A Paraconsistência da Ciência da Lógica de Hegel

No Livro Lógica Alvissarista o Alvissarismo apresenta a ideia de que a existência deve ser lida como se lê uma partitura musical, onde se contrapõe a diacronia da consciência e a sincronia do inconsciente. Desta forma, o Ser deve ser dividido em unidades, pois existe uma dupla leitura do Ser; além de que o Ser está referenciado tanto a outros seres quanto ao conjunto de todos os entes.

Isso será facilmente compreendido se tomarmos como exemplo a lógica paraconsistente, que é um tipo de lógica onde não existe o princípio da contradição, isto é, onde  se pode, contrariando a lei de não contradição de Aristóteles, dizer de algo que é e que não é no mesmo sentido e, ao mesmo tempo, ou seja, onde proposições contrarias e antagônicas podem ser verdadeiras ou falsas no mesmo sentido e, ao mesmo tempo. Na lógica paraconsistente, tanto as proposições afirmativas quanto negativas podem ser falsas ou verdadeiras, dependendo da situação. A lógica paraconsistente é a lógica do paradoxo. Vejamos o seguinte exemplo de uma proposição paraconsistente: “O Ser e o Nada são o mesmo”. Na lógica clássica um Ser não pode ser o Nada, na lógica paraconsistente extraída da Ciência da Lógica de Hegel o Ser e o Nada podem ser um e o mesmo.

A proposição “O Ser e o Nada são o mesmo” é a proposição central da Ciência da Lógica de Hegel, e esta proposição ergue de imediato a possibilidade de uma extração sistemática de uma lógica paraconsistente capaz de resolver os mais diversos tipos de paradoxos psicológicos, lógicos, metafísicos e éticos. Vejamos mais de perto o que está implícito na proposição central da lógica paraconsistente existente na obra de Hegel. Muitas vezes proposições paradoxais nos parecem falsas, como “O Ser e o Nada são o mesmo”. Sua análise lógica, tal como Russel a descreveu em sua “Introdução à Filosofia da Matemática”, porém, revelará que ela é verdadeira e envolve uma quantificação existencial. Ela pressupõe a afirmação de que existe um Ser e que esse Ser é o Nada. Vejamos como podemos proceder na análise lógica da proposição “O Ser e o Nada são o mesmo”

A proposição “O Ser e o Nada são o mesmo” envolve:

1°- “x é o Nada” não é sempre falsa.

2°- “se x e y são o Nada”, x e y são idênticos.

3°- “se x é o Nada, x é o Ser” é sempre verdadeira.

Essas três proposições podem ser traduzidas para uma linguagem ordinária da seguinte forma:

1°- Pelo menos um Ser é o Nada.

2°- No máximo um Ser é o Nada.

3°- Quem quer que seja o Ser é o Nada.

Como pudemos ver acima, a classe das proposições verdadeiras possui uma importante divisão. Existe uma subclasse de proposições que podem sim, de alguma forma, ser falsas, e existe outra subclasse de proposições que não podem, de forma alguma, ser falsas. A proposição “O vento derrubou a casa” pertence à primeira subclasse, enquanto que a proposição “Todo quadrado tem quatro lados” pertence à segunda subclasse. Do mesmo modo, existe uma subclasse de proposições falsas que podem sim, de alguma forma, ser verdadeiras, e existe outra subclasse de proposições que de forma alguma poderiam ser verdadeiras. A proposição “O Ser e o Nada são o mesmo” pertence à primeira subclasse, enquanto que a proposição “Toda bola é quadrada” ou “1 + 1 = 3” pertence à segunda subclasse.

Segundo Bertrand Russell (1872-1970), a lógica de Hegel (1770-1831) foi estruturada através de um quiproquó no que se refere ao significado do verbo ser. Russell diz que “o argumento de Hegel nesta porção de sua ‘Lógica’ depende completamente de confundir o ‘é’ da predicação, como em ‘Sócrates é mortal’, com o ‘é’ da identidade, como em ‘Sócrates é o filósofo que bebeu a cicuta’”. Para Russell, devido a este imbróglio, Hegel pensa que “Sócrates” e “mortal” são idênticos. Para Hegel, “Sócrates” é particular e “mortal” é universal, desse modo ele formula a proposição de que “o particular é o universal”, proposição essa que Russell não aceita como verdadeira, mas sim como ilusória, posto que esta é uma proposição auto-contraditória. É claro que se Russell estivesse certo toda o sistema filosófico de Hegel cairia por terra, o problema é que Russell não percebeu duas coisas básicas aqui: a primeira coisa que Russell não levou em conta é que a Lógica de Hegel é contraditória em si mesma, ou seja, essa é sua intenção, Hegel em momento algum pretendeu não ser contraditório, já que a sua Lógica está fundada na contradição dialética de opostos binários; a segunda coisa que Russell não percebeu é que o ‘é’ de uma proposição pode ser ao mesmo tempo um ‘é’ de predicação e um ‘é’ de identidade, como por exemplo, na seguinte proposição da Lógica de Hegel: “O Ser e o Nada são um e o mesmo”; aqui o ‘é’ se refere tanto a predicação, como em “O Ser é Nada”, quanto à identidade, como em “O Ser é o Nada”.

Feita esta demonstração, fica claro que a argumentação de Russell contra a Lógica de Hegel é na verdade produzida por uma desatenção por parte do primeiro em relação à filosofia do segundo. A Lógica de Hegel não é para ser coerente, mas sim contraditória. Novamente, se “O Ser e o Nada são um e o mesmo”, e o “Ser” é particular e o “Nada” universal, dado que “o Ser é o Nada”, logo o particular é o universal. A Lógica de Hegel é a base fundamental da Filosofia Alvissarista, que não pretende superar a metafísica, mas sim extrair da Ciência da Lógica de Hegel uma lógica paraconsistente capaz de resolver contradições psicológicas, lógicas, metafísicas e éticas.

 

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