Uma Interpretação Religiosa da Teoria da Quase-Verdade de Newton da Costa

Intolerância religiosa é o conceito que designa a prática moral definida pelo não reconhecimento da veracidade de outras religiões além da que é apregoada pelo sujeito, essa atitude é caracterizada principalmente pelo desrespeito e a perseguição às diferentes crenças religiosas, mas está fundada em outros vícios morais como a discriminação, o preconceito, a arrogância, a pretensão e o orgulho.

A intolerância religiosa é basicamente a atitude de não aceitação de outras ideologias religiosas além da que é comungada pelo sujeito, isto é, o indivíduo, por conta de todos esses vícios morais expressos anteriormente, e principalmente por conta do dogmatismo e do fanatismo (que são as transgressões dos limites da razão), pensa que somente a sua ideologia religiosa é a verdadeira, e que todas as outras são falsas ou coisa de Satanás. Isso é o que se chama fundamentalismo religioso, e ele é extremamente danoso à toda humanidade, porque ao invés de fomentar a riqueza da diversidade religiosa, ele exige que todos tenham a mesma religião, produzindo a intolerância e o desrespeito ao próximo; sendo esta a fonte e a matriz de todo o mal que a religião já fez ao homem desde o princípio do mundo, gerando guerras, holocaustos, genocídios, inquisições, condenações à morte em fogo, perseguição, homens-bombas e etc.

O intolerante religioso é aquele que, sem perceber, exige que toda a humanidade tenha os mesmo costumes e crenças, pois acha que os costumes e crenças apregoados de forma diferente da dele são falsos. Ora, existe atitude mais arrogante, dogmática e fanática do que a atitude do intolerante religioso? Ele simplesmente pensa que a sua visão de mundo é a única verdadeira e que todas as outras são falsas, e o pior, que todas as pessoas deveriam professar a mesma fé que ele. Essa é uma atitude ditatorial e autoritária de pessoas que querem impor o seu modo de ser às outras pessoas, e que são incapazes de compreender que as diferenças culturais, religiosas e ideológicas são próprias da condição da existência humana.

Assim como há diversas línguas e culturas, também só poderia haver diversas religiões, e, no entanto, ninguém poderá dizer que a verdadeira cultura é a cultura grega e que a cultura hebraica é falsa, ou então que a verdadeira língua é a língua alemã e que a língua portuguesa é falsa, isso é ridículo. A intolerância religiosa é isso: alguém que exige que todas as pessoas tenham os mesmos costumes e falem a mesma língua, já que a religião aqui é comparada à língua, pois ambas são produtos da cultura. Acaso existe na terra atitude mais pueril e ingênua do que essa? Por que existem tantas religiões? Ora, pelo mesmo motivo pelo qual existem tantas línguas! A diversidade cultural é uma condição da existência humana.

Desse modo, se o signo linguístico une não uma coisa e um nome, mas um conceito e uma imagem acústica, logo nós deduzimos que a palavra – fogo – enquanto signo primordial para o advento da linguagem, não teve nada haver, no princípio, com o objeto fogo em si mesmo, na medida em que a emergência desse signo não provém da ligação entre o objeto fogo e a palavra fogo, mas sim da ligação entre o conceito fogo e a imagem acústica fogo. Isso quer dizer que não há relação direta entre o nome fogo e a coisa fogo, a relação que existe é entre o conceito fogo e a imagem acústica fogo. Não há relação direta entre nomes e coisas, mas sim entre conceitos e imagens acústicas. É justamente por não haver qualquer relação direta entre os nomes e as coisas que existem tantas línguas no mundo assim como existem tantas culturas, já que a língua faz parte da cultura de um povo. Se houvesse qualquer relação direta entre os nomes e as coisas todos os seres humanos falariam a mesma língua e teriam a mesma cultura. Cada família, horda, grupo ou comunidade de seres humanos nomeia as coisas do mundo de acordo com a relação que eles estabelecem entre o conceito e a imagem acústica das coisas do mundo. A relação entre o conceito e a imagem acústica que fundamenta a ligação entre os nomes e as coisas que os mesmos designam não é natural, mas sim convencional. Convenções sociais estão envolvidas na fixação dos nomes às coisas do mundo. Nomes como Eu Sou, Javé, Tupã, Alá, Brahma e todos os outros nomes referem-se ao mesmo Ser Divino Único, cuja natureza é inefável, indizível.

Mas o que é a cultura? A mais corrente definição de cultura é a formulada por Edward B. Tylor, que define a cultura da seguinte forma: “Cultura é o complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Dito isto, como pode alguém se espantar com a diversidade religiosa existente no mundo? Espantoso seria se todas as pessoas falassem a mesma língua, tivessem os mesmos costumes e a mesma religião. Exigir que todas as pessoas tenham a mesma religião é exigir que todas as pessoas tenham a mesma cultura. E vós não achais que isso é exigir de mais da condição humana? Ninguém na face da terra pode dizer que a religião x é verdadeira e que a religião y é falsa, pelo mesmo motivo pelo qual ninguém na face da terra pode dizer que a cultura x é verdadeira e que a cultura y é falsa, ou que a língua x é verdadeira e que a língua y é falsa. O sujeito que diz que a sua religião é a única verdadeira e que todas as outras religiões são falsas é um sujeito infantil, prepotente, arrogante e absolutamente desinformado das condições da existência humana. Exigir que todos os homens tenham a mesma religião é exigir de mais da condição humana. Vós não percebeis isso?

O intolerante religioso é aquele que, por pura arrogância e vaidade, se acha o dono da verdade, e não consegue perceber que a visão de mundo dele é apenas uma dentre as diversas existentes na face da terra, e que não há nada no mundo nem fora dele capaz de provar que a visão dele é que é a verdadeira e que todas as outras são falsas. Para falar a verdade, em termos de probabilidade, uma pessoa que apregoa que a sua religião é a única verdadeira e que todas as outras são falsas, tem possibilidades quase nulas de estar certa, quer dizer, ele tem uma chance em milhões de estar com a razão. Porém, como poderia ela admitir as diferenças culturais e religiosas se narciso acha feio tudo àquilo que não é espelho? As diversas religiões existentes na história do homem e do mundo são caminhos diferentes para o mesmo Deus. Se todos os bons caminhos levam a Deus, que te importa se o nosso caminho (O Alvissarismo) é diferente do teu? “Toda escritura divinamente inspirada é útil para ensinar, para repreender, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e capacitado para toda boa obra” (Timóteo; 3: 16).  É bem comum ver cristãos (sejam eles ortodoxos, católicos ou protestantes) defenderem a tese de que existe uma única religião verdadeira – o Cristianismo – e que todas as grandes religiões do mundo são falsas ou seitas como eles costumam dizer pejorativamente. Esta crença de que existe apenas uma religião verdadeira está fundamentada no seguinte dito de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim”. (João; 14: 6). Esta passagem bíblica é a fonte de todo o fanatismo, dogmatismo e intolerância religiosa por parte dos cristãos. Este é o ponto chave, pois Jesus disse “Eu sou o Caminho, a verdade e a Vida” e não “Eu sou o único caminho, a única verdade, a única vida”Ora, o que os cristãos clássicos (em geral os mais fanáticos e dogmáticos) não conseguem compreender é que, do ponto de vista da lógica, se eu digo “Eu sou o carpinteiro, o criador de mesas e cadeiras. Ninguém possui uma cadeira ou mesa se eu não a construir”, isto não quer dizer de forma alguma que eu seja o único carpinteiro do mundo, mas tão somente que “Eu sou o carpinteiro, o criador de mesas e cadeiras. Ninguém possuirá uma cadeira ou mesa senão por mim”. Do mesmo modo, quando Jesus nos diz “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” ele está dizendo, do ponto de vista lógico, apenas que ele é o caminho, mas não que ele seja o único caminho. Ele está dizendo que ele é a verdade, mas não que seja a única verdade. Ele está dizendo que seja a vida, mas não a única vida. e quando diz que “Ninguém vem ao pai senão por mim” ele está dizendo, do ponto de vista lógico, apenas que ninguém chegará ao Pai senão por seus atos, assim como ninguém possuirá uma cadeira ou mesa senão pelos atos do carpinteiro. E é preciso lembrar aos cristãos fanáticos e dogmáticos defensores da veracidade de uma única religião no mundo, que estas palavras de Jesus foram ditas dentro de um contexto onde ele dizia que “Na casa do Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito. Pois eu vou preparar-vos um lugar”. Ora, fica claro aqui que todos os cristãos fanáticos e dogmáticos que defendem a veracidade única do cristianismo como religião o faz de forma descontextualizada e leviana, para não dizer arrogante e prepotente, pois antes de dizer “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”, o próprio Jesus o disse: “Na casa do Pai há muitas moradas. Se assim não fora eu vo-lo teria dito. Pois eu vou preparar-vos um lugar”. Ora, se na casa do pai existem muitas moradas, por que então haveria somente um caminho, uma verdade e uma vida? Jesus disse: “Pois eu vou preparar-vos um lugar”, e não “Eu vou preparar-vos um único lugar”. O problema desses cristãos fanáticos e dogmáticos que se apegam ao capítulo 14 do livro de João para apregoar aos quatro ventos que o cristianismo é a única religião verdadeira e que todas as outras são falsas, seitas ou coisas do diabo é a leitura desonesta e descontextualizada das Bíblia junto com o sentimento de orgulho, arrogância e prepotência de pensar que eles possuem acesso à Verdade Absoluta

Na história das religiões, cada uma delas se apresenta como estritamente verdadeira, salvando assim a sua aparência, no entanto, partindo da análise histórica das religiões é possível perceber que, em um sentido puramente técnico, cada uma delas apresenta em um determinado momento histórico-cultural uma quase-verdade ou uma verdade parcial (no sentido ao qual Newton da Costa dá ao termo, porém interpretado não a partir da ciência, mas sim da religião). A meta de todas as religiões é revelar a verdade ou a quase-verdade através de um retrato da Verdade, uma unidade histórica do real. A religião pretende conhecer o real como ele é em si mesmo, constituindo-se como uma teoria da correspondência da verdade absoluta, onde um único pensamento religioso corresponde à Verdade. Mas a história das religiões demonstra que não é assim que a Verdade se revela ao homem, cada religião revela apenas uma parte da Verdade, sendo, portanto, uma quase-verdade. As grandes religiões se mostram como as detentoras da Verdade Absoluta, mas quando se analisa a história o que se vê é que todas as religiões possuem uma verdade parcial sobre Deus, o homem e o mundo. Todas as grandes religiões são, em verdade, quase verdadeiras. Por exemplo, é comum no meio religioso pensar que o cristianismo desbancou o judaísmo, ou o protestantismo desbancou o catolicismo, ou o islamismo desbancou o judaísmo ou o cristianismo, ou o budismo desbancou o hinduísmo, ou o espiritismo desbancou o catolicismo, e assim por diante. Isso, no entanto, é absolutamente falso. Deus, durante a história, revelou-se ao mundo através de uma sucessão de Livros Sagrados de todas as grandes religiões por meio de seus mensageiros diretos e indiretos, cujo propósito sempre foi o de religar o homem a Deus. Cada religião é quase verdadeira dentro de determinados limites históricos e culturais. Todas as grandes religiões são verdades parciais da Verdade Absoluta. Vejam bem, nós não negamos a existência da Verdade Absoluta, nós somente não concordamos com a tese do cristianismo clássico de que esta Verdade Absoluta (Deus) possa ser conhecida em sua totalidade, mas tão somente de forma incompleta e limitada.

“Sete sábios, cada um de uma religião, discutiam qual deles conhecia, realmente, a verdade.

Um rei muito sábio que observava a discussão aproximou-se e perguntou:

– O que vocês estão discutindo?

– Estamos tentando descobrir qual de nós é dono da verdade.

Ao escutar isso, o rei, imediatamente, pediu a um de seus servos que levasse sete cegos e um elefante até o seu castelo. Quando os cegos e o elefante chegaram ao palácio, o rei mandou chamar os sete sábios e pediu-lhes que observassem o que aconteceria a seguir.

O sábio rei pediu aos cegos que tocassem o elefante e o descrevessem, um de cada vez.

O primeiro cego tocou a tromba do elefante e disse:

– É comprido, parece uma serpente.

O segundo tocou-o no dente e disse:

– É duro, parece uma pedra.

O terceiro segurou-lhe o rabo e disse:

– É cheio de cordinhas.

O quarto pegou na orelha e disse:

– Parece um couro bem grosso.

E assim, sucessivamente, cada cego descreveu o elefante de acordo com a parte dele que estava tocando.

Quando todos terminaram de descrever o animal, o rei perguntou aos sete sábios:

– Algum desses cegos mentiu?

– Não! – responderam os sábios em coro – Todos falaram a verdade.

Então, o rei perguntou:

– Mas algum deles disse realmente o que é um elefante?

– Não, nenhum cego disse o que é um elefante, mesmo porque cada um tocou apenas uma parte dele – disse um dos sábios.

– Vocês, sábios, que estão discutindo quem é dono da verdade, parecem cegos. Todos estão falando a verdade, mas, como os sete cegos, cada um se refere apenas a uma parte dela – disse o sábio rei, concluindo: – Ninguém é dono da verdade, porque ninguém a detém por inteiro. Somos donos apenas de parte da verdade”.

Mas se o Budismo diz que “Deus não existe” e o Cristianismo diz que “Deus existe”, considerando que ambas as religiões são verdadeiras; a partir da premissa de que existe mais de uma religião verdadeira, mas que nem todas as religiões são verdadeiras, é possível provar absolutamente qualquer coisa, como “Papai Noel existe”. Se mais de uma religião é verdadeira, ou seja, se não existe uma Verdade Absoluta do ponto de vista religioso, sendo apenas uma única religião a verdadeira e todas as outras falsas, nós podemos inferir que “Deus não existe” de acordo com a primeira afirmação promovida pelo Budismo, pois assim seria possível dizer que a afirmação “Deus existe ou Papai Noel existe”, como uma das duas afirmativas precisa ser verdadeira para que esta demonstração seja verdadeira, e como foi demonstrada a firmação de que “Deus existe”, então “coelhinho da páscoa existe”. Como “Deus existe ou Papai Noel existe”, uma vez que “Deus não existe”, que foi a proposição inicial, é crível que o “Papai Noel existe”. A partir da contradição entre a religião que diz que “Deus existe” e a religião que diz que “Deus não existe”, qualquer coisa é possível seguir ou surgir desta contradição como mostra o princípio de explosão, que coloca em evidência o fato de que se o Budismo que diz que “Deus não existe” e o Cristianismo que diz que “Deus existe” são religiões verdadeiras ao mesmo tempo, desta contradição é possível derivar qualquer conclusão, como a de que “Papai Noel existe”, e, no entanto, porque não surgiu um culto religioso em torno do mito do Papai Noel como surgiu em torno dos mitos de Buda e Cristo? O que faz com que a existência de Buda e Cristo sejam mais críveis do que a existência do Papai Noel? Se a fé não tem limites, então tudo é permitido, até mesmo crer num bule de chá entre a terra e marte girando em torno do sol. O que faz com que a existência de Deus, anjos e demônios seja mais crível do que a existência de um gnomo ou da fada dos dentes? Quais são os limites da fé? Na fé tudo é permitido? O que torna uma entidade mais crível do que outra? Javé é mais crível que Tupã? Alá é mais crível que Brahma? A existência de Deus é mais crível do que a existência de um bule de chá entre a terra e marte girando em torno do sol? O que faz com que a crença em Deus seja diferente da crença em Papai Noel? Como determinar os limites da fé sem que tudo seja permitido? Como determinar os limites entre aquilo que é crível e aquilo que não é crível do ponto de vista da religião?

Para a mesma religião quase verdadeira há infinitas outras religiões verdadeiras, e a história das religiões prova isso. E essas religiões quase verdadeiras são de modo geral incompatíveis entre si, logo, a teoria da quase-verdade de Da Costa aplicada à religião, demonstra que esta é regida por uma lógica paraconsistente que se estrutura na proposição “O homem está morto, mas está vivo”, que fundamenta a mensagem central de todas as religiões: a vida após a morte, sem mesmo que isso constitua a veracidade de todas as religiões possíveis, isto é, sem que o princípio de explosão faça com que todas as religiões sejam verdadeiras, ou seja, onde é possível que determinadas religiões sejam falsas. Mas como reconhecer uma religião verdadeira em meio a outras religiões falsas? Com base na lógica paraconsistente exposta na proposição “O homem está morto, mas está vivo”, uma religião será verdadeira se e só se ela tiver como mensagem central a vida após a morte, seja ela exposta através da ressurreição, da imortalidade, do renascimento ou da reencarnação, isto é, uma religião será falsa se e só se ela for aniquilacionista. Um exemplo clássico de falsa religião dentro da história foi a seita judaica dos saduceus, que não apregoava nenhuma das quatro possíveis formas de crença na vida após a morte descritas anteriormente. Eis porque surgiu um culto religioso em torno dos mitos de Buda e Cristo e não surgiu um culto religioso em torno do mito do Papai Noel. O que faz com que Buda e Cristo sejam mais críveis do que o Papai Noel é o fato de suas figuras estarem diretamente ligadas à ideia de alguma forma de vida real após a morte. Os limites da fé são os limites da vida após a morte. O que faz com que a existência de Deus, dos anjos ou dos demônios seja mais crível do que a existência de gnomos ou da fada dos dentes é o fato de o nome de Deus, dos anjos e demônios estar diretamente relacionado à ideia de uma vida após a morte, tornando-os mais críveis do que as outras entidades. Mas Jeová não é mais crível que Tupã, nem Alá mais crível que Brahama, pois neste caso muda-se apenas o nome da mesma entidade divina, estando todos esses nomes diretamente relacionados à ideia central de uma vida após a morte. A existência de Deus é mais crível do que a existência de um bule de chá entre a terra e marte girando em torno do sol porque tal bule não está relacionado à ideia de vida após a morte tal como está Deus. A ideia central da vida após a morte é o que determina os limites da fé sem que todo tipo de fé seja permitida, como por exemplo, a fé no Papai Noel, no Coelhinho da Páscoa, no Gnomo ou na Fada dos Dentes. A ideia de vida após a morte é justamente o que determina a verossimilhança de uma crença ou entidade, que, qualquer que seja ela, desde que esteja ligada ou siincretizada à ideia central da vida após a morte, será verossímil do ponto de vista religioso; eis porque o Alvissarismo acredita na existência de espíritos de luz ou de trevas de ancestrais brasileiros que correspondem aos seus respectivos arquétipos e pontos de força da natureza representados pelos mais diversos personagens dos mitos e lendas do folclore brasileiro, porque o Alvissarismo promoveu o sincretismo original entre o folclore e o cristianismo, ligando-os diretamente à mensagem central de uma vida após a morte, tornando o Curupira ou o Saci Pererê tão críveis quanto São Francisco e Santo Antônio, porque é a eles que se referem, pois se assim não fosse, Curupira e Saci Pererê não seriam entidades críveis assim como não é o Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa, o Gnomo ou a Fada dos Dentes, pois todas essas entidades não comungam em sua mitologia da ideia central de uma vida após a morte.

Como não é possível saber se uma determinada proposição sobre a vida após a morte é falsa ou verdadeira, o mais sensato a se fazer é suspender o juízo e adotar a possibilidade mais provável não como um juízo assertórico e apodítico, mas sim como hipotético e problemático, e ter certeza do juízo adotado somente depois de experimentá-lo por si mesmo. O Alvissarismo estrutura sua mensagem central da vida após a morte através da crença na ressurreição da alma ou corpo espiritual (e não do corpo físico), da imortalidade da alma como uma identidade permanente, do renascimento como uma herança de agregados impermanentes; referindo-se ao processo contínuo da mudança, da transformação erguido por uma luta de opostos binários como a Vida e a Morte estruturados como uma linguagem pela Roda das Encarnações, porque acredita que dentre todas as possibilidades de uma vida após a morte estas sejam as mais prováveis. Deste modo, se faz necessário esclarecer que o Alvissarismo não veio para desbancar o Kardecismo, mas sim reformá-lo e apresentar ao mundo mais uma quase-verdade, na esperança e na fé da revelação da Verdade Absoluta do Evangelho Eterno que só será anunciado pelo anjo no fim dos tempos. A Verdade Absoluta é uma mensagem eterna e universal. Paulo descreveu o evangelho como “a revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos, e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações” (Romanos 16:25-26). Aos efésios ele escreveu sobre seu privilégio de “pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas … segundo o eterno propósito que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Efésios 3:8-11).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s