O Paradoxo do Imbecil: Crítica ao Conceito de Paralaxe Cognitiva

O conceito de paralaxe cognitiva apresentado por Olavo de Carvalho em seu seminário de filosofia, e que consiste em representar o fenômeno do afastamento entre o eixo da construção teórica do autor e o eixo da sua experiência real, isto é, a discrepância entre a sua teoria e a prática de sua vida pessoal, apesar de ser um conceito que representa um fenômeno real, não passa de um instrumento filosófico falacioso, um argumentum ad hominem, onde alguém procura negar uma proposição ou teoria através do apelo à vida pessoal do autor e não ao conteúdo de sua obra. A paralaxe cognitiva de Olavo de Carvalho é um forte instrumento retórico criado por ele para combater a mente revolucionária, invalidando suas ideias e teorias através do apelo às incoerências entre a vida pessoal do autor e o conteúdo de sua obra. Este é um forte argumento retórico, porém não possui fundamento lógico, pois conclui o valor da proposição com base na vida particular do autor da proposição. A paralaxe cognitiva é apenas uma falácia arquitetada como fenômeno filosófico, ou seja, é o estratagema que Olavo de Carvalho criou para desviar a atenção da obra do autor para a sua vida pessoal, levando o foco da proposição para um elemento externo a ela, que são os elementos da vida pessoal do autor. O pior é que o próprio Olavo de Carvalho não percebeu que ele mesmo caiu em contradição ao formular este conceito. A sentença “O imbecil coletivo” pressupõe que o conjunto de todos os indivíduos possui o atributo da imbecilidade. Com base no paradoxo de Russel, considere o conjunto de indivíduos I como sendo “o conjunto de todos os conjuntos que não se contêm a si próprios como membros”. Formalmente: o indivíduo representado pela letra I é elemento da coletividade representada pela letra C se e só se I não é elemento de I. Em outras palavras, o indivíduo é elemento da coletividade se e só se o indivíduo não é elemento do conjunto de todos os indivíduos.
                                               C = {I / I Ɇ I}
No sistema coletivo, C é um conjunto bem definido de indivíduos. A questão a ser resolvida aqui é a seguinte: será que I se contém a si mesmo? Se sim, não é membro de C de acordo com a definição. Por outro lado, supondo que I não se contém a si mesmo, tem de ser membro de I, de acordo com a definição de I. Desse modo, as afirmações “I é membro de I” e “I não é membro de I” conduzem ambas a contradições. Isso quer dizer que o livro de Olavo de Carvalho intitulado “O imbecil Coletivo – atualidades inculturais brasileiras” estrutura-se através de um paradoxo que iremos denominar de paradoxo do imbecil, pois se o título do livro e a ideia que nele contém afirma que o conjunto de todos os indivíduos brasileiros possui o atributo da imbecilidade, isto quer dizer que o autor do livro, isto é, Olavo de Carvalho, ou é um imbecil ou não faz parte do conjunto de todos os indivíduos brasileiros. Ou Olavo de Carvalho é um imbecil ou ele não é um brasileiro. Se Olavo de Carvalho é um indivíduo brasileiro, então ele também é um imbecil. Por outro lado, se Olavo de Carvalho não é um imbecil, então ele não faz parte do conjunto de todos os indivíduos brasileiros. Ora, fica notório aqui que o próprio conceito de paralaxe cognitiva criado por Olavo de Carvalho apresenta em sua estrutura íntima uma paralaxe cognitiva, pois, ou Olavo de Carvalho está chamando a si mesmo de imbecil ou ele está afirmando não ser um indivíduo brasileiro. Se Olavo de Carvalho faz parte do conjunto de todos os indivíduos brasileiros, então ele é um imbecil. Por outro lado, se Olavo de Carvalho não faz parte do conjunto de todos os indivíduos brasileiros, então ele não é sequer um indivíduo. Portanto, partindo da análise do título do livro de Olavo de Carvalho intitulado “O imbecil Coletivo – atualidades inculturais brasileiras”, que pressupõe a afirmação da sentença “O conjunto de todos os indivíduos do Brasil é um imbecil”, as afirmações “Olavo de Carvalho é um imbecil” e “Olavo de Carvalho não é um imbecil” conduzem ambas a contradições, ou seja, o autor do conceito de paralaxe cognitiva, isto é, Olavo de Carvalho, foi traído por sua própria criação, posto que o próprio Olavo de Carvalho criou com este conceito um afastamento entre o eixo da sua construção teórica e o eixo da sua existência real, como pudemos ver anteriormente, pois ou ele está, com este livro, afirmando ser um imbecil, ou ele está, com este livro, afirmando não ser um indivíduo brasileiro. No entanto, é óbvio que nós temos ciência de que na realidade ao escrever o livro “O imbecil coletivo – atualidades inculturais brasileiras”, Olavo de Carvalho não estava nem chamando a si mesmo de imbecil, posto que ele é uma das mentes filosóficas mais brilhantes e influentes da história da filosofia tupiniquim, cujo trabalho filosófico é de suma importância para a história da filosofia mundial e principalmente para a história da filosofia brasileira, já que Olavo é o responsável pela ressurreição da filosofia no Brasil, e nem afirmando não ser um indivíduo brasileiro, mas estava apenas apresentando ao leitor atento as atualidades inculturais brasileiras. O paradoxo do imbecil apresentado acima pretende apenas demonstrar que o título do livro e a ideia que nele contém constitui em si mesmo um paradoxo, posto que ao se referir à imbecilidade coletiva demonstrada pelas atualidades inculturais brasileiras, Olavo de Carvalho inclui a si mesmo nesta coletividade sem perceber tê-lo feito, já que ele é um dos indivíduos que compõem o conjunto de todos os indivíduos brasileiros, isto é, a coletividade de indivíduos nascidos no Brasil, do qual ele afirma ser um imbecil. Ou seja, o conceito de paralaxe cognitiva é inconsistente por ser ele mesmo uma paralaxe cognitiva, sendo, portanto, um conceito ilícito e falacioso, e justamente por isso nenhum filósofo que se preze deve analisar a veracidade ou falsidade das proposições de outro filósofo apelando para a vida pessoal deste. Um filósofo deve expor as mazelas da filosofia, e não as mazelas de outro filósofo. Não nos cabe julgar a vida pessoal nem o caráter de qualquer filósofo, e muito menos analisar a veracidade ou falsidade de suas proposições e as consequências filosóficas, políticas, econômicas e sociais de suas teorias com base em sua vida particular. A paralaxe cognitiva não passa de um instrumento retórico e sofístico que permite ao filósofo fazer fofoca enquanto aparenta fazer filosofia. Só um jornalista poderia ter inventado tal conceito.
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