aproximar dela. Sendo assim, pediu ao deus Tupã que o transformasse em um pássaro.
Tupã transformou-o em um pássaro vermelho telha, com um lindo canto. O cacique foi quem logo observou o canto maravilhoso daquele pássaro. Ficou tão fascinado que passou a perseguir o pássaro para aprisioná-lo e ter seu canto só para ele.
Na ânsia de capturar o pássaro, o cacique se perdeu na floresta.

Lenda da Cobra Honorato ou Cobra Grande: Numa tribo da Amazônia, algo inusitado aconteceu uma índia engravidou de uma cobra, uma boiúna após um banho de rio. Passados nove meses, a índia deu a luz a duas crianças, na verdade duas cobrinhas. A mãe desesperada e assustada por seus filhos serem cobras, jogou-os no rio.

Lenda da Sapucaia Oroca: Por muitas vezes os pajés advertiam a tribo do castigo que poderiam sofrer caso não parassem de fazer coisas erradas.  Mas os habitantes da tribo não o ouviam.  Um dia depois de festejos, danças e orgias a terra tremeu e as águas do Rio Madeira ergueram-se invadindo a aldeia, fazendo assim desaparecer toda a tribo.

Lenda do Açaí: Há muito tempo, quando ainda não existia a cidade de Belém do Pará, vivia no local uma tribo indígena. Nesta época os alimentos eram escassos e por este motivo o cacique tomou uma decisão muito cruel: resolveu que todas as crianças que nascessem a partir daquela data, seriam necessariamente sacrificadas, uma vez que não haveria alimento suficiente para todos.

A Lenda da Cidade Encantada de Jericoacoara: A princesa está encantada, vivendo na cidade que existe além do portão. Ela foi enfeitiçada, está transformada numa serpente de escamas de ouro, que tem a cabeça e os pés de mulher. Uma criatura bastante feia. A lenda diz que ela só pode ser desencantada com sangue de um humano. No dia em que se imolar alguém perto do portão, abrir-se-á o portão para o reino encantado. Com o sangue será feita uma cruz no dorso da serpente e assim, a princesa surgirá com toda a sua beleza, e o encanto da cidade será quebrado. Logo então, surgirá na praia um enorme palácio, com pedrarias preciosas que encantarão qualquer pessoa e a princesa se casará com o homem que a libertou do encanto.

Lenda do Arranca Línguas: Muitas pessoas descrevem o Arranca Línguas como sendo um monstro de dez metros. Há quem diga que se parece com uma mistura de gorila com homem.
Sua lenda diz que ele se alimenta de línguas dos animais e do homem, daí seu nome.
Costuma atacar suas vítimas à noite, matando-as e retirando-lhes a língua para comer.

Lenda do Guaraná: Certo dia, o curumim saiu sozinho para colher frutos na floresta. Jurupari aproveitou-se da ocasião e transformou-se numa serpente venenosa que picou o menino. O pequeno índio morreu quase que instantaneamente. O veneno da serpente era muito poderoso para o seu frágil corpinho de criança.

                                                                                      Quadro 2

Mito do Fogo: O fogo é recuperado e transpassado de mão em mão entre os índios para leva-lo de volta à aldeia.

Lenda do Boitatá: Uma cobra boiguaçu acordou faminta e começou a comer os olhos de animais mortos que brilhavam boiando nas águas. Alguns dizem que eles brilhavam devido à luz do último dia em que os animais viram o sol. De tanto olhos brilhantes que a cobra comeu, ela ficou toda brilhante como fogo e transparente.  A cobra se transformou num monstro incandescente, o Boitatá.

Lenda do Curupira: O Curupira tem o poder de ressuscitar qualquer animal morto sem sua permissão.

Lenda do Saci-Pererê: Menino negrinho, levado e arteiro. Só tem uma perna, mas salta de lá pra cá o dia inteiro.

Lenda da Lara ou Mãe D’água: Ela é uma sereia, metade mulher (da cintura pra cima).

Lenda do Lobisomem: Segundo a lenda se um casal que teve 7 filhas tiver um menino depois este será um Lobisomem. Aos 13 anos começa a sofrer a maldição e se transforma em um Lobisomem. Dizem alguns que há outras formas de passar a maldição adiante: quando um velho Lobisomem sente que vai morrer, ele fica sofrendo muito até passar o “encargo” a alguém mais moço. E não consegue morrer antes disso.

Lenda da Mula sem Cabeça: Dizem que é uma mulher que namorou um padre e foi amaldiçoada. Daí por diante, toda madrugada de quinta para sexta-feira ela se transforma em Mula-sem-cabeça.

Lenda da Vitória Régia: Numa noite linda uma jovem índia se encantou com o brilho da lua que refletia no lago.

Lenda do Neguinho do Pastoreio: Ao retornar à fazenda, o menino encontrou o fazendeiro ainda mais irritado. Este resolveu castigar chicoteou o garoto e o amarou em cima de um formigueiro. No dia seguinte o fazendeiro retornou ao local e se assustou com o que viu: o menino estava lá, de pé, sem nenhuma marca de chicotada, nem mordido de formigas, ao lado dele a Virgem Maria e próximo a eles o cavalo baio. O fazendeiro se ajoelhou pedindo perdão. O Menino nada respondeu, beijou as mãos da Nossa Senhora, montou no cavalo baio e partiu a galope.

Lenda do Boto: Antes do amanhecer ele retorna ao rio, deixando a namorada que geralmente não torna a vê-lo. Pouco tempo depois a moça descobre que ficou grávida do tal moço. Na região Amazônica sempre que uma moça solteira engravida suspeita-se logo que se trata de um filho do boto. Dizem que o boto adora as índias e gosta muito de mulheres com roupas vermelhas.

Lenda da Mandioca: Após algum tempo, algo estranho aconteceu. No local onde Mani foi enterrada começou a brotar uma planta desconhecida. Todos ficaram admirados com o acontecido . Resolveram, pois, desenterrar Mani, para enterrá-la em outro lugar. Para surpresa da tribo, o corpo da pequena índia não foi encontrado, encontraram somente as grossas raízes da planta desconhecida. A raiz era marrom, por fora, e branquinha por dentro. Após cozinharem e provarem a raiz entenderam que se tratava de um presente do Deus Tupã. A raiz de Mani veio para saciar a fome da tribo. Os índios deram o nome da raiz de Mani e como nasceu dentro de uma oca ficou Manioca, que hoje conhecemos como mandioca.

Lenda do Diabinho na Garrafa: Para conseguir o tal ovo, a pessoa deve procurá-lo durante o período da quaresma, e na primeira sexta feira após conseguir o ovo, a pessoa vai até uma encruzilhada, à meia- noite, com o ovo debaixo do braço esquerdo, após passar o horário retorna para casa e deita-se na cama. No fim de 40 dias aproximadamente, o ovo é chocado e nascerá o diabinho. Em posse do diabinho, a pessoa coloca-o logo numa garrafa e a fecha.Com o passar dos anos o diabinho enriquece o seu dono, e no final da vida leva a sua alma para o inferno.

Lenda da Porca dos Sete Leitões: Diz a lenda que um feiticeiro transformou uma baronesa muito má e seus sete filhos em porcos. Eles costumam aparecer na beira das estradas, para assustar os viajantes, a porca solta fogo pelos olhos, nariz e boca. Eles estão condenados a passar a vida procurando um anel enterrado, caso o encontrem o feitiço será quebrado.

Lenda do Guaraná: Preocupados com a demora do curumim, vários índios da aldeia partiram pela floresta para procurá-lo. Quando encontraram o menino todos lamentaram o ocorrido. Neste momento, raios e trovões caiam do céu. Os índios diziam ser o lamento de Tupã. A tristeza pairou sobre a aldeia. A mãe do curumim morto recebeu uma mensagem de Tupã dizendo que deviam plantar os olhos da criança. Os índios obedeceram ao pedido da mãe e plantaram os olhos do curumim. Algum tempo depois no lugar em que haviam sido enterrados os olhos da criança, brotava uma linda plantinha, o Guaraná, com fruto vermelho e que por dentro pareciam os olhos do menino.

Bem, o que será que existe em comum entre o quadro 1 e o quadro 2? Para nós é óbvio, os mitemas do quadro 1 indicam a ausência do Ser, da Coisa, do Objeto, do Fogo, da Luz, da Vida. Por outro lado o quadro 2 indica a notória presença do Ser, da Coisa, do Objeto, do Fogo, da Luz, da Vida. Sendo o quadro 1 oposto ao quadro 2 e vice-versa. Se no quadro 1 o fogo é roubado, no quadro 2 o fogo é recuperado. Se no quadro 1 a coisa está ausente, no quadro 2 a coisa está presente. Se no quadro 1 o objeto desaparece, no quadro 2 o objeto aparece. Se no quadro 1 a morte se mostra, no quadro dois a vida se revela. Se o quadro 1 é a negação, o quadro 2 é a afirmação. Se o quadro 1 indica a primazia do significante, o quadro 2 demonstra a importância do significado. Ambos os quadros fazem parte de uma estrutura elementar do folclore traduzindo a inquietação existencial que retumba na alma do povo brasileiro; a dificuldade, limite, incompletude, dúvida, paradoxo ou impossibilidade da sociedade brasileira de saber como surgiu o homem e a linguagem, bem como de saber como surgiu a sociedade brasileira e qual a sua identidade. O folclore brasileiro traduz uma inquietação filosófica que é própria do povo brasileiro. Qual a origem do universo, da vida e do homem? Qual a origem da linguagem? Como surgiu o Brasil? Nascemos de um único homem, povo, língua e nação ou da mistura de três homens, povos, línguas e nações? O Brasil nasceu do Brasil ou de Outro? Qual a identidade do povo brasileiro? Assim se dá a nossa análise do mito do fogo como o mito da origem do universo, da vida e do homem a partir do surgimento da linguagem, bem como o mito da origem do Brasil a partir do nascimento do povo brasileiro.

Mas quais são os fatores estruturais que determinam as características da alma do povo brasileiro? Considerando a existência concreta da segunda lei da história exposta anteriormente, o povo brasileiro, segundo a análise estrutural e dialética de seu folclore, possui, considerando o fator recessivo como (t) “Tese” e o fator dominante como (A) “Antítese”, as sociedades da geração parental como (A A) e (t t).

Com o sincretismo cultural entre índios, brancos e negros ocorrido na origem do Brasil, formam-se o G1, que são (A t), também chamadas heterozigotas. As sociedades (A t) transmitem aos seus descendentes tanto os fatores “A” quanto os fatores “t”.

G1- Proporção genotípica = 100% (A t). Proporção fenotípica = 100% Infanticídio.

G2- Proporção genotípica = 33,3% (A A); 66,6% (A t); 33,3% (t t). Proporção fenotípica = 100% Antítese e 0% Parricídio.

O Gene Social Dominante do Brasil é o gene social que tem o poder de manifestar na sociedade a característica cultural que ele determina. No exemplo dado anteriormente, os genes sociais dominantes são aqueles inscritos com letra maiúscula, ou seja, Antítese e Infanticídio, já que são 21 o número de mitemas referentes à Antítese, ao Nada, a ausência do Objeto, da Coisa, do Fogo, o Caos, a Treva e a Morte, e 14 apenas o número de mitemas referentes à Tese, ao Ser, a presença do Objeto, da Coisa, do Fogo, a Lei, a Luz e a Vida, e o número de mitemas referentes ao gene social dominante Infanticídio é de 6, enquanto que o gene social recessivo parricídio o Brasil não o possui em nenhuma das lendas e mitos do folclore brasileiro analisado anteriormente, e em nenhuma outra lenda ou mito do catálogo de todos os mitos e lendas do Brasil.

O Gene Social Recessivo é o gene social que só manifesta sua característica cultural na sociedade na ausência do gene social dominante. É representado por letras minúsculas. Em geral, a letra usada para representar os genes sociais dominantes e recessivos é a letra inicial da característica cultural determinada pelo gene social. Exemplo do Brasil:

Gene Social (t) = Tese

Gene Social (A) = Antítese

Gene Social (I) = Infanticídio

Gene Social (p) = Parricídio

O Fenótipo Social do Brasil é a manifestação da característica cultural na sociedade brasileira. O folclore brasileiro é o principal Fenôtipo Social do Brasil, contendo em si a alma do povo brasileiro.

O Brasil é uma sociedade em parte homozigota, já que apresenta genes sociais alelos iguais para a característica cultural do Infanticídio. A sociedade brasileira constitui-se com 100% de característica cultural infanticida (I I), não possuindo em seu folclore qualquer mitema de característica cultural parricida (P), diferentemente da sociedade grega, que possui característica cultural tanto parricida quanto infanticída.

Mas o Brasil também possui em seu cromossomo social as características das sociedades heterozigotas, que são aquelas que apresentam genes sociais alelos diferentes para uma determinada característica cultural, a exemplo da sociedade brasileira (A t), sendo heterozigota e representante da Antítese como a característica cultural dominante em seu fenótipo social.

Acabamos de perceber que o folclore brasileiro nos permite saber quais são as características culturais do Brasil. Mas porque o Brasil possui tais características culturais? Para responder a esta indagação é necessário que aprofundemos agora na história do Brasil, para assim analisarmos com mais clareza a razão pela qual o Brasil se estruturou com as características culturais (A t) e (I I).

O fator inicial, isto é, a matriz e a origem de toda a construção das características culturais do Brasil é a relação dialética entre o ato, o verbo que deu origem a Coisa, ao substantivo Brasil, que é derivado do pau-brasil, que é um tipo de árvore que na época era empregada na tinturaria de tecidos, e que era o objeto mais desejado pelos portugueses, assim como o fogo era desejado pelos homens primitivos, bem como a árvore da vida fora desejada por Adão e Eva.

O Brasil foi originalmente fundado através de um ato criminoso assim como a própria humanidade; ou seja, assim como a humanidade tem sua raiz plantada através da semente de um ato criminoso (o roubo do fogo), o Brasil tem sua raiz plantada através do roubo do pau-brasil. O Homem de Triniu roubara o fogo do Homem de Pequim, e os portugueses roubaram o pau-brasil dos índios nativos nesta terra milenar. Não demorou e logo toda a Mãe Europa veio roubar o pau-brasil, também conhecida como madeira cor de brasa, e porque não dizer, cor de fogo, e logo a história primitiva do roubo do fogo se repete novamente, agora não mais na Indonésia, mas sim no Brasil. Esta tese corrobora o fato de o Brasil ter adquirido uma genética social marcada pela característica dominante da Antítese. Tatuando assim a sua alma coletiva para todo sempre através do arquétipo criminoso do roubo do fogo e depois do pau-brasil, erguendo assim a primeira marca do código genético social do Brasil (A).

A característica cultural recessiva (t) só aparecera em cena a posteriori, quando o fogo fora encontrado pelo homem primitivo e transpassado de mão em mão até chegar com este de volta à aldeia. O mesmo processo que hoje pode ser visto nas corridas de toras existentes nas Olimpíadas indígenas, onde os índios passam a tora de mão em mão até chegar ao destino final.

Mas e quanto à característica cultural dominante do infanticídio que marca o código genético da sociedade brasileira tal como vimos anteriormente em seu folclore? De onde ela surge como característica histórico-cultural? Ora, a marca dominante do infanticídio na cultura brasileira surge pela primeira vez no segundo ato da fundação do Brasil: o extermínio, o genocídio, o holocausto, a morte de milhares de índios nativos causada pelas armas de fogo dos portugueses. O sacrifício, a imolação, a morte é por diversas vezes percebidas nas principais lendas do folclore brasileiro, tais como na lenda da mandioca, onde a raiva do pai pela vergonha da filha ter engravidado sem ainda ter-se casado era tão grande que ele pretendia sacrificar a própria filha. Ou na lenda do bicho-papão, que ataca crianças nas ruas desertas nas noites de sexta-feira. Ou na lenda da cobra Honorato, onde a mãe assustada por ter dado a luz duas cobras, acaba por jogar os filhos no rio, entre outros exemplos diversos, como a lenda do açaí, onde o cacique resolve sacrificar todas as crianças nascidas naquela data para não faltar alimento para todos futuramente, que é uma variação do sacrifício de Moisés comandado pelo faraó, bem como é uma variação do sacrifício de Jesus comandado por Herodes, ou o sacrifício dos próprios filhos de Herodes, mortos a mando do próprio pai para não roubarem seu trono. Esta característica cultural do Brasil explica porque ainda hoje o infanticídio indígena ocorre em terras tupiniquins e porque o cristianismo se enraizou tão bem em solo brasileiro, bem como porque estas terras mais tarde seriam palco para os horrores da ditadura brasileira liderada por Getúlio Vargas, que, posteriormente veio a cometer suicídio, assim como os índios do Brasil Central, que, para não realizarem o infanticídio exigido pela horda, trocam a suas vidas pela vida do filho, cometendo suicídio, exatamente o que fez Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, que, por causa do crime da Rua Tonelero, teve exigida a sua saída do cargo, e cometera suicídio, trocara a sua vida pela vida dos “filhos pobres”, deixara a vida para entrar na história.

O Brasil não possui em seu código genético social primitivo a característica cultural do parricídio, mas esta característica da genética social do Brasil já começa a aparecer aqui e acolá, como é o caso da inconfidência mineira, onde o líder da revolução fora brutalmente assassinado, ou então Chico Mendes, líder sindicalista assassinado e, por fim, a líder religiosa e missionária Dorothy Stang, também assassinada. Na ficção esta característica cultural aparece pela primeira vez na obra de Lima Barreto, com o personagem Policarpo Quaresma (o herói do Brasil) que fora injustamente preso, acusado de traição e posteriormente assassinado por ordem de Floriano Peixoto, e posteriormente na obra de Dias Gomes, com o personagem Zé do Burro (o mártir do sincretismo religioso) que fora incompreendido, discriminado e posteriormente assassinado em meio a um tumulto em plena escadaria da igreja de Santa Bárbara. O primeiro caso, tanto o real quanto o ficcional, é particularmente importante para história do Brasil, porque representa o nascimento da característica cultural do parricídio, inexistente na sociedade brasileira até a morte de Tiradentes, seguido pelo fuzilamento de Policarpo Quaresma, e por fim o fenômeno denominado pelo Alvissarismo de Complexo de Fausto, que dá continuação à característica cultural do parricídio ficcional herdado do Triste Fim de Policarpo Quaresma e do Pagador de Promessas, sendo uma referência metafórica ao poema trágico de Goethe, onde o personagem Fausto – o favorito de Deus -, um erudito que se depara com as limitações do conhecimento científico/humanista, passa a recorrer à magia para chegar ao conhecimento ilimitado. Esse processo vivenciado por Fausto simboliza em um poema trágico a metanoia de um espírito de época que historicamente foi revelado pioneiramente na filosofia de Vicente Ferreira da Silva. Assim como Fausto, Da Silva era um erudito que se deparou com os limites do positivismo lógico, da lógica matemática, do existencialismo e da fenomenologia, passando a recorrer à poesia, ao mito e ao rito para explicar as coisas do homem e do mundo não pelo olhar do próprio homem, mas sim pelo olhar de Deus. A metanoia vivenciada por Da Silva simboliza a metanoia de uma época. Comte e toda a geração positivista desconsiderava a introspecção como meio de se obter conhecimento sobre o homem e o mundo, insistindo na objetividade do conhecimento científico em detrimento do conhecimento teológico, metafísico e religioso, impossibilitando todo tipo de conhecimento não observável, descartando todo tipo de pesquisa cosmológica, considerando a metafísica inútil e inacessível à ciência. No entanto, esta posição foi desconstruída radicalmente através de avanços na química e na física, particularmente através dos trabalhos de Boltzmann e Max Planck, que comprovaram a existência de partículas não observáveis diretamente, confiando na intuição como forma de produzir conhecimento, se assemelhando ao que Charles Sanders Peirce denominou de abdução. O sonho de Nietzsche de um mundo sem Deus caiu por terra, pois o determinismo científico sucumbiu com o experimento imaginário do gato de Schörodinger, o princípio da incerteza de Heisenberg e o teorema da incompletude de Gödel. O trabalho exuberante desses três grandes cientistas marcou o princípio do fim do período nietzschiano da civilização ocidental e sua insistência dogmática e fanática em desprezar a metafísica, a teologia e a religião. A Filosofia de Da Silva sintetiza a vanguarda do espírito de uma época em que a humanidade se depara inexoravelmente com os limites da ciência e passa a recorrer à metafísica, a teologia e a religião para explicar os mistérios do homem e do mundo, anunciando assim, ainda no parto, a morte da ciência e a ressurreição de Deus.

 

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