Crítica à Teologia de Alan Kardec

No Livro Alvíssara apresentamos uma crítica filosófica e teológica à tese de Alan Kardec sobre a inexistência pessoal de Satanás e sobre a impossibilidade do retrocesso moral do espírito na roda das encarnações; crença esta que está na base teológica do Alvissarismo.  O que pretendemos com este escrito é considerar a hipótese da existência de Lúcifer dentro do contexto Judaico-Cristão-Espírita adotado pelo Alvissarismo, como sendo uma hipótese verdadeira. A crença na existência do Diabo é um dos três pilares principais da reforma Alvissarista dentro do Espiritismo.

A primeira questão a ser esclarecida aqui é a seguinte: quem é o espírito de Lúcifer para o Alvissarismo e quais as principais razões lógico-teológicas para acreditarmos na veracidade da hipótese de sua existência real?

Lúcifer é uma palavra proveniente do latim que significa “portador da luz”. Este é um ponto etimológico primordial que nos remete imediatamente ao mito Alvissarista da criação, onde Lúcifer é o irmão gêmeo de Jesus (os dois primeiros filhos reproduzidos pelo amor de Deus consigo mesmo, isto é, do Pai com o Espírito Santo), que rouba o fogo de Jesus no paraíso e, por consequência deste ato, gera uma mutação existencial e cosmológica no universo, criando uma mitose existencial no cosmos, dividindo-o em sensível e inteligível, como conceitos que estruturam o par de oposições binário entre o mundo material e o mundo espiritual. Desta mutação existencial-cosmológica gerada pelo ato de inveja, egoísmo, ganância, vaidade e orgulho de Lúcifer, a divisão de um único mundo em dois mundos paralelos produziu a divisão do cosmos em Céu, Purgatório e Inferno.

Ao roubar o fogo de Jesus, Lúcifer foi imediatamente aprisionado no Inferno, no centro da terra, que contém em seu núcleo uma realidade puramente espiritual paralela à realidade material. Jesus, por sua vez, por consequência do roubo do Fogo Sagrado do Espírito Santo, teve o seu espírito aprisionado no mundo sensível ou material, realizando-se assim a encarnação primeva do Verbo, que deu início ao ciclo cármico da roda das encarnações, sendo Jesus o primeiro espírito a encarnar no planeta terra, representado pela figura de Adão no corpo do pai primevo de Pequim.

Depois de ter seu espírito aprisionado no Inferno e Jesus ter seu espírito aprisionado no corpo do homem primitivo, Lúcifer enviou demônios a terra para roubar novamente o fogo de Jesus, espírito agora encarnado na terra como o pai primevo de Pequim, sendo o próprio Adão segundo a tradição Judaico-Cristã-Espírita adotada pelo Alvissarismo.

A primeira razão que indica a veracidade desta tese é o que chamaremos de prova etimológico-antropológica da existência de Lúcifer, que possui na significação latina do seu nome a prova histórico-linguística de sua existência, demonstrada pela analogia simbólica entre o nome Lúcifer (o portador da luz) e a Teologia Alvissarista do roubo do fogo. Como caíste do céu, ó Lúcifer, tu que ao ponto do dia parecias tão brilhante?(Isaías; 14: 12). O nome Lúcifer significa o que leva a luz, o portador da luz, no sentido de ser o espírito que roubou o fogo de Jesus no princípio do mundo, promovendo a queda do homem e a necessidade da encarnação do espírito, dando inicio ao ciclo cármico da roda das encarnações.  Para o Alvissarismo Lúcifer é Satanás, isto é, o anjo caído da ordem dos Querubins (Ezequiel; 28: 14), também chamado o Diabo, que quer dizer caluniador, acusador, ou Satã, que significa adversário.

Para a tradição Judaico-Cristã-Espírita adotada pelo Alvissarismo, Lúcifer é o espírito maligno que, transfigurado em uma serpente, tentou Adão a pecar, provocando a sua expulsão do paraíso, que nós entendemos como sendo o aprisionamento corporal do espírito na sua encarnação primeva, o momento em que o Verbo se fez carne e habitou entre nós. A expulsão de Adão do paraíso é, para o Alvissarismo, uma alegoria que explica a encarnação primeva do espírito, a queda do homem, provocada pelo roubo do fogo.

O Alvissarismo advoga a existência literal do Diabo, fazendo demonstrações míticas, teológicas, metafísicas e lógicas de sua existência dentro dos parâmetros da Bíblia, da Codificação Espírita e de Alvíssara, cânon considerado pelo Alvissarismo como sendo a Palavra de Deus. O Alvissarismo sustenta a tese da existência literal de Satanás, partindo do fato de que a Bíblia o menciona como sendo um ser espiritual, um “anjo de luz” que se rebelou contra Deus. Apocalipse apresenta Satanás como sendo o líder de uma rebelião celeste, e no versículo posterior, fala-se abertamente da retaliação necessária para que Satanás seja banido do céu e aprisionado no inferno, pois Satanás juntamente com seus seguidores demoníacos é vencido e aprisionado no centro do planeta terra, onde o Alvissarismo acredita ser o local geográfico do inferno. Apocalipse 12: 10 demonstra claramente a alegoria do céu, que o Alvissarismo interpreta como sendo o mundo inteligível de Platão e o mundo espiritual de Kardec, onde vivia Satanás antes de ser expulso e lançado para a terra, que representa o mundo sensível de Platão e o mundo material de Kardec, onde Satã está aprisionado em seu núcleo.

Toda a ideia Kardequiana de que o Diabo não existe está amparada no dogma da evolução; ou seja, para Kardec e os espíritas Kardecistas não é possível retroceder na escala da evolução, sendo esta estruturada através de um progresso contínuo e linear. O erro de Kardec aqui é lógico e notório, pois não há nada no mundo nem fora dele que impeça a um espírito de retroceder moralmente na roda das encarnações. Se o espírito é livre para escolher os seus próprios caminhos na existência, isto significa de imediato que ele possui o livre-arbítrio para escolher entre o bem e o mal, entre o vício e a virtude, entre o débito e o crédito, não havendo nenhuma regra que o impeça de involuir ao invés de evoluir. Se negarmos a possibilidade do retrocesso da contabilidade moral do espírito na roda das encarnações, tal como fizera Kardec, não poderemos afirmar que o espírito possui o livre-arbítrio, pois se um espírito não pode, de forma alguma, retroceder moralmente, isto significa que ele não é livre para escolher o seu caminho moral, sendo obrigado de forma universal e necessária a progredir linearmente na roda das encarnações.  Ou seja, se Kardec nega por um lado a possibilidade do retrocesso moral na roda das encarnações, por outro lado ele não pode afirmar a existência do livre-arbítrio, pois se este existe de fato, não há absolutamente nada no mundo nem fora dele que impeça o espírito de retrogradar. Se afirmarmos a existência do livre-arbítrio, necessariamente havemos de afirmar a existência da involução moral do espírito no processo reencarnatório, pois é justamente o livre-arbítrio que permite ao homem escolher tanto progredir quanto retrogradar.

Se a tese de Kardec sobre a impossibilidade do retrocesso moral fosse verdadeira, o homem seria incapaz de fazer o mal. O erro de Kardec é notório a todos com o mínimo de conhecimento em lógica, metafísica e teologia. O dogma da evolução é inconciliável com a ideia do livre-arbítrio, pois se a evolução é uma regra universal e necessária, tal como pregava Kardec, então é impossível fazer o mal, pois do contrário estaríamos transgredindo a regra da evolução; mas se existe o livre-arbítrio, então não há absolutamente nada no universo que impeça o espírito de retrogradar, estagnar ou progredir moralmente. Se o livre-arbítrio permite, segundo Kardec, a estagnação ou progressão moral do espírito, então o que é que o impede de retrogradar? Ora, absolutamente nada. Este foi o erro de Kardec. Mas por que Kardec veio a cometer erro tão esdrúxulo? Ora, a fonte do erro de Kardec está na influência que o positivismo de Augusto Comte causou em sua obra. A ideia dogmática do progresso é a fonte do erro lógico, metafísico e teológico de Alan Kardec. Este erro já foi muito bem exposto pelos dois maiores filósofos espíritas de todos os tempos, que são Pietro Ubaldi e Luiz Caramaschi, que, da mesma forma como o Alvissarismo, também aceitam a queda do anjo e a possibilidade do retrocesso moral na roda das encarnações como princípio teológico fundamental que explica a existência do mal, do sofrimento, da morte e, principalmente, explica o fato de o espírito estar momentaneamente preso ao corpo, ou seja, a queda de Lúcifer e a possibilidade do retrocesso moral na roda das reencarnações explica através da lógica, da metafísica e da teologia a razão pela qual o espírito se fez carne.

Os conceitos de queda e involução são justamente os conceitos que diferenciam a doutrina da reencarnação no Espiritismo Kardecista e no Espiritismo Alvissarista.  No Alvissarismo existe a possibilidade do retrocesso na roda das encarnações, na medida em que, no Alvissarismo a reencarnação não é um processo absolutamente linear, tal como é no Espiritismo. Há um processo linear em funcionamento no qual experimentamos no presente as consequências de nossas ações do passado, mas também há um processo sincrônico, no qual o futuro é influenciado pelas nossas ações do presente. Dessa forma o Alvissarismo deixa espaço para o livre-arbítrio, na medida em que a roda das encarnações é estruturada como uma linguagem que contrapõe a diacronia linear da vida à sincronia não linear da morte.

O limite e a incompletude da razão descobertos por Kant, Russel, Wittgenestein, Hume, Popper, Gödel, Heisenberg e Schrödinger, absolutamente negados pelo Espiritismo, levou Kardec a pensar que a sua concepção da roda das encarnações, estruturada pelo dogma da evolução, influenciado pela ideia de progresso do positivismo, fosse epistemologicamente positiva também na metafísica, ou seja, Kardec desconsiderou os limites da razão descobertos por Kant e pensou que a sua metafísica reencarnacionista estivesse estruturada em juízos assertóricos e apodíticos, legando ao Espiritismo a presunção e a prepotência dogmática de apresentar a sua teoria da reencarnação como sendo a única possibilidade possível, como sendo a hipótese verdadeira dentre todas as outras hipóteses da reencarnação apresentadas por filosofias e religiões do mundo todo, como o Pitagorismo, o Platonismo, o Taoísmo, o Confucionismo, o Hinduísmo e o Budismo, que é a filosofia e a religião que deu as bases fundamentais para o Alvissarismo arquitetar através do estruturalismo dialético e da lógica matemática de Lacan a sua teoria da reencarnação baseada na oposição binária entre a vida e a morte, entre o crédito e o débito, através da diacronia linear da evolução em contraposição à sincronia não linear da criação.

A concepção absolutamente linear da história e da reencarnação obrigou Kardec a negar completamente a existência de Satanás, considerando como um conceito teológico ilógico, pois pressupõe a queda de um ser angelical, puro, perfeito, e Kardec considera que um ser angelical não poderia se revoltar contra Deus, ou possuir em seu espírito sentimento de inveja, ciúme, orgulho, egoísmo, etc., pois um ser angelical seria moralmente perfeito, não podendo retrogradar moralmente na roda das encarnações. Para Kardec Satanás e os demônios seriam apenas espíritos moralmente atrasados, sendo Satanás somente a personificação do mal em uma alegoria, uma fantasia, um arquétipo.

O grande engano de Kardec foi não atentar para o fato de que, mesmo conseguindo se libertar do ciclo cármico da roda das encarnações, o espírito não se torna insensível às condições existenciais de seu ser, ou seja, o fato de um espírito ter conseguido atingir a angelitude, isto não o impede de sentir inveja, ciúme, orgulho, egoísmo, etc., pois esses são sentimentos inerentes a todo ser, a todo espírito; nenhum espírito que atinge a angelitude se torna insensível a sentimentos viciosos, ou seja, a angelitude não proíbe que em um determinado momento da existência o anjo venha sentir inveja, ciúme, orgulho, egoísmo e etc. Os anjos também pecam, e é isso o que faz deles seres espirituais absolutamente livres, habitando um lugar celeste fora do tempo e do espaço, fora do ciclo cármico da roda das encarnações. A Angelitude é um conceito que designa a libertação do espírito do ciclo cármico da roda das encarnações, conseguida por seu próprio mérito e liberdade de escolher trocar todos os seus vícios por virtudes assim como todos os seus débitos por créditos, pagando toda a sua dívida para com Deus, a natureza e o próximo; no entanto, o fato de um espírito angelical possuir um saldo moral positivo, pois é isto o que promove a angelitude, isto não o impede de passar de um saldo moral positivo para um saldo moral negativo, caso assim escolha, por sua liberdade, por alguma razão, como inveja, ciúme, egoísmo, enfim, algum vício moral que desperte por algum motivo no seio do espírito o mal, fazendo a sua contabilidade moral decair gradativamente, como é o caso dos demônios, ou subitamente, como é o caso de Lúcifer, que de anjo de luz se tornou o príncipe das trevas.

O Alvissarismo considera que todas as alusões de Satanás na Bíblia são literais, pois, o Alvissarismo possui quatro boas razões para acreditar na existência do Diabo. A primeira é a prova etimológico-antropológica, que demonstra o elo lógico e simbólico que liga a etimologia da palavra Lúcifer (o que leva a luz, o portador da luz) com o mito Alvissarista da criação, da encarnação primeva do Verbo baseada na nossa teoria sobre o roubo do fogo que teria dado origem à linguagem, isto é, à razão, ao Logos. O segundo motivo para que o Alvissarismo considere a existência literal do Diabo é a prova bíblica, e como o Alvissarismo é um sincretismo entre o Judaísmo, o Cristianismo e o Espiritismo, logo a Bíblia (em conjunto com a Codificação Espírita e Alvíssara) é também considerada a Palavra de Deus, sendo sempre respeitada e considerada como fonte do conhecimento divino e sobrenatural. O terceiro motivo para que o Alvissarismo considere como real a existência do Diabo é a elaboração teológico-filosófica da teoria da queda proposta por Pietro Ubaldi e Luiz Caramschi, que propõem a necessidade da aceitação da teoria da queda por parte do Espiritismo devido a universalização desta teoria entre a maioria da religiões. E o quarto e último motivo é o testemunho da existência literal de Lúcifer corroborada por diversos místicos em toda a história da humanidade, e atualmente atestada pelo escritor e místico Pedro Siqueira, que sanciona a existência de Satanás e dos demônios  pela mediunidade que lhe foi dada como dom do Espírito Santo, tendo o apoio de espíritos sublimes como o de Nossa Senhora, São Miguel Arcanjo e São Francisco de Assis, entre outros grandes vultos da história da Igreja santificados pela fé e pelas obras.

 

Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a numerar a Israel. E disse Davi a Joabe e aos maiorais do povo: ide, numerai a Israel, desde Berseba até Dã; e trazei-me a conta para que saiba o número deles. (1 crônicas; 21; 1 A 2).

 

Ora, chegado o dia em que os anjos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles. O Senhor perguntou a Satanás: De onde vens? E Satanás respondeu ao Senhor dizendo: De rodear a terra, e de passear por ela. Disse o Senhor a Satanás: Notaste por ventura o meu servo Jó, que ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, que teme a Deus e se desvia do mal? Então respondeu Satanás ao Senhor, e disse: Porventura Jó teme a Deus debalde? Não o tens protegido de todo lado a ele, a sua casa e tudo quanto tem? Tens abençoado a obra de suas mãos e os teus bens se multiplicam na terra na terra. Mas estende agora a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e ele blasfemará de ti na tua face! Ao que disse Senhor a Satanás: Eis que tudo o que ele tem está no teu poder, somente contra ele não estenderás a tua mão. E Satanás saiu da presença do Senhor. (Jó; 1: 6 a 12).

 

E ele mostrou-me o sumo sacerdote Josué, o qual estava diante do anjo do Senhor, e Satanás estava à sua mão direita, para se lhe opor. Mas o Senhor disse a Satanás: O Senhor te repreenda, ó Satanás, sim, o Senhor, que escolheu Jerusalém, te repreenda; não é este um tição tirado do fogo? (Zacarias; 3: 1 a 2).

 

Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome. Chegando, então, o tentador, disse-lhe: Se tu és Filho de Deus manda que estas pedras se transformem em pães. Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. (Mateus; 4: 1 a 3)

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