Os Juízos Analíticos a Posteriori e a Ressurreição de Deus

Kant (1724-1804) expôs em sua “Crítica da Razão Pura” a distinção mais importante da história da epistemologia. A distinção entre juízos analíticos e juízos sintéticos deve estar na base de qualquer sistema sério de Filosofia e Religião.

De acordo com Kant todos os juízos em que for pensada a relação de um sujeito com o predicado, essa relação é possível de dois modos: Ou o predicado B pertence ao sujeito A como algo contido nesse conceito A, ou B jaz completamente fora do conceito A, estando em conexão com o mesmo. No primeiro caso Kant denominou de juízo analítico, no outro caso denominou de juízo sintético. Juízos analíticos são aqueles onde há uma conexão direta por identidade, analogia ou semelhança entre o sujeito e o predicado; e juízos sintéticos são aqueles onde a conexão entre o sujeito e o predicado não é pensada por identidade, analogia ou semelhança.  Kant chama os juízos analíticos de juízos de elucidação, e os juízos sintéticos ele denomina como juízos de ampliação.

Por exemplo: se eu digo “Todo triângulo tem três lados”, então este juízo é analítico, pois o predicado já está contido no sujeito. Por outro lado, quando eu digo: “O vento derrubou a casa”, então este juízo é sintético, pois o predicado não está contido no sujeito nem pode ser extraído deste por simples semelhança ou analogia.

Essa é, pois, a distinção primordial da epistemologia, e todo sistema de Filosofia e Religião que quiser ser levado a sério deve conter em sua base fundamental a distinção entre juízos analíticos e sintéticos, e entre conhecimento a priori (independente de toda experiência sensível) e conhecimento a posteriori (dependente da experiência sensível).

Segundo Kant juízos de experiência como tais são todos sintéticos, e juízos analíticos são todos a priori, mas, se todos os juízos de experiência são de fato sintéticos, como então é possível a existência da psicanálise e da religião? Ora, se a psicanálise é constituída exclusivamente por juízos analíticos e estruturada através da experiência da fala, então os juízos de experiência, ao contrário do que pensava Kant, podem sim ser estruturados de modo analítico, e os juízos analíticos, ao contrário do que pensava Kant, podem sim ser estruturados a posteriori, e a psicanálise é a prova cabal da existência de juízos analíticos a posteriori, que são análises fundadas posteriormente à experiência. Se todos os juízos de experiência fossem de fato apenas sintéticos e se todos os juízos analíticos fossem de fato a priori, a psicanálise ou não existiria ou se chamaria psicosíntese, e não psicanálise.

Alguns filósofos podem até negar a existência de juízos analíticos a posteriori, desde que sejam capazes de explicar como é possível a existência da psicanálise e da religião, posto que nem a psicanálise nem a religião são estruturadas por juízos sintéticos a priori e a posteriori ou analíticos a priori, já que se os juízos analíticos da psicanálise e da religião fossem todos a priori, como quiseram os filósofos desde Kant, a própria psicanálise que depende da experiência da fala e a religião que depende da experiência mística não existiriam. Se a psicanálise e a religião não foram fundadas através de juízos sintéticos a priori ou a posteriori, já que este tipo de juízo não é possível na psicanálise e na religião, nem mesmo foram fundadas puramente através de juízos analíticos a priori, já que tanto a psicanálise quanto a religião dependeram da experiência sensível para serem fundas, a psicanálise dependeu da experiência da fala e a religião dependeu da experiência mística, só resta então uma única possibilidade, ambas foram fundadas através de juízos analíticos a posteriori. Se negarmos a existência desse tipo de juízo, ficará impossível explicar a existência da psicanálise e da religião.

A grande revolução filosófica arquitetada pelo Alvissarismo está justamente na descoberta fundamental dos juízos analíticos a posteriori; desde Kant, não houve sequer um único filósofo com coragem o bastante para questionar a ideia de que todo juízo de experiência é sintético e que todo juízo analítico é a priori, com exceção de Saul Kripke (1940), que defendeu a tese do necessário a posteriori e do contingente a priori. Kripke descobriu a existência de juízos necessários a posteriori e nós descobrimos a existência de juízos universais a posteriori, esta foi, pois, a grande ruptura causada pela Filosofia Alvissarista, que, através da pergunta “existem juízos analíticos a posteriori?” causou uma revolução sem precedentes na história da filosofia iniciada brilhantemente por Kripke. O mais importante aqui não é nem a resposta dada pelo Alvissarismo a esta pergunta, mas sim a própria pergunta, posto que ela rompe de uma vez por todas com a filosofia Kantiana, que fundou as bases da filosofia moderna através da negação da revelação.

O Alvissarismo dá, portanto, início a uma nova era na história da filosofia, uma era onde na filosofia é possível a revelação, onde é possível existir uma filosofia unificada à mitologia e à religião, como um retorno à filosofia pré-talesiana, isto é, uma filosofia antes do surgimento de Tales de Mileto (624 a. C – 546 a. C), que separou a filosofia da religião através da proposição “a água é a origem de todas as coisas”. Desta forma estrutura-se o Alvissarismo, já que esta filosofia religiosa é contida por juízos analíticos, mas foi fundada posteriormente à experiência mística vivenciada pelo presente autor. A religião só existe porque são possíveis juízos de experiência fundados de modo puramente analítico. Todavia, na religião não é possível qualquer tipo de juízo sintético, nem a priori nem a posteriori; em verdade, é facilmente perceptível que a religião só é possível via juízos analíticos a priori e a posteriori, isso na medida em que as proposições teológicas são, por um lado, todas universais e necessárias quando são analíticas a priori, e por outro lado, todas singulares e particulares quando são analíticas a posteriori, lembrando que todo juízo analítico a posteriori estrutura em si mesmo a necessidade e a universalidade, porque são especulações filosóficas com base em dados concretos, ou seja, são especulações com base na experiência sensível, tal como fizera Alan Kardec (1804-1869) ao codificar o Espiritismo com base na experiência das mesas girantes. Nos juízos analíticos a posteriori o sujeito e o predicado possuem relações de identidade e semelhança, porém essa relação só é estabelecida graças à experiência sensível, portanto, trata-se de um juízo que depende da experiência para ser erguido, mas como é analítico, estrutura-se de forma universal e necessária e, devido à experiência, possibilita certo grau de ampliação no conhecimento, mesmo que seja de forma limitada e incompleta, os juízos analíticos a posteriori são os mais importantes para a metafísica, a teologia e a religião, pois são juízos universais e necessários, que se estruturam na singularidade e na particularidade da experiência de cada sujeito. O juízo analítico a posteriori é aquele que compara representações e conceitos, avaliando os fenômenos particulares e ligando-os a leis universais, ele reflete sobre conceitos universais de acordo com sua singularidade, analisando a experiência e submetendo-a a especulações empíricas que fundamentam leis estéticas e teleológicas de modo universal e necessário. Os juízos analíticos a posteriori são parecidos com os juízos reflexionantes descobertos por Kant na “Crítica do Juízo”, porém não são sintéticos, mas sim analíticos, ou seja, são dedutivos e não indutivos. O juízo analítico a posteriori é uma dedução estética ou teleológica universal e necessária tirada da experiência sensível. O juízo analítico a posteriori é o único capaz de ampliar o conhecimento metafísico, mesmo que de uma forma limitada e incompleta, pois ele é o único juízo capaz de estruturar em si mesmo o retorno do real dentro do simbólico e/ou do imaginário, possibilitando a ampliação do conhecimento metafísico, teológico e religioso, estabelecendo a prova moral da existência de Deus, da imortalidade da alma, da reencarnação, da pluralidade dos mundos e da comunicabilidade entre os vivos e os mortos com base na análise da experiência mística e/ou mediunidade. O problema do juízo mediúnico é que este, por mais que estabeleça proposições universais e necessárias como referentes à existência de Deus ou à imortalidade da alma, são sempre particulares e subjetivos, e, por mais que sujeitos como Chico Xavier (1910-2002) e Pedro Siqueira (1971) possam ver e falar com as almas dos mortos, e nos afirmem que Deus existe e que a alma é de fato imortal porque eles experienciaram essa realidade, mesmo assim essa ampliação do conhecimento só é valida para eles, pois, para qualquer outra pessoa que não tenha uma mediunidade ostensiva igual a deles, esse conhecimento permanece vazio, e o máximo que a pessoa pode fazer é ter fé em suas palavras e em suas obras, mas estas jamais terão validade objetiva, isto é, científica, pois a ampliação do conhecimento metafísico aqui é exclusivamente particular e singular, vivenciada única e exclusivamente por eles, os médiuns Chico Xavier e Pedro Siqueira. Nós, porém, não devemos fazer como Kant e interpretar os “Sonhos de um visionário explicados por sonhos da metafísica” como um delírio ou alucinação, mas como uma ampliação subjetiva do conhecimento metafísico devido à experiência sensível da mediunidade, que faz com que o subjetivo e o objetivo se tornem um e o mesmo, sendo a mediunidade ou o Dom do Espírito Santo aquilo que, regido pelo juízo, intercambia os mundos sensível e inteligível.

Mas como são possíveis juízos analíticos a posteriori? Em outras palavras, como pode um juízo de experiência ser analítico? O que possibilita a existência de juízos analíticos a posteriori é o fato de os juízos analíticos poderem ser tanto implícitos quanto explícitos. Se o predicado estiver implícito no sujeito então o juízo será sempre analítico a posteriori, mas se o predicado estiver explícito no sujeito então o juízo será sempre analítico a priori. O erro de Kant foi justamente não perceber que existem dois tipos de juízos analíticos: o juízo analítico implícito, onde o predicado está latente no sujeito, e o juízo analítico explícito, onde o predicado está manifesto no sujeito. Esse erro de Kant o levou a negar a possibilidade de um juízo de experiência ser analítico, ou seja, o fato de Kant não ter percebido que há, na verdade, dois tipos de juízos analíticos (o implícito e o explícito), fez com que ele e todas as gerações de filósofos depois dele negassem a possibilidade da revelação, legando à filosofia e à humanidade um dano inimaginável, pois este posicionamento excluiu Deus do centro da investigação filosófica por mais de dois séculos, até a chegada do Alvissarismo, que restituiu a centralidade de Deus na filosofia através da descoberta dos juízos analíticos a posteriori.

A história da filosofia aconteceu mais ou menos assim: Kant cavou uma cova e jogou dentro dela os céticos, ateus, fanáticos e dogmáticos, depois de jogá-los dentro da cova, sentiu-se cansado, virou-se de costas para a cova, afastou-se dela alguns metros deitou-se e dormiu; Deus então desceu do céu a terra e foi lá ver o trabalho realizado por Kant, e junto a cova, entoou um hino em homenagem aos falecidos, dando à alma de cada um deles o seu devido lugar; ao ver que Kant estava dormindo, Comte aproveitou a cova cavada e empurrou Deus dentro para dentro dela junto com os céticos, ateus, fanáticos e dogmáticos, ao empurrá-lo, saiu em disparada, foi então que Nietzsche, que estava escondido em meio aos arbustos do cemitério, viu aquela cena e, aproveitando-se da situação, enterrou Deus de uma vez por todas, e por cima da cova colocou uma lápide cuja escritura era: “Deus está morto”. Depois de enterrar Deus, Nietzsche então partiu. Após algum tempo, veio o Mensageiro Alvissarista ao cemitério, e chegando perto do túmulo de Deus, percebeu que ali ao lado havia um homem dormindo, era Kant, que ainda estava a descansar, foi até o sujeito e o acordou, e assim que ele despertou, perguntou-lhe o que havia acontecido ali, Kant então respondeu ao Mensageiro Alvissarista que ele havia cavado uma cova para enterrar os céticos, ateus, fanáticos e dogmáticos, mas que por estar muito cansado, acabou pegando no sono após jogá-los na cova; depois de ouvir estas palavras, o Mensageiro Alvissarista estranhou o que Kant havia dito e perguntou-lhe: Mas se o senhor cavou esta cova e jogou dentro dela os céticos, ateus, fanáticos e dogmáticos, como pode ser que esta cova já esteja coberta de terra e em sua lápide esteja escrito “Deus está morto?” Kant logo se espantou com as palavras do Mensageiro Alvissarista e percebeu que enquanto ele dormia, outros vieram e sepultaram Deus na cova que ele havia cavado para os céticos, ateus, fanáticos e dogmáticos, logo que se deram conta daquela lastimável situação o Mensageiro Alvissarista e Kant pegaram a pá e começaram a cavar a cova, quando chegaram ao fim, se depararam com Deus, retiraram seu corpo da sepultura e o ressuscitaram, mantendo na cova apenas o corpo dos céticos, ateus, fanáticos e dogmáticos.

Esta é apenas uma forma alegórica de demonstrar como se deu o processo de centralização de Deus novamente na história da filosofia, através da descoberta dos juízos analíticos a posteriori pelo Alvissarismo em sua releitura crítica da filosofia Kantiana. Mas, analisemos mais de perto a diferença fundamental entre os juízos analíticos a priori descobertos por Kant e os juízos analíticos a posteriori descobertos pelo Alvissarismo. Por exemplo: se eu digo “todo solteiro não é casado”, então esse juízo é analítico a priori, pois o predicado está explícito no sujeito, de modo que não é preciso a experiência para saber que todo solteiro não é casado. Porém, se eu digo: “Todo homem é racional”, então esse juízo é analítico a posteriori, pois o predicado está implícito no sujeito, e não explícito como no juízo “todo solteiro não é casado”, por isso, aqui, a conexão analógica só é possível devido à experiência da racionalidade, pois para saber que todo homem é racional, é necessário antes que o homem tenha vivenciado a experiência da racionalidade. É da experiência da racionalidade que surge a possibilidade da analogia entre o sujeito e o predicado. Outro exemplo clássico de juízo analítico a posteriori é o juízo “todas as almas são imortais”, que estrutura a metafísica, a teologia e a religião, pois neste juízo o predicado está implícito no sujeito, e não explícito como no juízo “todo quadrado tem quatro lados”, e a conexão analógica entre eles só é possível devido à experiência mística, pois para saber que todas as almas são imortais, é necessário antes que o homem tenha vivenciado uma experiência mística que o faça constatar empiricamente que o juízo “todas as almas são imortais” é um juízo verdadeiro. Da mesma forma ocorre com o juízo geográfico “todo o planeta terra é redondo”, aqui, da mesma forma como no juízo antropológico e metafísico citado anteriormente, o predicado está implícito no sujeito, e não explícito como no juízo “todo circulo é redondo”, e a conexão analógica entre o sujeito e o predicado só foi possível devido à experiência marítima de Cristóvão Colombo (1451-1506), que, ao perceber o horizonte infinito dos mares, deduziu por analogia que a terra não era plana como se imaginava até então, mas sim redonda. Também é possível perceber a existência de juízos analíticos a posteriori na matemática (probabilidade), que representa as incertezas dos seres humanos sobre proposições quando não se tem o conhecimento completo das circunstâncias causativas do fenômeno analisado, ou seja, independente das possibilidades existentes a priori, eu só saberei o resultado a posteriori, isto é, considere um jogo de cara e coroa, a probabilidade de dar cara ou coroa é de 50% para cada jogada, e eu sei disso a priori, porém, eu só saberei de fato o resultado depois que a experiência da jogada for realizada, ou seja, a minha análise só poderá ser concluída a posteriori.

Do mesmo modo Newton (1643-1727) propôs, com base na análise da experiência, o princípio de ação e reação; da mesma forma Freud (1856-1939) propôs, com base na análise da experiência, a existência do complexo de Édipo e as formações do inconsciente; e, por fim, da mesma forma surgiu a religião em todas as suas denominações. A religião estrutura proposições universais e necessárias sobre a imortalidade da alma com base na experiência mística, que é particular, mas contém em si (graças à sua estrutura a priori) a possibilidade da universalidade. Isso graças ao fato de a religião se unir à filosofia, compondo assim a estrutura dialética entre os juízos analíticos a priori e a posteriori. Os primeiros pensadores a descobrir leis universais com base na experiência sensível foram Freud e Kardec (1804-1869), que não usaram nem o método dedutivo a priori de Descartes nem mesmo o método indutivo a posteriori de Newton. Freud criou a psicanálise e Kardec codificou o Espiritismo através do método dedutivo a posteriori, que, por sua vez, estrutura a base fundamental da insciência através dos juízos analíticos a posteriori. A dedução é primordialmente analítica e a indução primordialmente sintética. Por isso a religião e a psicanálise estão fundadas em juízos analíticos a posteriori.

Apesar de Freud e Kardec terem tentado forjar a psicanálise e o Espiritismo como ciência, desde que se leve em consideração a existência da “Crítica da Razão Pura”, sabe-se que ambas as tentativas foram frustradas e forjadas de forma absolutamente falaciosa. A primeira lei de Newton ou princípio da dinâmica está fundado pelo método indutivo a posteriori; o princípio da inércia possui uma estrutura sintética a posteriori. A proposição: “Todos os corpos são preguiçosos e não desejam modificar seu estado de movimento”, está fundada exclusivamente através da experiência sensível. O sujeito não possui qualquer relação analógica com o predicado, sendo a primeira lei de Newton exclusivamente sintética a posteriori. A segunda lei de Newton ou princípio fundamental da dinâmica estrutura-se na proposição: “A resultante das forças aplicadas a um ponto material é igual ao produto de sua massa pela aceleração adquirida”; este princípio estabelece uma proporcionalidade entre causa (força) e efeito (aceleração). Portanto, a segunda lei de Newton está estruturada como um juízo sintético a priori, justamente aqueles descobertos por Kant na sua “Crítica da Razão Pura”. O juízo sintético a priori ou método indutivo a priori, diz respeito à possibilidade e estrutura geral da experiência e são universais e necessários; a proposição: “Tudo o que acontece tem uma causa”, estabelece um formato onde o sujeito mantém uma relação de universalidade e necessidade com o predicado, que não possui nenhuma ligação essencial ou analógica com o sujeito, mas diz respeito à possibilidade e estrutura geral da experiência mesmo sendo independente de toda experiência sensível. Já a terceira lei de Newton ou princípio de ação e reação é estipulado pela proposição: “Toda ação corresponde a uma reação, com mesma intensidade, mesma direção e sentido contrário”. Onde o sujeito mantém uma relação universal e necessária com o predicado estabelecida pela cópula analógica existente entre o sujeito e o predicado, todavia, aqui, a analogia ou semelhança entre o sujeito e o predicado só se dá pelo viés da experiência sensível.

Diferentemente do juízo sintético a priori, o juízo analítico a posteriori mantém uma ligação essencial ou analógica de universalidade e necessidade entre o sujeito e o predicado, uma ligação que só pode ser estabelecida através da experiência sensível, tal como fizera Freud, Kardec, Colombo ou Newton. Portanto, a terceira lei de Newton ou princípio de ação e reação é puramente inscientífico, ou seja, regido por um juízo que é analítico a posteriori ou pelo método dedutivo a posteriori, e é somente por isso que ele é utilizado para sustentar a metafísica e a religião com os postulados da existência de Deus, da imortalidade da alma e da reencarnação, na medida em que esse princípio sustenta a base da Lei do Carma. Eis porque Kardec pensou que o Espiritismo fosse uma ciência. Kardec supôs que se poderia passar de um postulado singular para um postulado universal, ou seja, que se poderia passar de “esta alma é imortal” para “ali está outra alma imortal”, e por isso, “todas as almas são imortais”. No que se refere à lógica, este método é obviamente inválido, uma vez que o postulado “esta alma é imortal” não prova a veracidade do postulado “todas as almas são imortais”. Ou o contrário, o postulado “esta alma é mortal” não prova o postulado “todas as almas são mortais”. Este problema de indução lógica de um postulado singular para um postulado universal já havia sido identificado por David Hume (1711-1776) bem antes de Kardec codificar as bases filosóficas do moderno Espiritismo. Ou seja, faltou à Kardec estudar lógica para saber que de uma asserção singular não se pode postular uma asserção universal. O erro de Kardec foi não estudar a obra de David Hume e posteriormente a obra de Kant. O enunciado “esta alma é imortal” tirado por Kardec da observação das mesas girantes (e não da observação direta dos espíritos) é chamado, na lógica, de enunciado existencial singular, uma vez que ele afirma a imortalidade de uma alma em particular. Este enunciado não pode inferir que “todas as almas são imortais”, ou seja, na lógica, de um enunciado singular não se pode inferir um enunciado universal. Apesar do enunciado existencial singular “esta alma é imortal” não poder ser usado para afirmar o enunciado existencial universal “todas as almas são imortais”, ele pode ser usado para demonstrar que um determinado enunciado universal é falso. A observação existencial singular de uma alma mortal serve para mostrar que o enunciado “todas as almas são imortais” é falso. Do mesmo modo, a observação existencial singular de uma alma imortal serve para mostrar que o enunciado “todas as almas são mortais” é falso. No entanto, mesmo que um sujeito como Chico Xavier ou qualquer outro médium nos diga categoricamente poder se comunicar com os mortos e afirme que “esta alma é imortal”, esta asserção não possui qualquer caráter científico, pois este é um juízo exclusivamente singular promovido pelo dom mediúnico de Chico Xavier, e qualquer outra pessoa que não tenha o mesmo dom mediúnico não poderá jamais afirmar que “esta alma é imortal”, e mesmo que outra pessoa tenha o mesmo dom mediúnico, da asserção “esta alma é imortal” não é lícito inferir que “todas as almas são imortais”. A religião é estruturada por juízos analíticos, mas é fundada posteriormente à experiência mística. O juízo “todas as almas são imortais” é um juízo analítico a posteriori, pois aqui o predicado está implícito no sujeito e a conexão analógica só é possível devido à experiência mística, pois para saber que toda alma é imortal, é necessário antes que o homem tenha vivenciado a experiência da imortalidade.

A religião só existe porque são possíveis juízos de experiência fundados de modo puramente analítico. Todavia, na religião não é possível qualquer tipo de juízo sintético, nem a priori nem a posteriori; em verdade, é facilmente perceptível que a religião só é possível via juízos analíticos a priori e a posteriori, isso na medida em que as proposições teológicas são, por um lado, todas universais e necessárias quando são analíticas a priori, e por outro lado, todas singulares e particulares quando são analíticas a posteriori, lembrando que todo juízo analítico a posteriori estrutura em si mesmo a necessidade e a universalidade, porque são especulações filosóficas com base em dados concretos, ou seja, são especulações com base na experiência sensível, tal como fizera Alan Kardec ao codificar o Espiritismo com base na experiência das mesas girantes. Em lógica, não se pode inferir um enunciado universal de um enunciado singular, mas se pode inferir um enunciado singular de um enunciado universal, e é exatamente isto o que faz a metafísica, a teologia e a religião através dos juízos analíticos, que inferem de um enunciado universal a priori, como por exemplo: “Todas as almas são imortais”, um enunciado singular a posteriori, como por exemplo: “esta alma é imortal”. Um enunciado singular não é necessariamente um enunciado universal, mas um enunciado universal é necessariamente um enunciado singular, ou seja, se eu postulo que “todas as almas são imortais”, então necessariamente “esta alma é imortal”.

Esta é a base lógica na qual se estrutura o Espiritismo. Nos juízos analíticos a posteriori o sujeito e o predicado possuem relações de identidade e semelhança, porém essa relação só é estabelecida graças à experiência sensível, portanto, trata-se de um juízo que depende da experiência para ser erguido, mas como é analítico, estrutura-se de forma universal e necessária e, devido à experiência, possibilita certo grau de ampliação no conhecimento, mesmo que seja de forma limitada e incompleta, os juízos analíticos a posteriori são os mais importantes para a metafísica, a teologia e a religião, pois são juízos universais e necessários, que se estruturam na singularidade e na particularidade da experiência de cada sujeito. O juízo analítico a posteriori é aquele que compara representações e conceitos, avaliando os fenômenos particulares e ligando-os a leis universais, ele reflete sobre conceitos universais de acordo com sua singularidade, analisando a experiência e submetendo-a a especulações empíricas que fundamentam leis estéticas e teleológicas de modo universal e necessário.

Portanto, todo juízo analítico é ou explícito ou implícito, no primeiro caso será necessariamente a priori, e no segundo caso será necessariamente a posteriori. Desse modo, se o juízo analítico a priori é um juízo de elucidação, o juízo analítico a posteriori é um juízo de ampliação subjetiva. Os juízos analíticos a priori são todos universais e necessários, enquanto os juízos analíticos a posteriori são todos particulares e singulares. Com essa informação, se harmonizarmos os juízos analíticos a priori e os juízos analíticos a posteriori numa estrutura dialética, então teremos uma ampliação universal e necessária do conhecimento subjetivo; é com base nesse processo dialético que são possíveis proposições universais e necessárias na psicanálise e na religião, a primeira partindo da experiência da fala e a segunda partindo da experiência mística; ambas ampliam de forma universal e necessária o conhecimento subjetivo sobre as questões fundamentais da metafísica: Deus, alma e mundo. É dessa forma que Freud e Kardec trouxeram à luz um novo conhecimento sobre o homem, ampliando de forma universal e necessária o conhecimento subjetivo.

Os juízos analíticos a posteriori são especulações filosóficas com base na experiência sensível, enquanto os juízos analíticos a priori são especulações filosóficas puras, independente de toda experiência sensível. A existência dos juízos analíticos a priori explica a existência da filosofia, e a existência dos juízos analíticos a posteriori explica a existência da psicanálise e da religião, enquanto a existência dos juízos sintéticos a posteriori explica a existência da ciência humana e os juízos sintéticos a priori explica a existência da ciência exata.

 

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