O Complexo de Fausto: A Morte da Ciência e a Ressurreição de Deus

Depois da ferida narcísica produzida na humanidade por ocasião e influência da publicação de A Origem das Espécies de Charles Darwin (1809-1882), onde foi desconstruída a convicção metafísica, teológica e religiosa sobre a origem do homem até então proeminente em todo o mundo, e da revolução epistemológica causada pela Crítica da Razão Pura de Emmanuel Kant, onde se tornou impossível o conhecimento metafísico, teológico e religioso, e do fetichismo humanoide provocado pela influência do positivismo de Augusto Comte (1798-1857), onde foi conclamada a superação total da metafísica e da teologia em prol do estudo das leis naturais promulgadas pela erupção vulcânica da Ciência, promovendo um humanismo patológico que chegou ao ponto de se materializar em uma Religião da Humanidade, onde não se veneraria mais seres sobrenaturais, mas sim o homem e seu intelecto; não coube a Nietzsche (1844-1900) outro papel senão o de profeta anunciador da Morte de Deus.

Em meio a esse cenário melancólico, onde o mundo e o Brasil estão a prantear o Deus morto, e ver seu antigo trono ser ocupado pela Ciência agora encarnada no humanismo advogado pelo positivismo de Comte e pelo materialismo de Marx (1818-1883), surge a figura solitária e enigmática de Vicente Ferreira da Silva (1906-1963).

O mais misterioso na trajetória filosófica de Da Silva é a estrutura metanoica de seu pensamento, isto é, a Filosofia de Da Silva é marcada pela mudança no eixo central de suas ideias, ou seja, pela transformação do seu modo próprio e original de pensar e filosofar. A obra de Da Silva é marcada por uma metamorfose filosófica. Da lógica simbólica e matemática ao existencialismo/fenomenológico e, por fim, a poesia, o mito, o rito e a religião.

A originalidade e genialidade do pensamento de Da Silva se dá basicamente pelo seu posicionamento antitético em relação ao espírito humanoide de sua própria época, se propondo resolver o problema do homem e do mundo não a partir do próprio homem, mas sim a partir de Deus. É justamente essa posição original e antitética que faz de Da Silva um dos maiores filósofos metafísicos de toda história da filosofia; o seu posicionamento corajoso e ousado exposto em dois de seus trabalhos mais importantes, que são as suas reflexões sobre A carta sobre o humanismo de Heidegger (1889-1976) em Ideias para um novo conceito de homem, de 1951, e Teologia e anti-humanismo, de 1953, faz de Da Silva o Filósofo pioneiro de uma vanguarda que se iniciou com ele, mas que ainda não foi sentida de forma plena pela humanidade, pois a semente plantada por Da Silva já começou a germinar e em breve dará frutos que todos verão e se deliciarão.

Da Silva entrará para história como o Filósofo símbolo de um espírito de época que será marcado pela ruptura com o humanismo, o cientificismo e o materialismo. Da Silva é a síntese de uma época que ainda está por vir, suas palavras ainda não foram sentidas no coração dos homens porque a sua semente ainda está a germinar. Isso talvez explique o silêncio hediondo em torno de sua obra desde a sua morte.

Mas como explicar a metanoia filosófica de Da Silva? Para isso lançaremos mão do conceito de Complexo de Fausto, como uma referência ao poema trágico de Goethe (1749-1832), onde o personagem Fausto – o favorito de Deus -, um erudito que se depara com as limitações do conhecimento científico/humanista, passa a recorrer à magia para chegar ao conhecimento ilimitado. Esse processo vivenciado por Fausto simboliza em um poema trágico a metanoia de um espírito de época que historicamente foi revelado pioneiramente na filosofia de Da Silva. Assim como Fausto, Da Silva era um erudito que se deparou com os limites do positivismo lógico, da lógica matemática, do existencialismo e da fenomenologia, passando a recorrer à poesia, ao mito e ao rito para explicar as coisas do homem e do mundo não pelo olhar do próprio homem, mas sim pelo olhar de Deus.

A metanoia vivenciada por Da Silva simboliza a metanoia de uma época. Comte e toda a geração positivista desconsiderava a introspecção como meio de se obter conhecimento sobre o homem e o mundo, insistindo na objetividade do conhecimento científico em detrimento do conhecimento teológico, metafísico e religioso, impossibilitando todo tipo de conhecimento não observável, descartando todo tipo de pesquisa cosmológica, considerando a metafísica inútil e inacessível à ciência. No entanto, esta posição foi desconstruída radicalmente através de avanços na química e na física, particularmente através dos trabalhos de Boltzmann (1844-1906) e Max Planck (1848-1947), que comprovaram a existência de partículas não observáveis diretamente, confiando na intuição como forma de produzir conhecimento, se assemelhando ao que Charles Sanders Peirce (1839-1914) denominou de abdução.

O sonho de Nietzsche de um mundo sem Deus caiu por terra, pois o determinismo científico sucumbiu com o experimento imaginário do gato de Schörodinger (1887-1961), o princípio da incerteza de Heisenberg (1901-1976) e o teorema da incompletude de Gödel (1906-1978). O trabalho exuberante desses três grandes cientistas marcou o princípio do fim do período nietzschiano da civilização ocidental e sua insistência dogmática e fanática em desprezar a metafísica, a teologia e a religião.

A Filosofia de Da Silva sintetiza a vanguarda do espírito de uma época em que a humanidade se depara inexoravelmente com os limites da ciência e passa a recorrer à metafísica, a teologia e a religião para explicar os mistérios do homem e do mundo, anunciando assim, ainda no parto, a morte da ciência e a ressurreição de Deus.

A humanidade está de luto. A ciência morreu e Deus ressuscitou. A dor da morte da ciência é atenuada pela ressurreição de Deus, que agora retoma o seu trono outrora roubado pelo homem.  Se Nietzsche vos anunciou a morte de Deus, Da Silva plantou no Brasil a semente da sua ressurreição que hoje vos é anunciada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s