O Paradoxo do Falante

O paradoxo do falante é o paradoxo apresentado pelo Alvissarismo no Livro Alvíssara, e que consiste na tese de que a linguagem é o conjunto de todos os significantes. Mas se a linguagem é o conjunto de todos os significantes, isso implica que, para ela ter surgido, é necessário que haja a ausência de um significante dentro do conjunto de todos os significantes, e esse significante ausente é, para nós, o fogo, como vos dissemos em outro lugar. O que está em questão quando nos referimos à origem, à essência e à natureza da linguagem é o Paradoxo de Russell (1872-1970). Considere o conjunto de significantes L como sendo “o conjunto de todos os conjuntos que não se contêm a si próprios como membros”. Formalmente: o significante representado pela letra S é elemento da linguagem representada pela letra L se e só se S não é elemento de S. Em outras palavras, o significante é elemento da linguagem se e só se o significante não é elemento do conjunto de significantes.

L = {S / S Ɇ S}

No sistema linguístico, L é um conjunto bem definido de significantes. A questão a ser resolvida aqui é a seguinte: será que L se contém a si mesmo? Se sim, não é membro de L de acordo com a definição. Por outro lado, supondo que L não se contém a si mesmo, tem de ser membro de L, de acordo com a definição de L. Desse modo, as afirmações “L é membro de L” e “L não é membro de L” conduzem ambas a contradições. Isso corrobora a tese de Lacan de que não há uma metalinguagem ou um metadiscurso que de alguma forma consiga escapar às limitações do paradoxo exposto acima, uma vez que o sujeito está sempre operando dentro de uma linguagem específica, mesmo quando fala de uma outra linguagem, quer dizer, nem mesmo no exemplo clássico de Hamlet, onde existe uma peça de teatro dentro da própria peça, há uma metalinguagem, porque a linguagem usada para descrever a peça teatral dentro da própria peça teatral não é outra senão a própria linguagem teatral; ou seja, nem mesmo se um sujeito sonhasse que estivesse tendo um sonho isso constituiria uma metalinguagem, pois a linguagem usada para descrever o sonho dentro do próprio sonho seria a própria linguagem onírica. Todos os exemplos de metalinguagem são completamente falsos e ilusórios, pois, em verdade, não há uma metalinguagem, e isto quer dizer: não há uma verdade da verdade. Não existe em nenhum exemplo de metalinguagem um ponto fora da linguagem, mas simplesmente uma elucidação da linguagem analisada. Toda linguagem requer uma perda de gozo (a exemplo da própria linguagem, que nasceu da perda do fogo) e tem sua própria verdade, que é, por vez, cuidadosamente camuflada. Cada linguagem define essa perda do gozo de uma forma específica. Kant (1724-1804) elucidou determinadas características do discurso metafísico, Hegel elucidou determinadas características do discurso do mestre, Lacan elucidou determinadas características do discurso da universidade, da histérica e do analista, Marx (1818-183), por outro lado, elucidou determinadas características do discurso capitalista, Olavo de Carvalho (1947), por sua vez, elucidou determinadas características do discurso comunista, Frege (1848-1925), Russell e Wittgenstein (1889-1951) elucidaram determinadas características do discurso lógico-matemático, o Alvissarismo elucidou determinadas características do discurso científico, psicanalítico, filosófico, teológico e religioso, mas nenhuma dessas elucidações tão importantes para a história da filosofia constituem um metadiscurso, pois é somente após identificarmos as características fundamentais de um discurso que podemos saber como ele funciona de fato. Uma linguagem usada para descrever algo sobre outras linguagens, ou seja, uma linguagem usada para descrever uma linguagem em si mesma é algo que ultrapassa os limites da própria linguagem. É justamente esse paradoxo que marca o limite entre um homem e um computador. Computadores não são inteligentes como humanos devido a existência desse paradoxo que torna impossível a existência de uma metalinguagem, é por isso que um computador não compreende a essência de uma ideia como um ser humano é capaz de compreender através de figuras de estilo; um robô, por mais elevada que seja a sua linguagem, jamais conseguirá captar a essência de uma metáfora ou de uma metonímia, ou seja, a linguagem de um robô, por mais inteligente que seja, jamais atingirá o grau de sofisticação da linguagem humana. A essência da linguagem é um jogo de quebra-cabeça: supondo-se que exista no mundo apenas um falante, do sexo masculino, como uma referência à nossa teoria sobre a origem da linguagem baseada no jogo da presença e ausência do fogo. Na era do gelo, neste mundo, todos os homens primitivos se comunicavam e eles faziam isso apenas de duas formas:

1°- Falando consigo mesmo.

2°- Falando com o outro.

Outra forma de definir essa situação é: o falante é um homem da horda primitiva que fala com todos aqueles, e somente dos homens da horda primitiva que não falam consigo mesmos. Esse raciocínio nos parece perfeitamente lógico, até colocarmos em evidência a seguinte questão paradoxal:

  • Quem ensinou o primeiro falante a falar?

Esta questão (quem falou com o primeiro falante?) leva o filósofo a um paradoxo lógico que denominaremos de paradoxo do falante, pois, de acordo com a afirmação acima, ele pode se comunicar da seguinte maneira:

1°- Ele ensinou a si mesmo a falar, ou…

2°- Ele foi ensinado por outro falante (que passa a ser ele mesmo).

No entanto, nenhuma dessas possibilidades são válidas, pois:

1°- Se o primeiro falante ensina a si mesmo a falar, então o falante (ele mesmo) não deve falar consigo mesmo.

2°- Se o falante não falar consigo mesmo, então ele (o falante) deve ensinar a si mesmo a falar.

O paradoxo lógico apresentado acima demonstra claramente que a teoria sobre a origem da linguagem, que segundo a nossa própria explicação é aparentemente plausível, torna-se logicamente impossível. Prestem bem atenção no que acabamos de dizer, pois a interpretação que fizemos do paradoxo de Russel sobre a origem primitiva da linguagem e que denominamos de paradoxo do falante, prova que todo o nosso labor filosófico de anos a fio para sistematizar uma filosofia que desse conta de explicar sobre uma estrutura minimamente lógica o como, o quando, o onde e o porquê surgiu a linguagem, e que é a fonte e a matriz de todo o sistema filosófico, político, econômico e religioso do Alvissarismo, foi por água abaixo, pois o paradoxo do falante demonstra que a nossa teoria sobre a origem da linguagem é por si mesma inconsistente, posto que não é possível explicar logicamente, isto é, cientificamente como, quando, onde e porque surgiu a linguagem, pois a questão (quem ensinou o primeiro falante a falar?) não pode ser demonstrada nem mesmo em termos matemáticos, posto que o paradoxo do falante está diretamente relacionado ao teorema da incompletude de Gödel, onde “qualquer teoria axiomática recursivamente enumerável e capaz de expressar algumas verdades básicas de aritmética não pode ser, ao mesmo tempo, completa e consistente. Ou seja, sempre há em uma teoria consistente proposições verdadeiras que não podem ser demonstradas nem negadas”, como é o caso da teoria do roubo do fogo, que prova a sua própria consistência justamente porque é inconsistente, já que “uma teoria recursivamente enumerável e capaz de expressar verdades básicas da aritmética e alguns enunciados da teoria da prova, pode provar sua própria consistência se, e somente se, for inconsistente”. É justamente por isso que nós recorremos à metafísica e à religião para explicar a origem da linguagem, tendo o primeiro falante – Homem primitivo de Pequim na figura de Adão (o Verbo divino que se fez carne) – recebido a sua faculdade linguística diretamente de Deus.

 

 

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