Uma Interpretação Místico-Religiosa de Wittgenestein

Baseando-nos no exemplo de Wittgenstein, suponhamos que haja, numa urna, o mesmo número de bolas brancas e pretas (e nenhuma outra). Retiramos uma bola após a outra e voltamos a coloca-la na urna. Através dessa experiência, podemos estabelecer que, com o processo das retiradas, o número de bolas pretas e brancas se aproxima sucessivamente. Desse modo, torna-se tão provável que nós retiremos uma bola branca quanto uma bola preta. Isso quer dizer: todas as circunstâncias que nos são conhecidas (inclusive as chamadas leis da natureza hipoteticamente aceitas) não fornece à ocorrência de um evento maior probabilidade do que a ocorrência de outro. Quer dizer, ambas são reduzidas a no máximo 50% de sua possibilidade.

A desatenção de Wittgenstein nesse exemplo se dá pelo fato de ele não ter percebido que, justamente no instante em que nós retiramos uma das bolas da urna (ou seja, no momento de suspensão em que estamos com a bola nas mãos, mas ainda não a colocamos de volta na urna), o nosso conhecimento se eleva a 75%, pois nesse momento nós sabemos de antemão que há menos uma bola na urna, e é justamente esse (-1) que representa a experiência mística estruturada pelo sentimento e pela revelação. Ou seja, o sentimento e a revelação aumentam o nosso conhecimento em 25%. Podendo o homem conhecer até 75% da verdade da existência, sendo os 25% restante absolutamente indizível do ponto de vista teórico e somente possível do ponto de vista da prática moral.

A filosofia tem por dever ir até o extremo do dizível e, quando chegar a esse ponto, deve-se calar e passar a palavra à religião, isto é, ao que é místico. O método correto em religião é propriamente dizer sobre tudo aquilo que não pode ser dito pela filosofia, isto é, proposições metafísicas, porém, reconhecendo que todas as proposições a seu respeito estão para a ordem da fé e não da razão. A função da religião é justamente falar sobre aquilo que a filosofia deve-se calar, porém, admitindo que todas as suas proposições são hipotéticas e problemáticas e jamais possuirão caráter assertórico e apodítico. A verdadeira religião é aquela que, amparada à filosofia, é capaz de, humildemente, reconhecer os seus próprios limites. A verdadeira religião é aquela que fala sobre tudo aquilo que a filosofia se cala, porém, reconhecendo que toda a sua fala é absolutamente vazia de significado. A metafísica não é uma questão para a filosofia, mas sim para a religião. Toda filosofia ou religião que não reconhece os seus próprios limites é fanática e dogmática, e, por isso, extremamente danosa a toda humanidade. A função da filosofia é essencialmente crítica, ou seja, seu objetivo deve ser justamente descobrir os limites do dizível. E a função da religião é justamente aceitar humildemente os limites descobertos pela filosofia e expor as suas proposições metafísicas como estando além desses limites. É preciso, por assim dizer, não jogar a escada fora depois de ter subido por ela, como quis Wittgenstein, mas sim reconhecer que ela não é capaz de nos levar até o topo.

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